segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

the END - Por Vinícius Linné

Que meteoros são necessários para te pôr abaixo? O que precisa ainda para te cobrir de vez de fumaça e fogo? É anjos que tu queres? Quatro deles com cavalos e trombetas? Poupe-me. Nós dois sabemos que é preciso menos. Teus cataclismos sempre vieram com suavidade. 

Até para destruir-te tu és fraco.

Que cor é o planeta que queres para contigo chocar? Azul, vermelho, roxo, quem sabe?! Que raio alienígena é preciso para que te rendas ao fim? Diz, diz pra mim...

Quem sabe o sol explodindo, uma lua se partindo, o teu núcleo congelando por falta de zelo e uso e dor? Diz, diz de que sabor tu queres a lava feito calda derretida.

Gases tóxicos, contaminação, lenta decomposição... É assim? Queres arrastada e dolorosamente? Sempre foi esse teu caminho de vida, por que não, então, o de morte? Ou vais, enfim, te deixar render? Fazer tudo acabar num gozo de prazer? Confessar, mostrar teu calendário escondido...

Diz, diz logo como vai ser. Não tenho mais tempo para esperar e perder. Diga de uma vez. Não fique parado me olhando no espelho. Pelo amor de Deus, apocalipse-se.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

mAÇÃS molhadas - por Simone Huck

"Snow White", Mark Ryden.

Nunca fui uma criança calma. Não sou uma mulher calma. Quando nasci, o médico pediu agulha e linha para o instrumentista e costurou uma alma inquieta dentro de mim. Temperamento questionador. Olhos ávidos que se desgastaram mais cedo. Estou ficando cega. Os anos me deram uma alta miopia. Sem óculos, não enxergo um palmo depois do meu próprio nariz. Há pessoas que gostam dessa minha cegueira. Quando era apenas o pai, a mãe, eu e o quintal da casa que não existe mais, também devorava tudo com avidez. Engolia o tempo com olhos bons de ver. Mastigava nuvens e flores do jardim. Tudo tinha um gosto exato. Lembrança é quente e tem cor. É quadro pendurado na memória, sem desgaste do tempo ou da miopia que lentamente embaça meus olhos.

Ver sem enxergar.

O quintal da casa onde nasci era grande. Sem irmãos, a atenção era toda minha. Sempre precisei de plateias. Há quem nasce, cresce e morre montado num picadeiro. De óculos ou não.

Chovia muito naquela tarde. Há chuvas que chovem mais. Na cama estavam esparramadas as contas do mês. O aluguel da casa do quintal grande, luz, água, a hipoteca da casa nova e fria. Pai e mãe felizes, conferindo os números e sonhando com a chegada dos meus irmãos. Todos habitariam a próxima casa. Eu tinha seis anos. Não consultaram minha vontade nessa época. Não havia miopia para coração. Nesse tempo eu enxergava e via. Só pensava em viver ali.

Lá fora a chuva seguia inundando intenções. Talvez as minhas, que não queriam acreditar na migração familiar. Irritada, porque nasci irritada, fui até a cozinha, peguei um pano e um tubo de lustra móveis, escalei a cômoda de roupas que ficava embaixo da janela. Alcancei a janela – escalaria qualquer montanha aos seis anos de idade. Sentei no parapeito e birrenta, disse que ia limpar. Os pais só disseram “cuidado”. Sabiam que nada mais poderia impedir minhas vontades lusitanas. Há crianças que já nascem reis ou rainhas. Eles voltaram ao mundo da matemática enquanto eu fiquei no mundo das janelas, panos e ceras. Nessa época eu sabia ser feliz.

A tempestade aumentou. Começou a chover granizo, pedra, metal, madeira. Olhei pela fresta da janela e lá fora os Duendes do jardim dançavam felizes. Branca de Neve tirou o vestido, ficou nua, resolveu tomar chuva na epiderme toda. Ela era bonita. Cantava, sorria e rodopiava liberta, de mãos dadas com todos os Duendes. Com o pano nas mãos, eu só queria limpar a chuva, lustrar as pedras, secar as flores do jardim e me juntar à dança. Fiquei em pé na cômoda. Minhas pequenas mãos intencionaram alcançar o último vidro. Raios e trovões. A chuva só aumentava. Lá fora parecia mar. Eles gritavam no jardim. Será que a Bruxa protegeu a plantação de maçãs? Meu pequeno coração em diástole acelerada e inocente seguia limpando o vidro e indagando. Deve ter sido nesse dia que passei a questionar mais e viver menos. A janela abriu repentinamente.

De tudo que lembro, mais de trinta anos depois, esse dia eterniza-se. Corpo caído e esticado no chão do jardim. Testa aberta. Chuva e sangue misturados na ponta da língua. Pensei em chorar mas o desenho que a chuva fazia ao descer do céu e cair direto nos meus olhos roubou a vontade da dor. Tangente. Corpo e chuva. Deve ter sido nesse dia que passei a amar os dias de água. Oxalá chovessem os trezentos e sessenta e cinco dias do ano. Eu saberia usar barco.

Em segundos o pai pulou a janela com o lençol da cama nas mãos. Enrolou meu corpo jogado no chão e começou a correr pelo quintal. Branca de Neve e os Duendes abriram espaço para o resgate. A Bruxa má piscou, garantindo em seu deboche o salvamento da plantação. Atrás a mãe chorava e gritava, dizendo que da minha testa saltava um “galo”. Não o ouvi cantar. Correram pela rua no meio da chuva. Rastro de sangue, água e lágrimas do rosto vermelho da mãe. Líquidos borbulhando na mesma panela. Tudo era tão bonito e dolorido. Eu sentia sono e tontura.

Naquele tempo a farmácia da esquina era o pronto-socorro do melhor hospital e o Seu Antônio, o velho farmacêutico de cento e doze anos de idade, era o médico mais experiente do mundo. Eu queria dormir, ninguém deixava. Tudo ficava lentamente turvo. A mãe gritava para que eu abrisse os olhos. O pai estava estático – hoje sei de quem herdei essa prontidão. Lentamente a chuva foi ficando distante e as luzes do mundo foram desligando-se. Também apaguei.

Quando acordei estava deitada no quarto dos meus pais, seca e protegida. Alguns pontos na testa. Seu Antônio era farmacêutico cirurgião. Os quatro-olhos ávidos do pai e da mãe misturavam-se ao concreto do teto do quarto. Não chovia mais lá fora. Sorri, perguntei se choveria novamente e olhei para a janela. Estava tudo limpo. O brilho do vidro lustrado revelou as flores do jardim e a Branca de Neve estática e vestida, ao lado dos Duendes sorridentes. Naquele dia aprendi a lustrar possíveis espelhos que refletem coisas bonitas do mundo.

Deitada no chão, descobri o que era ser chuva com dor.

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

cEIA - por Dilma Alencar.


Ele não cabia na rotina que escolhera: a ambição, a promoção, o carro do ano, as roupas compradas em lojas caras, os amigos tão inteligentes quanto previsíveis, as viagens, o turismo óbvio, os livros sujos e relidos, a angústia dos relógios na parede, o labirinto dos bares.
Ganhara um relógio azul de sua namorada, ela disse que seu pulso pedia um, ele fingiu acreditar.
Ela queria filhos, feriados em filas de supermercado, em hotéis de cidades vizinhas.
Ele teve vergonha de admitir para os amigos que, nos últimos dias, chorava sozinho.
Outro dia ele saiu sem o carro, sentia-se entediado e foi à rua andar e fumar. Andando pela calçada, inquieto pelo mal estar que fazia morada em seus ombros e passos. Perto da portaria do prédio, ele viu uma mulher sentada na calçada, com um filho recém-nascido. A cabeça da criança estava amarela, uma casca grande e oleosa cobria o cabelo fino.
O rosto da mãe era um anúncio de fome e terror, ele passou fazendo um esforço, que nunca fizera antes, para não vê-los.
Andava assim, sentindo fundo, demasiado doer alargava o peito daquele homem comum.
Os discursos mentiam. Nunca fora homem ignorante, o contrário disso, assimilava novas ideias, opinava sobre a economia da Grécia, as cotas em universidades e a democracia utópica dos partidos de esquerda.
Estava compadecido, sim, compadecido. No transito, o automóvel parado, fechava os olhos, passava as mãos pelo rosto, com força, e quando abria os olhos, sentia-se ridículo, estúpido. Rude em sua natureza, sua roupa bem passada, os ponteiros precisos lhe medindo passos.
Viu um menino fazendo malabares, o olhar do homem era largo a ponto de também ser o menino, sentia fundo o corpo raquítico, o pé de pele grossa não poupava o calor do asfalto, doía.
Suspirou, soluçou, o trânsito fluiu, ele acelerou e seguiu o fluxo dos itinerários.
Todos notaram, mãe, primo, namorada, o porteiro.
O homem tinha um ar de zumbi, fumava cada vez mais, chorava escondido.
Semana de natal: a avenida vermelha, verde e dourada ampliava a compaixão de suas lágrimas insanas, as ligações da namorada se perdiam, as buzinas, os anúncios, as putas, os bêbados, a secretária, a secreção... Tudo enojava e entristecia o homem.
Ele se interrogava, será sexo? Dinheiro? Não. Seu corpo respondia com precisão , sua namorada correspondia ao acessório mudo que ele sempre quis e mereceu, era prático, dizia, era seco, diziam.
Não transava, não dormia por mais de duas horas sem um pranto que cansasse seu corpo para um novo sono pesado e curto, quase um desmaio.
A família falava de natal, era dezembro.
A ceia era farta e previsível e todos lhe sorriam com uma bajulação irritante, ele se sentiu retardado e sua cara grave era de uma palidez esverdeada.
Conversou gentilmente com todos, falou do excesso de trabalho naquele ano, disse de planos para janeiro e sorriu.
Algumas palavras mentirosas foram repetidas e cortaram o peru natalino, garfos e facas grã-finos abriam a carne macia da ave e as bocas e estômagos enchiam-se de satisfação da tarefa feita e sentiam-se melhores e ternos.
Alheio a tudo isso, o homem lutava contra o choro compulsivo e torrente que lhe transfigurava a face e lhe fazia doce.
Como um menino, ele foi levado pelos enfermeiros de um uma clínica psiquiátrica.
A família lamentava a necessária internação, as luzes natalinas continuaram piscando, absurdas, sua namorada, tão bonita quanto uma joia cara, chorou elegantemente e não o acompanhou.
Dizem que lá na clínica, ele desenha arco-íris e chora muito em noites de chuva e ri como um monge quando tem luar.
A família paga pelos cuidados e lamenta pelo homem, vítima de um estado depressivo, assim dão nome à linguagem que não entendem.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

os CANSADOS - por Vinícius Linné


— Whisky?
— Não, obrigado.
— Cigarro?
— Você sabe que eu não fumo.
— Pois devia. Eu mesma não sei o que faria de mim sem o cigarro. O cigarro é capaz de justificar toda uma existência, sabia? O que você faz para se entregar ao beato momento de ser? De estar sendo? De se deixar em uma praça, em uma janela, à porta de um desses modernos edifícios? Sim, porque eu fumo. E ninguém questiona então. Eu  posso parar e olhar a vida, pensar em mim mesma, viver a glória passageira do momento... E minha desculpa é fumar. Qual a sua?
— Viver?
— Não. Não é uma boa desculpa. Eu posso dizer “estou fumando”, caso me chamem. Você pode dizer “estou vivendo”?
— Creio que não. Não sem soar feito um louco.
— Ah, a loucura é uma desculpa melhor. Lembre-se disso, querido.
— Engraçado você dizer isso.
— Por quê? Você não parece ser do tipo que acha a loucura engraçada. Não. Você parece ser daquelas que a levam muito a sério.
— E sou. Mas é engraçado porque, antes de eu conhecê-la, disseram-me assim: A essa não se conhece sem enlouquecer.
— E estavam certos?
— Completamente.
— Que bom, então. Já que não lhe contamino com meu vício, ao menos com a loucura então. De algum jeito é preciso para suportar.
— Eu sei. Tenho lembrado muito de você.
— Ainda com aquele trabalho? Qual é mesmo o mote? Decodificar o que eu codifiquei sobre o divino?
— É, de certa forma é isso. Mas não é só por isso. É por uma frase. Uma daquela entrevista.
— Ah, antes não tivesse feito aquilo. Estou feia.
— Não está não.
— Af. Qual é a frase?
— “E só estou triste hoje porque estou cansada”.
— Ah, essa. Foi talvez a maior verdade que disse ali.
— Mesmo? Eu julgava que era uma mentira.
— E você ainda diz que me conhece? Que compartilha da minha loucura? Ah, não. Foi a verdade maior.
— Não entendo, então. Penso nela porque também estou triste. Mas finjo ser só cansaço. Como se cansaço fosse “só”.
— O que eu queria mesmo dizer, a essência mesmo, era que eu já não estava só triste. Estava era cansada de ser triste. Mas não falei. Seria demais pra quem visse. E há coisas das quais devemos poupar os olhos de quem nos vê.
— É... posso dizer que é o que eu sinto também.
— Pode, mas não devia. Você é muito novo para ter meu cansaço de ser triste. Ou minha loucura. Ou a fumaça do meu cigarro lhe cobrindo o rosto.
— Eu sei. Mas sinto tudo em excesso. E o excesso me castiga e machuca.
— Não quero falar sobre isso. Não hoje. E você também não devia. Vá lá com sua pequena, beba um whisky,  fume um cigarro, contorne a solidão e a crueldade de se sentir. Deixe-me só um pouco.
— Mas eu vim porque hoje...
— Não diga.
— Em todo caso, eu queria...
— Não queira. O homem é refém daquilo que quer. Não queira, querido.
— Bom... vou indo então.
— Faz bem.
— Antes disso, só... parabéns... Clarice.
— Obrigada, Vinícius.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

o CABELEIREIRO que não dorme - por Simone Huck

 (Imagem retirada do site espalhafactos.com)

Coloquei minha cabeça debaixo de suas mãos sonolentas e de sua tesoura afiada. Há três dias ele não dorme. Ontem me aproximei dos quarenta. Estamos todos envelhecendo. Resolvi assumir meus cabelos brancos. Na guerra monocromática que se instalou no topo do meu membro superior, o exército da paz, com suas bandeiras brancas, está vencendo o exército negro. Pela primeira vez desejei que o mal governasse com toda a alegria do preto. Um inevitável equívoco. Como tentar dormir, disse ele, enquanto cortava meus cabelos e me contava, em espanto, que há quatro dias não sabe o que é fechar os olhos. Aconteceu assim, subitamente. Num passe de mágica passou a nunca mais dormir. Num passa de mágica, perdi a bicicleta e estou próxima dos quarenta.

Seus olhos vermelhos denunciam a ausência do sono.
Meus cabelos brancos denunciam minha idade. 
Há sempre um inquilino reinvindicando a posse da nossa casa. 
Há sempre um impostor roubando ou o nosso sono, ou a nossa idade.

Tentei ser psicóloga de cabeleireiro nas duas horas que seguiram. Para todas as minhas perguntas ele respondeu "não". Não consome drogas. Não fuma. Não pratica sexo. Não tem namorada ou namorado. Não ingere bebidas alcóolicas. Mora com os pais. Está feliz no trabalho e não está em nenhum financiamento. Por um breve momento, acreditei que a privação disso tudo é a causa da inexistência de sono. Como alguém pode dormir assim? Que vida branca é essa? Eu não dormiria. E teria mais cabelos brancos.

Mesmo assim, insisti, e ele seguiu respondendo "não" para todas as demais perguntas que nem ouso citar. Não somos tão íntimos assim. Ele deve ser amigo apenas dos meus cabelos brancos que em suas mãos, se multiplicam. 
 
Ele tentou ser psicólogo de escritora nas duas horas que seguiram. Para quase todas as suas perguntas a minha resposta foi "não". Ainda pratico alguns problemas. Minha vida não é branca, só os meus cabelos. Talvez por isso, eu durma. Segui respondendo "não". Não somos tão íntimos assim. Sou cúmplice apenas dos seus olhos vermelhos. Em algumas noites, bebo goles da insônia herdada de um pai que não dorme quase nunca. Ainda estou no lucro. Apenas os cabelos brancos vencem.

Ansioso, ele buscava uma resposta. Tentei lhe convencer que tudo se tratava apenas de uma greve neural e que em breve as negociações cerebrais chegariam a um acordo e ele retomaria o sono. Há sempre uma guerra precisando de paz em algum lugar da gente. 
Ansiosa, eu buscava uma resposta. Ele tentou me convencer que cabelos brancos eram charmosos. Não conseguindo, mostrou a nova coleção de cores de tintura da Koleston, falou das luzes, do vermelho e até elogiou minha idade. No final, ousou dizer que uma mulher de cabelos brancos é charmosa. O sono faz a gente omitir. A ausência de sono, mentir. Ele não me convenceu. Eu não escolhi nenhuma cor. Ele seguia com sono. Eu seguia branca.

Debaixo de suas mãos sonolentas, meus cabelos forravam o chão. Parecia que só os pretos eram cortados enquanto os brancos, impunes, faziam greve de força sobre meu couro cabeludo.

Contra os neurônios e contra o tempo, não há remédio. Estamos todos fadados a não dormir na revelia das sinapses
ou a morrer no desgosto do sucesso frêmito dos tons de cinza.

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

cASA - Por Dilma alencar


Hoje vi uma casa e desejei, depois de muito tempo, ter uma.
Chovia e você dançou na minha memória, com saia de cambraia e um terço de madeira lhe enfeitando o pulso, você ria e seus dentes molhados iam mastigando minhas loucuras diárias e derretendo o verde musguento das velhas casas do centro, nossos sapatos cheios de avenidas para navegar só sabiam ir em frente, só sabiam convergir.
O farol vermelho era arte, as gotinhas de chuva embaraçavam o olhar e o sal do rosto ardia na boca.
Uma casa velhinha, grade baixa, margaridas brancas e amarelas enfeitando a entrada e um banco de cimento do lado esquerdo.
Ela parecia cheia de história e silêncio. Eu a decoraria com meu desenredo de cores. Um sofá com qualquer cor gritante, um tapete amarelo, nada de televisão ou de computador.
Eu escreveria na parede da sala “o pastor amoroso”, do Caeiro.  Nos dias de fundura que engessam estrelas, eu abriria a janela de madeira velha e barulhenta, numa manhã de segunda e convidaria o amor para o desjejum.
Tanto já foi dito, perdemos o silêncio. Nos dias de hoje, você é uma memória dançando na chuva e já não dói.
Querer uma casa é uma novidade rachando o peito, e eu quase não falo o sorriso no canto da boca não explica nada do grito que vai tomando meus poros.
Nasceu uma luz. É um parto de uma princesa de fogo e água, aprendo a costurar meu vestido preto e meu discurso de céu. Você entenderia se eu dissesse que engoli uma estrela e estou grávida de mar? Ah, quanta vaidade lhe embuti no olhar, quanta estupidez de consumir paixões agressivas, eu envelheço e não há nada mais bonito que esse tempo.
Irresponsável da violência que atravessa dentes afiados e metáforas eróticas, vou seguindo  flutuante, ferindo a carne da ternura rala que o mundo cospe. Limpo as mãos no sereno e caio no abismo de um verbo cadenciado quebrando a esquina, vertendo luz néon. Volto descalça, o pé caçando pedra onde só tem asfalto, as mãos insanas querendo afeto onde reside cio e força.
Talvez  essa casa velha onde eu quero morar, quem sabe seja a morada que abrigue o espírito solto que sai em noites de lua.
A casa não terá relógios, quero uma velhice sã, ponteiros adoecem. O sereno cheira, a lua perfuma a casa. O centro velho abriga putas e velhos, crianças, mendigos. A casa velha vai abrigar meu cansaço dos dias de trovões anoitecendo antes das três da tarde.
De lá, vejo os bares ao redor, a banca de jornal na esquina, os olhares amarelando no ponto, nas faixas, nos carros, nos cintos do motorista, dos passageiros. Eu vou fechar a janela quando a solidão doer nos olhos, os poucos amigos serão bem vindos e os receberei de braços abertos, eu quero uma criança colorindo o chão com tinta guache e giz, quero uma lousa na parede da varanda, mas por enquanto só tenho coragem de pensar na casa, nela não entrarão cartas amarelas, nem livros úteis, quero a inutilidade dos haicais do Leminski, das cartas do Rilke, quero xícaras bonitas, xícaras são muito importantes. Quero lavar a louça da pia olhando o quintal, tomara que essa casa tenha mais essa janela, vou reunir pessoas generosas a tal ponto que eu consiga lhes verbalizar minhas fraquezas, meu medo de sangue, de agulha. Quero amenizar as vaidades de querer dizer imperativos. Eu quero ter amor nas mãos e sorriso nos lábios.
Quero ser simples, minguar essas lágrimas, ter braços ainda, ter fôlego para sorrir à vida. 
O soluço do sol, o soluço me acordando em enchente de olhar. A casa vai flutuar de paz e o pó dos móveis vai brilhar como lantejoulas , quando de novo a serenidade que fugiu me fizer entender que essas feridas são estrelas , que essa cisma é só linguagem e a minha solidão é - antes de tudo –minha.
Vou rasgar as roupas velhas e nascer de novo numa casa velha e florida, perto de um cabaré no centro velho de uma cidade qualquer.
Se eu beber sozinha no chão da sala e maldizer as flores murchas, escrever uma poesia dionisíaca com giz vermelho, há de chover.
O amor vai nascer perto das margaridas, eu sei. Sei que não pode ser menos que isso. A casa não merece nada aquém, ela espera o amor para a magia do sangue pulsar.
Os papéis e as poesias ficarão acanhados de tanto mar, a casa vai navegar todos os mares e ver toda arte, toda a riqueza das plantas que crescem, todo o milagre das mulheres que engravidam, das mulheres que amam uma a outra, a casa vai conhecer o mundo exatamente ali, no centro nervoso de uma cidade desalmada.
A casa vai transbordar.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

OBSESSÃO - Por Vinícius Linné


Ele era louco. Completamente.

Você acredita que ele colecionava fotos minhas? Isso mesmo. Não, não só essas duas ou três que saíram nos jornais. Fotos tiradas em todos os lugares. Na minha casa, no mercado, na livraria do shopping, na praia. Em todo lugar que eu estive, ele me fotografou. E isso faz mais de ano. Tem foto de quando eu ainda usava cabelo comprido. Você lembra?

E isso não é tudo. Quando ele me levou até o porão da casa dele, encontrei ainda papéis e mais papéis com a minha letra. Recibos antigos, notas fiscais que eu assinei, listas de compra de supermercado... até o caderno de receitas que eu tinha perdido estava lá!

As tarraxas de brinco, os copos quebrados, os vidros de esmalte, os palitos de picolé, o salto do sapato que eu quebrei no ano passado, o cobertor que doei para a campanha de agasalho, os jornais velhos, os guardanapos marcados de batom, o espelho de mão que ganhei da minha falecida avó, a asa de uma das xícaras azuis, o cadarço dos meus tênis de corrida, as calcinhas que sumiram do varal, a santa de cabeça quebrada, as luzinhas do natal passado e o cachorro que fugiu de casa. Tudo trancado naquele porão. Horrível.

E ele me mostrou com orgulho. E se disse apaixonado. Apaixonado. Acredita? Eu o rejeitei, lógico que o rejeitei. Ele não estava apaixonado, estava doente! Eu devia era procurar a polícia. A polícia!

Não. Eu não fiz isso. Eu não chamei ninguém. Eu não contei o que vi... Eu só passei a evitá-lo. Sempre. Eu já quase não saía mais de casa. Não atendia mais o telefone. Passei a entregar as sacolas de lixo nas mãos do lixeiro. Eu não conseguia mais viver minha vida. O tempo inteiro eu tinha a impressão de estar sendo vigiada. E então eu o vigiava. Eu ficava escondida atrás da cortina, espiando, esperando qualquer movimento. Esperando o momento em que ele atravessasse o meu portão com uma faca enorme nas mãos. Eu já não dormia, só olhando as luzes da casa dele. Sempre acesas. Eu ficava pensando no que ele estaria fazendo. Será que comia pensando em mim? Será que vigiava minha casa? Será que – Deus me livre – se masturbava no porão olhando as minhas fotos? Ele era louco.

Até que chegou o dia em que ele finalmente agiu.

Ele começou a sair de casa com caixas e mais caixas, deixando todas no meio fio. Eu sabia o que tinha dentro delas. Eu reconhecia as fotos derramando de lá. Eu podia ver a trilha de coisas que ele perdia pelo caminho. As minhas coisas. As coisas que ele, louco, roubara dos meus restos.

Ele botou tudo lá na calçada e deixou.

Eu suava.

O que ele estava planejando? Por que essa novidade agora? O que ele queria?

Nenhuma resposta... Ele saiu e nenhum movimento foi feito. Eu passei o dia inteiro ali. O dia inteiro esperando. Quando anoitecia, passou o caminhão do lixo e recolheu todas as caixas. Então era esse o plano? Era isso? Ele estava se livrando das provas todas de sua loucura? Qual seria o próximo passo? Vir atrás de mim? E como eu provaria então que ele era um louco? Eu deveria ter chamado a polícia. Você não acha? Mas eu não chamei. E daí veio o pior.

Agora eu já não podia sair de casa. Não podia comer. Não podia dormir. Se eu deixasse a janela por um minuto, um minutinho sequer... Só Deus sabe o que ele faria. Não é? Ele tinha limpado o terreno. Eu era presa fácil. Eu estava completamente perdida.

E ele passou a sumir. Sumir por longos períodos. Geralmente à noite. Às vezes ele sequer dormia em casa. O que estava tramando? Teria sido melhor se eu não descobrisse. Um dia eu ousei. Saí na mesma hora que ele. Saí decidida a terminar com aquilo, resolvida a ser morta ali mesmo se precisasse, tinha cansado daquela tortura.

Ele me cumprimentou como cumprimentaria qualquer vizinha.

Deu ‘Oi’, sorriu e seguiu apressado.

Fiquei lá, parada, pateta, lívida e viva. Naquela mesma noite, quando ele voltou, trazia consigo uma moça. Eu quis fazer alguma coisa, quis gritar, quis defendê-la, quis avisá-la da loucura dele. Não consegui.

Mas ele não fez nada com ela. 

Nada de mal.

E ela continuou vindo. Então era isso? Então ele se livrara de todas as minhas coisas porque arrumara alguém? Arrumara uma namorada? Ele era louco! Desfizera-se de tudo que juntara com amor e risco... Não era justo.

Comecei, então, a deixar minhas coisas na varanda dele. Minhas calcinhas, o trinco da porta, o meu travesseiro, um álbum inteirinho de fotos... No começo ele devolvia. Colocava tudo de volta na minha porta. Porém, como eu colocava de volta na varanda dele – louco – ele passou a colocar as coisas na lixeira, direto.

Então ele não era mais obcecado por mim? Não mais?

Um dia quebrei uma das janelas dos fundos e entrei na casa dele. Esperei por ele no quarto. Nua. Ele não voltou naquela noite. Nem na seguinte. Nem na outra. Quando, finalmente, ele voltou, estava acompanhado daquela puta. De novo aquela puta, com aquela cara de sonsa. Era demais. Era demais pra mim. Ele era louco. Era louco de me trocar por ela.

Antes que ele pudesse fazer qualquer coisa, eu havia enfiado a tesoura bem fundo naquela barriga de vaca dela.