quinta-feira, 4 de outubro de 2012

aranhas NO PEITO - por Simone Huck

Caminhava apressado quando percebeu que a camisa apertava sua intenção de ser feliz. Abriu a porta da sala, entrou, jogou as coisas no sofá e apressado escancarou botão por botão da camisa azul. Queria ter vestido preto naquele outubro fúnebre. Cores escuras mentem nossa possível luz. Estava tão cansado. Mais um dia desnecessário no seu calendário particular de perdas. Já não era possível tocar o passado feliz.

Enquanto abria a camisa, conseguia perceber o emaranhado de teias. Era fato: havia nascido mais uma aranha em seu peito. Estava perdendo o controle de quantas famílias aracnídeas habitavam seu tórax. Como controlar as pragas se há dias andava úmido, escuro e triste? Acumulando velhas lembranças, abandonos; tudo propício para que a sua praga interior se alastrasse rapidamente. Fantasmas brindam a noite nos sótãos de nossas almas secas.

Trocava a camisa várias vezes ao dia tentando esconder a proliferação das suas famílias pessoais. Ajeitava o tecido de algodão acomodando da melhor forma cada nova aranha nascida no peito. Às vezes seus particulares predadores se irritavam com o aperto de suas angústias e lhe envenenavam. Não lhe eram cúmplices, nem amigas. Eram picadas em qualquer hora, estivesse ele em qualquer lugar: no mercado, na padaria ou simplesmente percorrendo os doze quilômetros diários que insistia em fazer a pé, na tentativa de refazer os caminhos da sua passível perda. Alimentava-se das paisagens mortas da cidade enquanto elas, alimentavam-se das paisagens mortas da cidade dele. Era uma simbiose. Só ele emagrecia.

Devorava o caminho de volta para casa com pés e olhos ávidos. Abria cestos de lixo, revirava latas, procurava uma palavra. Havia de encontrar. Sua ânsia era tanta que criou o hábito de roubar cartas nas caixas de correio vizinhas. As aranhas do seu peito também tinham fome e angústias, queriam simplesmente saltar dali, atravessar sua epiderme, rasgar sua camisa, quebrar aqueles botões. Garantir a proliferação de suas teias num lugar maior. Novas dimensões para velhos fatos.

Voltava para casa numa dessas tardes vazias quando percebeu que o carteiro estava com a sacola cheia. Era o fim dos quinze dias de greve dos correios. Acendia-lhe a esperança de poder encontrar mais cartas que o comum. Nos últimos anos os e-mails roubaram-lhe o ato, cartas eram raridades, o que só fazia aumentar sua dor. Quando só haviam contas nas caixas dos correios, recorria à uma livraria, pegava algum livro de correspondências entre os amantes e lia, lia, lia. Devorava cada fala e cada interrogação. Sorria com afirmações felizes e só assim conseguia nutrir suas aranhas em seus ambíguos sonhos. Há paz na ilusão. Mas naquele dia foi diferente. Sabia que haviam muitas e muitas cartas acumuladas e que era possível, em alguma delas, ser novamente feliz. Enquanto o carteiro vinha em sua direção, conferindo os números das residências com os envelopes, ele abaixou e fingiu amarrar o tênis. Tossiu. Demorou-se no cadarço o suficiente para o carteiro fazer quase um quarteirão todo, dos dois lados. Quando não mais viu o entregador de cartas, sabia que era hora de ser o ladrão das mesmas. Foi rápido. Era ágil em furtar palavras escritas.

Conseguiu juntar dezessete cartas e apressou o passo. Hora de voltar para casa. Suas aranhas estavam quietas, parecia-lhe que naquela tarde não reproduziriam. Ainda tinha tempo.

Separou as cartas por remetentes. Os remetentes masculinos ficaram a direita e os femininos, a esquerda da sua mesa. Antes de começar a ler, passou um café e sorriu a vã esperança de viver um sentimento, mesmo que roubado. Sempre começava pelos remetentes masculinos. Além de estarem em menor número, eram breves, secos, diretos e quase sempre sujos. Havia muito espaço em branco nas cartas masculinas. Letras pesadas, assuntos diretos. Não haviam muitas aranhas nas cartas masculinas. Homens não sabem escrever cartas, dificilmente saberiam nutrir aranhas - pensou.

Leu a carta de Paulo para Rafaela; fria, direta, sensata. A de Gustavo para Tereza; de José para Estela; de Eduardo para Clarice e de Carlos para Augusto. Das cinco, a de Carlos para Augusto falava de amor e mais se aproximava de uma carta que desejava. Sorriu. Já começou a ser feliz mesmo antes de começar a ler as cartas com remetentes femininos.

Antes de rasgar os envelopes ajoelhou e pediu a Deus que tivesse alguma carta cujo remetente se chamasse Catarina. Sabia que não era um nome muito comum. Mas sabia também que nenhuma Catarina era comum. Por um segundo, desejou com tanta fé que quase uma aranha conseguiu saltar, líquida, de seus olhos. Lembrou das milhares de vezes que suplicou por uma carta que fosse de “Catarina”. Não acreditava que um dia pudesse encontrar. Leu a primeira, a segunda, a sétima, a décima primeira quando já quase sem esperança, seus olhos saltaram e suas aranhas, quase que em conjunto, picaram seu peito e o envenenaram. Era uma dose alta de veneno. Ficou tonto. Segurou na mesa para não cair e pode ler, com olhos embaçados, o nome do remetente: CA-TA-RI-NA.
Não podia ser. Não era possível. Estava ali a sua chance máxima de ser feliz naquela noite. Só naquela noite ou enquanto durassem as breves palavras da suposta Catarina. Há um infinito no finito das palavras. Antes de abrir a carta, colou um papel com o seu nome e endereço no lugar do destinatário. Pronto. Era uma carta para ele. Suas mãos tremiam. Encostou o envelope no peito, suas aranhas acalmaram-se. O papel ficou aquecido na ilusão criada para manter-se vivo.

Abriu. Letras trêmulas e borradas. Catarina chorava quando escreveu.

Estava tão nervoso que sentia as inúmeras picadas. Mais uma dose alta de veneno. Era questão de tempo para não mais respirar. Será que daria tempo para ler a carta até o final? Angústia do início abreviando fins.

“Deito meus olhos sobre tua busca. Você não me vê. Tento tocar tuas mãos, dizer que ainda estou aqui. Você não nota. As crianças cresceram, você não viu. Tua sombra construiu estátuas em outra direção. As aranhas multiplicaram-se no quintal. Todos nós seremos envenenados antes do último sorriso. Há um desejo em mim que só você poderá resgatar. Na última primavera, antes da guerra particular devastar nossas vidas, eu e você tínhamos...”

A cadeira tombou e ele agonizou o veneno com a carta nas mãos. Havia tanto para ser lido. Sorriu seu último sorriso. Catarina sempre teve razão. Nesse momento, as aranhas libertaram-se. Solidão envenenada. Brindaram um resquício de luz que a pálpebra apagou. Conseguiu imaginar as crianças crescidas antes do seu coração ser paralisado.
Arabesco das teias. 

terça-feira, 2 de outubro de 2012

a CISMA- por Dilma Alencar

Nas noites de insônia, ele não ligou, não deu notícias. Sua barba grisalha cobriu o rosto doce. Os olhos fundos não diziam para ninguém de sua dor. Madrugadas de cigarros e silêncio inundavam a varanda enluarada. Sentado no degrau entre a sala e a varanda, pensava em viagens de balão num céu estrangeiro. Na cozinha, os pratos sujos tomavam o espaço da pia, da mesa, do fogão. Na geladeira, as batatas e cenouras floresciam, tudo crescia a ausência do homem. Houve dias em que não tomou banho.

Durante os dois primeiros dias, ele ficou nu. Três maços de cigarro, um pacote de café, meio quilo de açúcar e uma ira sem alvo o alimentaram. No terceiro dia, pediu uma pizza e comeu querendo vomitá-la, a fome é mais forte que a dor e por isso tanta gente insisti em acordar. No quarto dia, as contas de luz e de água o esperavam no abrir da porta. Ele as recolheu, lembrou do mundo de fora, engoliu uma saliva azeda de cigarro e insônia. Teve medo.

Abriu os olhos diante do espelho, fechou e abriu os olhos e sentiu a vertigem de se saber só. Embaixo do chuveiro, a espuma, a água, o sêmen, as lágrimas e seu xampu vagabundo escorriam pelo ralo sujo. Tremor da primeira angústia, do primeiro gozo das lembranças dela. O corpo gozava a dor gelada do nunca mais.
No canteiro de sua casa, regou um túmulo, orou para um deus de entranhas fazer flor do mármore frio que ele exibia no quintal.
Vestido para a lida diária, encostado no muro perto do ponto de ônibus, acendeu um cigarro, tragou com mais cansaço que prazer e observou o movimento da vida. Estes primeiros passos doíam, sua mão ainda exibia o símbolo decadente dos cortes frescos. No caminho até a casa dela, pensava nos primeiros sinais do fim. Aquele não cheio de vírgulas e predicações, aquela viagem repentina na qual ela lhe castrou a liberdade exibindo-o como um acessório que dondocas infelizes compram em lojas limpas e refrigeradas. Lamentou as coisas não reparadas. Lembrou dos reclames, de falar sobre superficialidades sociais, redes,rendas. Pensou em comprar uma mochila amarela que vira numa loja do centro. 
Sorriu, por instantes seu rosto alargou-se em esperança, brilhava. Quem o visse no ônibus naquela manhã diria se tratar de um jovem noivo. Depois de um merecido poço escuro, ele reencontrou o vigor que morria rotineiramente entre as coxas, as falas, os lábios, os seios da mulher que lhe trouxe, com a partida, o homem com visgo e sede.

Não negava os dias ruins, de manhã o cheiro de café lhe enjoava o estômago, faltava a harmonia do frescor do corpo de sua mulher, ninfa morena anunciando mel e flor no seu quintal. Sofreu sem gritos a morte do filho que não tiveram, o acampamento que foi adiado pelos motivos de sempre, a viagem de balão que lhe prometera, aquele poema na parede da cozinha, as fotografias em que ela lhe sorria com um derrame de ternura que desequilibrava seus sentidos.
Varreu a casa, lavou a louça, fumou e fez as malas. Antes de partir, compraria a mochila amarela. O túmulo no quintal não lhe deixava dormir, gritava seu nome.
Era a voz dela.

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

cleptoMANÍACA - por Vinícius Linné


Ela queria lhe roubar um sorriso e não conseguia. Também, vendia-se fácil ao primeiro macho de dois cruzados. Não bastando, irradiava perfume falso e batom vermelho, era quase tóxica. Para fazer-lhe sorrir, bastaria um comentário inteligente ou um sorriso próprio. Isso ela não tinha. Tentou no lugar a gargalhada falsa, a bebida rápida e o short curto. Não deu.

Ela queria lhe roubar um beijo e não conseguia. Normal, afiava os dentes e os saltos dos sapatos. Preocupava-se mais com a cerveja em lata do que com o coração alheio. Invejou, inventou e desmontou tudo que ele podia ter em volta. Deixou-o só no mundo dela. Nem assim ele a quis.

Ela queria lhe roubar o nome e não conseguia. Difamou, cortou em sílabas e deu às cadelas suas para que lhe comessem. E quanto mais arrastava o nome dele à pedra sabão da rua, mais deixava cair o próprio, perdendo-o nos barrancos infestados de barro e esgoto sujo. No fim, ela própria já se chamava “merda”. E ele, “espelho de aço polido”.

Ela queria lhe roubar a luz e não conseguia. Apagou holofotes, fez tenda de voal para cobrir-lhe o sol, soprou as velas de cada igreja, como se pudesse deixá-lo no amaldiçoado escuro em que ela vivia. Não pôde. Cintilavam-lhe estrelas apesar de tudo.

Então nada dele ela poderia roubar? Nada poderia pegar com as mãos sujas, com as unhas encardidas de sangue? Nada dele poderia colocar na boca podre e sentir desfazer na língua purulenta? Já perdia a esperança...

Foi então que veio a recompensa. Ganhou dele algumas coisas, atiradas como ossos: escárnio, nojo, indignação e total repúdio. Ela recolheu tudo como se fosse manjar doce, embora sujo de terra preta. Sorveu, bebeu, lambeu e não deixou uma gota para trás, engolidora de viscos que era. Aproveitou-se de cada sentimentozinho. Tinha sido, enfim, notada. Roubara-lhe um olhar, de desprezo, mas ainda assim era um olhar.

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

sAUDADE soterrada - por Simone Huck

Algumas memórias cheiram mofo, não há como evitar. Minha saudade particular não existe para os meus irmãos. Somente eu cresci naquela humilde casa, talvez, minha saudade nem alcance meus pais. Enquanto eu crescia com a única obrigação de absorver tudo, eles trabalhavam exaustivamente para comprar um lugar melhor para morarmos. A mãe costurava, o pai, projetava. Sonhavam uma casa de concreto, fria e grande para a chegada dos meus irmãos, enquanto eu, nasci naquele palácio secreto, com um quintal grande repleto de árvores, terra e histórias; capaz de abrigar meus maiores delírios infantis. Eu sempre tive sorte. Até em ser a primeira a abandonar o útero da mãe e ganhar o mundo naquele lugar que a minha memória evoca. Algumas luzes sempre estarão acesas pelos corredores escuros da alma. 

A lembrança é uma realidade inventada, não existe mais. Nem eu existo mais. Nem a casa, nem o tempo, nem meus pais. Estaciono o carro na rua onde cresci. Tudo era mais largo, haviam tantas casas. Onde todos foram parar? As árvores também fizeram as malas, partiram num dia em que não pude perceber. Abro a janela do carro, minha casa está soterrada debaixo de um prédio de vinte e cinco andares. Dos escombros, minha lembrança é um fantasma. Ali, debaixo daquele edifício, grita a casa que me fez. Está o quintal de terra, as árvores, o portãozinho branco de madeira decorando a entrada e um chão vermelho, onde minha mãe ajoelhava para encerar enquanto eu, sempre mais menino, empinava uma pipa do lado de fora. Ela ajoelhava para limpar. Hoje ela ajoelha para existir. Havia um tempo remoto apagando nossas crenças. As minhas e as da minha mãe.  

Do nada que restou gritam lembranças tomadas por um novo edifício. Já não reconheço quem sou. Também perdi a casa da minha infância. Diante dos meus olhos formam-se duas imagens; passado e presente deram as mãos mas não tornaram-se amigos. Do subsolo do prédio, as unhas da casa soterrada cravam a pele da minha saudade. A vida é um deserto sem a mínima chance de água. Morreremos sem nossas sombras.

Desço do carro e insisto na busca. Quisera ter uma pá capaz de desenterrar minha casa e enterrar o prédio. Os desabrigados dos vinte e cinco andares se uniriam a mim. Não haveria solidão se dividíssimos saudades. 
Fecho os olhos e os meninos e meninas gritam. Minha intenção veste azul mas não consegue me salvar. As mães pegam os piolhos das nossas cabeças. Os pais tentam corrigir a lição de casa enquanto a gente só queria fugir pra rua e começar a corrida nos carrinhos de rolimãs. Toda sexta-feira era dia de ficarmos até mais tarde na rua. Fazíamos corridas, competições. A meninada gritava. Os pais pediam para falarmos mais baixo. Quem obedeceria? Nossos joelhos eram marcados pelo asfalto. Nossas mãos, marcadas pelo alto das árvores. Havia urgência e cor em nossos gritos. Debaixo das minhas unhas ainda está o giz das amarelinhas brincadas naquela rua. Com os olhos fechados diante do cemitério da minha casa, uma procissão de fantasmas carrega minha memória enquanto não consigo desenterrar infâncias.

Uma lágrima escorre dos meus olhos. O chão que a recolhe é outro. Estou em outro país. Não há fronteiras amigas. Não vejo abrigos noturnos.

Os portões do novo edifício se abrem e os meninos entram em bandos, vindos da escola. Um deles se separa do grupo, vem chutando uma bola, parece querer mais rua. Olha para mim, ali, chorando parada na frente do  prédio e pergunta: “se eu te der a minha bola, você joga comigo e para de chorar?” Eu pergunto se ele mora ali. "Sim, aqui é a minha casa, você também mora aqui?" Moro, mas a minha casa está debaixo da sua. "Qual é o seu apartamento?" Não moro em um apartamento, moro na casa do subsolo. Ele não entende nada. Sorri, joga a bola nos meus pés e me pede para chutar. Quer ser goleiro quando crescer, eu, só quero fechar os olhos e acertar o chute no gol da minha infância, aquele, que montávamos na rua para ver o tempo passar. O tempo que não sabíamos, soterraria tudo tão rápido que não mais nos reconheceríamos.

Do outro lado da rua os meninos gritaram: GOL. 
Brindo uma pequena paz.

terça-feira, 25 de setembro de 2012

dÍVIDAS - por Dilma Alencar.


As rugas de minha mãe anunciam as minhas. A distancia é um equívoco. Sua voz trêmula abre sua imagem: sentada num tamborete ao lado do telefone, eu sei o que ela chora. Uma mulher simples chorando sua solidão, a casa grande chora os filhos que são outros, são do mundo. Nenhum deles está para lhe lembrar de tomar os remédios, para lhe defender dos vendedores de placebos. Tantas camas arrumadas esquecidas, meu pai ainda traz flores simples da roça, mas eu não estou. Vez outra ele me fala ao telefone e sempre acha que estou rouca. Eu, no concreto oscilando entre uma anunciação e uma passagem de ida, as orações de mãe são as únicas que eu respeito, porque nelas há fé, seus olhos tristes de repetidas partidas merecem minhas mãos em amor. Falho nas escolhas, me falta seu colo e seu jeito de me explicar que a vida não é assim. Nunca soube explicar meu amor, era tanto, tão vasto, que eu virava enchente, minha mãe não sabe o quanto amei, mas soube das farpas que eu lentamente tirei do peito. O tempo nos evidenciou os erros, os meus ais querem sua palavra, ela precisa dos meus olhos calmos que ela, inocente, pensa ser olhos sábios, ignora meu desespero, ela já tem tanto para chorar, eu lhe poupo a dor, lhe digo o quanto há de vida para que ela se alegre, ela acredita, e juntas tecemos futuro, casa, quintal. Ela ver netos crescendo enquanto meu pai faz carrinho de boi e ensina como ele brincava e como todo mudou. 
Compro passagens para um tempo outro, sinto que já não estou, olho meus sinais no umbuzeiro, na telha, na cabeceira da cama e choro uma menina que morreu, uma mulher nasce com vigor, com força, com cinzas dessa menina que já não está, as mãos enrugadas de minha mãe acariciam o rosto dessa mulher, miram a menina, a menina. O que eu fiz da menina?  Foi preciso uma mulher, uma mulher para cuidar de uma mãe, pois na menina tudo era vento e flor, na mulher tudo é grave, tudo é fundura.
A mãe, o pai, a mulher. Vivos e juntos, dividem o teto com a saudade da casa cheia.
O tempo arranha uns sonhos, desvia o desejo, os laços, vínculos de sangue, de seiva. A substância cresce no meio do caos, volto ao estado de inércia de onde o mundo se repete em mantra e amor, em manto e fogo.  Minha falta, me envergonho dos dias ausentes, das coisas que não vi crescer, das conversas que não ouvi, de como não lhes disse que quase casei e comprei imóvel. Eu não vi a troca do piso, não vi que construíram mais uma igreja na rua, estive ausente. O tempo fez espaço longe, meu tempo de primavera ninguém viu, meu inverno se fez silencioso, nunca gostei de alarde. Entre corações magoados e coisas ditas o amor segue mudo, e hoje, com passagens compradas, ainda há dúvidas e dívidas!

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

camiseta AZUL - por Vinícius Linné


O apartamento todo estava cheio dele: o cheiro, a voz, o corpo se derramando lânguido pelo sofá. Ela tinha outra saída? Não tinha. Sorvia-o sem pressa, bebendo-lhe a boca, enquanto as mãos procuravam, desencontradas, colocar fim àquela roupa.

A primeira peça a voar foi a camiseta. Azul.




[uma semana]




Os passos eram perdidos. O apartamento era inteiro vazio. Com se não existisse mais nada, só os ecos do corredor. Nada dele nos armários, nada dele nos roupeiros, nada dele em cima ou embaixo da cama.

Os homens carregaram ontem tudo que era dele. As roupas, os sapatos, as meias que ele insistia em perder de par em par. As cuecas novas, as cobertas herdadas, até o computador, tudo que era dele saiu em caixas.

Nada ficou. E é como se, sem ele - e sem as coisas dele -, o apartamento esvaziasse totalmente. Como se a vida dela fosse conduzida a uma espécie de limbo permanente. Onde tudo é branco e nada é paz.

Deitada no chão, ninando a separação, ela vê um trapo atrás do sofá. Vai até lá e ajunta. Mas não é trapo. É a camiseta dele, que ficou como sobrevivente de guerra. O mesmo cheiro. O cheiro que ela tentava evitar quando jogou pelo ralo os perfumes todos. Agora é como se ele voltasse.

Mas ela não pode deixar. Não pode deixar que ele entre novamente. Ele precisa sair de vez, como se assim a dor pudesse sair também.

Ela vai até a janela e abre. O ar gelado de Porto Alegre lava-lhe a cara, consolador. Ela pega a camiseta e resiste à vontade de colocá-la. Resiste à vontade de viver com ela, como se ainda vivesse com ele. Resiste. 

Não! Ele precisa ir embora.

Então, súbita, ela atira a camiseta pela janela. Imediatamente depois, fecha o vidro e se deixa cair pelo chão, chorando outra vez.

Se ela olhasse para baixo, veria um bêbado, poucos transeuntes depois, ajudar da calçada a camiseta e colocá-la sobre o próprio ombro encardido. Ainda bem que isso ela não verá. Não verá porque a camiseta é a última parte dele que sobrou. E agora o cheiro dele se diluirá no cheiro de suor e álcool do homem da rua. A pele morta dele se embrenhará na pele do outro homem. Os pelos dele – se algum ainda há entre o tecido – se perderão entre os pelos dos cachorros vadios.

A camiseta... A camiseta era a última parte dele que ela poderia ter salvo. E não salvou. Deixou que morresse, tal qual fez com ele.

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

a faca que ETERNIZA - por Simone Huck

Abriu a gaveta e pegou sua melhor faca. Desenvolvera por objetos pontiagudos e cortantes uma extrema fobia. Era convicta que em outra vida havia morrido assim, esfaqueada, e que nessa vida seu destino não seria outro. Naquele momento deveria ser forte, teria que conseguir dominar entre seus dedos a lâmina que lhe sorria debochada, dentro da gaveta. Pegou e colocou no fundo da bolsa junto a um caderno que há meses escrevia para ele. No caderno ela contava da sua saudade, da sua vontade e de tudo que pertenciam somente a eles, e pertencendo a eles, parecia não pertencer a mais nada. Tudo fora deles não habitava palavra, gestos ou escrita.

Pegou a faca, a bolsa e saiu. Tinha pressa. Tinha água em seus olhos. Tremia. Entrou no carro e errou algumas ruas dentro da sua certa incerteza. Ouviu a música que ouviram na última primavera, antes da vida ser tomada apenas por tempestades. Sua convicção fez com que achasse o caminho da casa dele. Tocou a campainha. Ele atendeu por interfone. Ficou admirado por ser ela e mesmo assim, abriu. Ela entrou. Ao vê-lo, tantos meses depois, não sabia se chorava, se gritava. Estava trêmula, pulmões vazios, tinha dificuldade pra pronunciar o menor dos monossílabos. Ele estava mais velho. O tempo não poupou as velhas cartas de amor que ansiosamente trocaram. O passado foi inundado e ainda afogava.

Ficaram um diante do outro por infinitos minutos. A vida era cinza. Os quadros das paredes sorriam sorrisos frios e falsos. Não se abraçaram, não se tocaram, nada aconteceu. O universo pareceu congelar. Os olhos, olhavam-se. As lágrimas de ambos escorriam pelo carpete e subitamente aproximaram-se com pressa, e com raiva, e com asilo, e com saudade,  e beijavam-se, dividindo a mesma poça de lágrimas por onde peixinhos acasalavam.

Ela abriu a bolsa. Pegou a faca e num movimento muito rápido, enfiou no coração dele. Ele segurou a mão dela e não fez força. Abaixou os olhos. Ela empurrou mais um pouco. Seus corpos tremiam, unidos ao hediondo que lhes pertencia. Abraçaram-se tão forte que ambos lembraram o calor do primeiro abraço, o primeiro encontro, o primeiro ato fugidio. A vida era tão bonita nesse momento. Ele disse, meio atravessado, a palavra “obrigado” enquanto ela, ao ser abraçada por ele que também trouxera uma faca irmã numa intenção gêmea, sentiu seu pulmão ser perfurado. Ela respondeu “eu que agradeço”.

Lentamente tombaram. Sangue e saliva uniram-se transformando tudo no que mais queriam: uma poça líquida de sal, eternizada no canto da sala. Nesse momento os quadros descansaram em paz, coloridos.