quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

21.12.2012 - por Simone Huck

Abriu os olhos e do lado viu seu marido. Teias de aranha confundiam as frestas de sol que tentavam entrar pela janela. Era mais um dia. Mais um copo de café. Novas esperas. Ausência de esperança. Nada que fosse palpável de mudança. Não havia nem malas novas, nem coragens velhas. Atrás dos dentes escondia-se alguma palavra que não ousava dizer em voz alta. O silêncio conhecia sua aflição. Crenças desacreditadas. Não havia Deus para dizer o que era certo. Não havia santo ou altar para que pudesse ajoelhar ou suplicar. Nas suas pernas havia mais cansaços do que a mínima possibilidade de milagre. Os dias contradiziam-se. A pele queimava desejos novos. A vida oferecia caminhos antigos. Não sabia se era neste mundo. Não sabia se era no mundo passado. Não sabia de onde aquilo tudo apareceu para metralhar sua paz cinza. Tinha uma boca tão bonita. Andava tão calada. Era dia dos pais.


Ela estava de quatro. Ele estava por trás. Segurou seus cabelos loiros e pediu para que ela rebolasse. Nunca estavam satisfeitos. Ele tinha mais dez minutos pra gozar. Ela tinha mais quatro clientes para atender. A madrugada anunciava pela janela uma lua que parecia uma boca sorrindo. Ela não via graça, nem sorriso, nem lua, nem noite. Enquanto ele metia ela gemia mentiras. Ele gozou. Ela levantou e limpou o umbigo e a boca. Ele jogou cinquenta reais na cama. Ela passou uma vida inteira sem ouvir a palavra “eu te amo”. Cada um virou a esquina no sentido oposto. Sombras de uma madrugada úmida. Ele não estava satisfeito. Antes de voltar pra casa, precisava de mais algumas metidas. Tinha 150 reais no bolso. Ela pegou o celular e conferiu se havia novas mensagens. Estava na hora de Marcelo acreditar que ela era atendente noturna numa empresa de telefonia. Que era mulher séria. Que merecia ouvir ao menos uma vez “eu te amo”. Nada. Sem mensagens. Sem Marcelo. João era o próximo cliente e ela precisaria mentir bem. Era Domingo de Páscoa.


Ele era tão bonito. Desde menino se destacava da maioria. Cabelos longos e macios, lisos. Olhos ávidos, claros. Sorriso aberto. Conduzia o mundo com hálito de sonho bom. Era pessoa do bem. Ninguém poderia atestar o contrário. Casou. Não teve filhos. Construía casas. Comprou a dele de outro engenheiro. Quando fez trinta anos descobriu que não sabia o que era viver. Quando sua esposa preparou um jantar para pedir um filho, ele colocou sua melhor camisa para pedir o divórcio. Foi na mesma noite. Cada um tratou de engolir suas próprias vírgulas. Ele vendeu tudo. Resolveu sair nu na noite mais fria do ano. Sentou debaixo de uma árvore molhada. Abraçou suas pernas e ficou vendo os carros passarem. Era Natal.



Mais um cigarro. O cinzeiro estava cheio de intenções. Mais uma dose de vodca. Era impossível permanecer sóbria. Era viciada. Consumia todas as tendências do mundo dos destilados. Era conhecida pelos malucos na boca de fumo. Ia ao médico para pegar receitas azuis. No armário do banheiro colecionava psicotrópicos. Tinha um estado de pasmaceira tão natural que achavam que era loucura e não vício. Talvez excesso de leitura. Todos a conheciam e gostavam dela. Era moça estudada. Dava palestras para os adolescentes da igreja. Dava aula na universidade a noite. Nos finais de semana visitava as exposições temporárias da cidade e todos esperavam que ela publicasse uma mínima nota falando a respeito. Tudo o que ela falava produzia efeito. Tudo o que ela ingeria, também. Chegava em casa sempre sozinha. Tinha sete gatos e dois passarinhos machos que moravam na mesma gaiola. Uma gata conversava com um dos passarinhos. Era o único erotismo presente naquela casa. Toda a íntima conversação da vida dela era lacônica. Os bichos ficavam na maior parte do tempo estáticos, olhando o vaso pendurado na janela do vigésimo sétimo andar. As nuvens faziam parecer que o vaso dançava. Eram todos lunáticos ou, talvez, sensatos em demasia. Guardava a maioria dos livros debaixo da cama. Às vezes gostava de comer traças gordas. Eram suculentas e frias. Era como comer restos de livros. Restos de palavras. Restos do resto. Vomitou antes de apagar a luz e esperar um outro dia. Era dia de Finados.



O calendário marcava a mundial histeria: 21.12.2012. Nada tremeu. Nada mudou. Sorriram um sorriso cinza de quem nada espera. Até os dentes se acostumam à previsibilidade da boca. Não era feriado para nenhum deles.


terça-feira, 18 de dezembro de 2012

sOBRE AQUELAS PERGUNTAS - por Dilma alencar


Gostava do seu cabelo sobre meu rosto, seu jeito de me acordar, sua mão subindo pela nuca desgrenhando meu cabelo amassado, compondo minha feição de preguiça.
O dia sorria, logo cedo um jardim repousava aos pés da cama.  Num encanto de água teu corpo acordava e o mundo estava nele, angelical e irresponsável, tudo que se queria num corpo outro. Não fosse o fascínio de uma absoluta entrega de poros, de pó de túmulos futuros, de sangue, não fosse a dureza de ter as armas todas dispersas no chão, e o coração na garganta, eu teria fugido. Mas minhas pernas trêmulas de um cansaço de deus, só sabiam de seus passos. Tudo era imã, como naquele dia improvável em que eu voltei para casa, desistira de ir ao trabalho na esquina de casa.
Você tomava banho e ouvia meu álbum de Marisa, eu abri a porta, queimando de saudade do nosso lençol. Seu rastro, roupas largados no chão. Entrei no chuveiro de roupa, bolsa, sapatos. Você recebeu meu repente como quem vê um eclipse acontecer pela primeira vez. Com o cuidado delicado de não abandonar meu olhar brilhante, você me despiu: bolsa pesada da água quente do chuveiro, fones de ouvido, colar, anéis e brincos. A brandura do cansaço. O meu mundo reunia-se em torno do seu umbigo.
 Imã: quando você me deu aquele buquê amarelo, seu rosto numa expressão que eu não sabia dizer, de quem descobre um segredo antigo, um mapa das terras virgens.  Eu agarrei sua mão lhe cobrando verbo, você sorriu e disse que meus olhos dançavam entre as flores, intensos e livres. E me abraçou como quem abraça uma fortaleza.
Li em algum lugar que “os anjos são ateus e só acreditam no que é matéria”, imediatamente me lembrei de seu corpo.
Como foi mesmo que a poesia invadiu a cozinha, o corredor, o jornal embaixo da porta, minha saia, minha língua, meu xampu, minha nudez, meus modos verbais?
O som macio de seus pés descalços indo até a cozinha ainda me faz abrir sorrisos que me assustam de tão fáceis.
Aos poucos a nossa linguagem foi tecendo corda, o amor fincava raízes nos nossos estômagos e gargantas. Estrangulava pequenas liberdades esquecidas,e meu zelo pela liberdade de olhos soltos e minhas mãos no mundo foram ferindo sua compaixão. Compaixão: deriva do latim, compassio “capacidade de sentir o que o outro sente”. Não tínhamos um dicionário etimológico, quiçá um manual sentimental. Quando é que é só tesão e fogo? Quando é que começa o caos, como sinos de igrejas invadindo sem permissão lares baldios?
Sentimentos que matam o instinto da vida e nos fazem fiéis a um corpo que não é o nosso, eis a loucura que sentíamos, morremos merecidamente. A devoção aos sinais virara rito, o ritmo perdia o tempo do acorde, e matamos com velas e orações a gratuidade dos gestos.
O desespero embutido no amor vazava pela geladeira, entre sua geleia e minha cerveja, entre sua roupa passada e minha preguiça.
Estupidez, não ter saído antes daquele luar eterno em que tocamos Deus.
Corrente no tornozelo: anel de compromisso, metáforas angustiantes de um fim próximo.
A nossa luz preferida, aquela depois de chuva à tarde, quando a ar flutua prata e todas as cores adquirem visgo, como planta bem regada. Ela agora me enche os olhos de vazio e meu café esfria enquanto meu olhar se perde na distância dos dias.
Ainda arrasto correntes no tornozelo. Um dia,  um anjo teve encantamento de me roubar aquele peso, mas devolveu após uma semana, dizendo que não cabia em sua casa, embora bonito, soltava  ferrugem nas nuvens virgens de dor e peso.
O que se alcança querendo voar?
De um bar numa esquina movimentada, os copos e os corpos são tomados de intenções medíocres de um gozo pobre de espírito e anêmico de poesia, há quem diga que há amor nas tentativas, quantos goles mais de vodca e memória de seu gosto? Quantos dias arranhando a chuva? Comendo a guerra?
Quando escrevo e me lembro da estupidez crescente, eu rio promessas absurdas nesse dezembro chuvoso, como aquele que você me apresentou deus em forma de água.
Abençoados sejam os que já voaram e sabem da inutilidade sagrada de ter amor e desespero!

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

the END - Por Vinícius Linné

Que meteoros são necessários para te pôr abaixo? O que precisa ainda para te cobrir de vez de fumaça e fogo? É anjos que tu queres? Quatro deles com cavalos e trombetas? Poupe-me. Nós dois sabemos que é preciso menos. Teus cataclismos sempre vieram com suavidade. 

Até para destruir-te tu és fraco.

Que cor é o planeta que queres para contigo chocar? Azul, vermelho, roxo, quem sabe?! Que raio alienígena é preciso para que te rendas ao fim? Diz, diz pra mim...

Quem sabe o sol explodindo, uma lua se partindo, o teu núcleo congelando por falta de zelo e uso e dor? Diz, diz de que sabor tu queres a lava feito calda derretida.

Gases tóxicos, contaminação, lenta decomposição... É assim? Queres arrastada e dolorosamente? Sempre foi esse teu caminho de vida, por que não, então, o de morte? Ou vais, enfim, te deixar render? Fazer tudo acabar num gozo de prazer? Confessar, mostrar teu calendário escondido...

Diz, diz logo como vai ser. Não tenho mais tempo para esperar e perder. Diga de uma vez. Não fique parado me olhando no espelho. Pelo amor de Deus, apocalipse-se.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

mAÇÃS molhadas - por Simone Huck

"Snow White", Mark Ryden.

Nunca fui uma criança calma. Não sou uma mulher calma. Quando nasci, o médico pediu agulha e linha para o instrumentista e costurou uma alma inquieta dentro de mim. Temperamento questionador. Olhos ávidos que se desgastaram mais cedo. Estou ficando cega. Os anos me deram uma alta miopia. Sem óculos, não enxergo um palmo depois do meu próprio nariz. Há pessoas que gostam dessa minha cegueira. Quando era apenas o pai, a mãe, eu e o quintal da casa que não existe mais, também devorava tudo com avidez. Engolia o tempo com olhos bons de ver. Mastigava nuvens e flores do jardim. Tudo tinha um gosto exato. Lembrança é quente e tem cor. É quadro pendurado na memória, sem desgaste do tempo ou da miopia que lentamente embaça meus olhos.

Ver sem enxergar.

O quintal da casa onde nasci era grande. Sem irmãos, a atenção era toda minha. Sempre precisei de plateias. Há quem nasce, cresce e morre montado num picadeiro. De óculos ou não.

Chovia muito naquela tarde. Há chuvas que chovem mais. Na cama estavam esparramadas as contas do mês. O aluguel da casa do quintal grande, luz, água, a hipoteca da casa nova e fria. Pai e mãe felizes, conferindo os números e sonhando com a chegada dos meus irmãos. Todos habitariam a próxima casa. Eu tinha seis anos. Não consultaram minha vontade nessa época. Não havia miopia para coração. Nesse tempo eu enxergava e via. Só pensava em viver ali.

Lá fora a chuva seguia inundando intenções. Talvez as minhas, que não queriam acreditar na migração familiar. Irritada, porque nasci irritada, fui até a cozinha, peguei um pano e um tubo de lustra móveis, escalei a cômoda de roupas que ficava embaixo da janela. Alcancei a janela – escalaria qualquer montanha aos seis anos de idade. Sentei no parapeito e birrenta, disse que ia limpar. Os pais só disseram “cuidado”. Sabiam que nada mais poderia impedir minhas vontades lusitanas. Há crianças que já nascem reis ou rainhas. Eles voltaram ao mundo da matemática enquanto eu fiquei no mundo das janelas, panos e ceras. Nessa época eu sabia ser feliz.

A tempestade aumentou. Começou a chover granizo, pedra, metal, madeira. Olhei pela fresta da janela e lá fora os Duendes do jardim dançavam felizes. Branca de Neve tirou o vestido, ficou nua, resolveu tomar chuva na epiderme toda. Ela era bonita. Cantava, sorria e rodopiava liberta, de mãos dadas com todos os Duendes. Com o pano nas mãos, eu só queria limpar a chuva, lustrar as pedras, secar as flores do jardim e me juntar à dança. Fiquei em pé na cômoda. Minhas pequenas mãos intencionaram alcançar o último vidro. Raios e trovões. A chuva só aumentava. Lá fora parecia mar. Eles gritavam no jardim. Será que a Bruxa protegeu a plantação de maçãs? Meu pequeno coração em diástole acelerada e inocente seguia limpando o vidro e indagando. Deve ter sido nesse dia que passei a questionar mais e viver menos. A janela abriu repentinamente.

De tudo que lembro, mais de trinta anos depois, esse dia eterniza-se. Corpo caído e esticado no chão do jardim. Testa aberta. Chuva e sangue misturados na ponta da língua. Pensei em chorar mas o desenho que a chuva fazia ao descer do céu e cair direto nos meus olhos roubou a vontade da dor. Tangente. Corpo e chuva. Deve ter sido nesse dia que passei a amar os dias de água. Oxalá chovessem os trezentos e sessenta e cinco dias do ano. Eu saberia usar barco.

Em segundos o pai pulou a janela com o lençol da cama nas mãos. Enrolou meu corpo jogado no chão e começou a correr pelo quintal. Branca de Neve e os Duendes abriram espaço para o resgate. A Bruxa má piscou, garantindo em seu deboche o salvamento da plantação. Atrás a mãe chorava e gritava, dizendo que da minha testa saltava um “galo”. Não o ouvi cantar. Correram pela rua no meio da chuva. Rastro de sangue, água e lágrimas do rosto vermelho da mãe. Líquidos borbulhando na mesma panela. Tudo era tão bonito e dolorido. Eu sentia sono e tontura.

Naquele tempo a farmácia da esquina era o pronto-socorro do melhor hospital e o Seu Antônio, o velho farmacêutico de cento e doze anos de idade, era o médico mais experiente do mundo. Eu queria dormir, ninguém deixava. Tudo ficava lentamente turvo. A mãe gritava para que eu abrisse os olhos. O pai estava estático – hoje sei de quem herdei essa prontidão. Lentamente a chuva foi ficando distante e as luzes do mundo foram desligando-se. Também apaguei.

Quando acordei estava deitada no quarto dos meus pais, seca e protegida. Alguns pontos na testa. Seu Antônio era farmacêutico cirurgião. Os quatro-olhos ávidos do pai e da mãe misturavam-se ao concreto do teto do quarto. Não chovia mais lá fora. Sorri, perguntei se choveria novamente e olhei para a janela. Estava tudo limpo. O brilho do vidro lustrado revelou as flores do jardim e a Branca de Neve estática e vestida, ao lado dos Duendes sorridentes. Naquele dia aprendi a lustrar possíveis espelhos que refletem coisas bonitas do mundo.

Deitada no chão, descobri o que era ser chuva com dor.

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

cEIA - por Dilma Alencar.


Ele não cabia na rotina que escolhera: a ambição, a promoção, o carro do ano, as roupas compradas em lojas caras, os amigos tão inteligentes quanto previsíveis, as viagens, o turismo óbvio, os livros sujos e relidos, a angústia dos relógios na parede, o labirinto dos bares.
Ganhara um relógio azul de sua namorada, ela disse que seu pulso pedia um, ele fingiu acreditar.
Ela queria filhos, feriados em filas de supermercado, em hotéis de cidades vizinhas.
Ele teve vergonha de admitir para os amigos que, nos últimos dias, chorava sozinho.
Outro dia ele saiu sem o carro, sentia-se entediado e foi à rua andar e fumar. Andando pela calçada, inquieto pelo mal estar que fazia morada em seus ombros e passos. Perto da portaria do prédio, ele viu uma mulher sentada na calçada, com um filho recém-nascido. A cabeça da criança estava amarela, uma casca grande e oleosa cobria o cabelo fino.
O rosto da mãe era um anúncio de fome e terror, ele passou fazendo um esforço, que nunca fizera antes, para não vê-los.
Andava assim, sentindo fundo, demasiado doer alargava o peito daquele homem comum.
Os discursos mentiam. Nunca fora homem ignorante, o contrário disso, assimilava novas ideias, opinava sobre a economia da Grécia, as cotas em universidades e a democracia utópica dos partidos de esquerda.
Estava compadecido, sim, compadecido. No transito, o automóvel parado, fechava os olhos, passava as mãos pelo rosto, com força, e quando abria os olhos, sentia-se ridículo, estúpido. Rude em sua natureza, sua roupa bem passada, os ponteiros precisos lhe medindo passos.
Viu um menino fazendo malabares, o olhar do homem era largo a ponto de também ser o menino, sentia fundo o corpo raquítico, o pé de pele grossa não poupava o calor do asfalto, doía.
Suspirou, soluçou, o trânsito fluiu, ele acelerou e seguiu o fluxo dos itinerários.
Todos notaram, mãe, primo, namorada, o porteiro.
O homem tinha um ar de zumbi, fumava cada vez mais, chorava escondido.
Semana de natal: a avenida vermelha, verde e dourada ampliava a compaixão de suas lágrimas insanas, as ligações da namorada se perdiam, as buzinas, os anúncios, as putas, os bêbados, a secretária, a secreção... Tudo enojava e entristecia o homem.
Ele se interrogava, será sexo? Dinheiro? Não. Seu corpo respondia com precisão , sua namorada correspondia ao acessório mudo que ele sempre quis e mereceu, era prático, dizia, era seco, diziam.
Não transava, não dormia por mais de duas horas sem um pranto que cansasse seu corpo para um novo sono pesado e curto, quase um desmaio.
A família falava de natal, era dezembro.
A ceia era farta e previsível e todos lhe sorriam com uma bajulação irritante, ele se sentiu retardado e sua cara grave era de uma palidez esverdeada.
Conversou gentilmente com todos, falou do excesso de trabalho naquele ano, disse de planos para janeiro e sorriu.
Algumas palavras mentirosas foram repetidas e cortaram o peru natalino, garfos e facas grã-finos abriam a carne macia da ave e as bocas e estômagos enchiam-se de satisfação da tarefa feita e sentiam-se melhores e ternos.
Alheio a tudo isso, o homem lutava contra o choro compulsivo e torrente que lhe transfigurava a face e lhe fazia doce.
Como um menino, ele foi levado pelos enfermeiros de um uma clínica psiquiátrica.
A família lamentava a necessária internação, as luzes natalinas continuaram piscando, absurdas, sua namorada, tão bonita quanto uma joia cara, chorou elegantemente e não o acompanhou.
Dizem que lá na clínica, ele desenha arco-íris e chora muito em noites de chuva e ri como um monge quando tem luar.
A família paga pelos cuidados e lamenta pelo homem, vítima de um estado depressivo, assim dão nome à linguagem que não entendem.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

os CANSADOS - por Vinícius Linné


— Whisky?
— Não, obrigado.
— Cigarro?
— Você sabe que eu não fumo.
— Pois devia. Eu mesma não sei o que faria de mim sem o cigarro. O cigarro é capaz de justificar toda uma existência, sabia? O que você faz para se entregar ao beato momento de ser? De estar sendo? De se deixar em uma praça, em uma janela, à porta de um desses modernos edifícios? Sim, porque eu fumo. E ninguém questiona então. Eu  posso parar e olhar a vida, pensar em mim mesma, viver a glória passageira do momento... E minha desculpa é fumar. Qual a sua?
— Viver?
— Não. Não é uma boa desculpa. Eu posso dizer “estou fumando”, caso me chamem. Você pode dizer “estou vivendo”?
— Creio que não. Não sem soar feito um louco.
— Ah, a loucura é uma desculpa melhor. Lembre-se disso, querido.
— Engraçado você dizer isso.
— Por quê? Você não parece ser do tipo que acha a loucura engraçada. Não. Você parece ser daquelas que a levam muito a sério.
— E sou. Mas é engraçado porque, antes de eu conhecê-la, disseram-me assim: A essa não se conhece sem enlouquecer.
— E estavam certos?
— Completamente.
— Que bom, então. Já que não lhe contamino com meu vício, ao menos com a loucura então. De algum jeito é preciso para suportar.
— Eu sei. Tenho lembrado muito de você.
— Ainda com aquele trabalho? Qual é mesmo o mote? Decodificar o que eu codifiquei sobre o divino?
— É, de certa forma é isso. Mas não é só por isso. É por uma frase. Uma daquela entrevista.
— Ah, antes não tivesse feito aquilo. Estou feia.
— Não está não.
— Af. Qual é a frase?
— “E só estou triste hoje porque estou cansada”.
— Ah, essa. Foi talvez a maior verdade que disse ali.
— Mesmo? Eu julgava que era uma mentira.
— E você ainda diz que me conhece? Que compartilha da minha loucura? Ah, não. Foi a verdade maior.
— Não entendo, então. Penso nela porque também estou triste. Mas finjo ser só cansaço. Como se cansaço fosse “só”.
— O que eu queria mesmo dizer, a essência mesmo, era que eu já não estava só triste. Estava era cansada de ser triste. Mas não falei. Seria demais pra quem visse. E há coisas das quais devemos poupar os olhos de quem nos vê.
— É... posso dizer que é o que eu sinto também.
— Pode, mas não devia. Você é muito novo para ter meu cansaço de ser triste. Ou minha loucura. Ou a fumaça do meu cigarro lhe cobrindo o rosto.
— Eu sei. Mas sinto tudo em excesso. E o excesso me castiga e machuca.
— Não quero falar sobre isso. Não hoje. E você também não devia. Vá lá com sua pequena, beba um whisky,  fume um cigarro, contorne a solidão e a crueldade de se sentir. Deixe-me só um pouco.
— Mas eu vim porque hoje...
— Não diga.
— Em todo caso, eu queria...
— Não queira. O homem é refém daquilo que quer. Não queira, querido.
— Bom... vou indo então.
— Faz bem.
— Antes disso, só... parabéns... Clarice.
— Obrigada, Vinícius.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

o CABELEIREIRO que não dorme - por Simone Huck

 (Imagem retirada do site espalhafactos.com)

Coloquei minha cabeça debaixo de suas mãos sonolentas e de sua tesoura afiada. Há três dias ele não dorme. Ontem me aproximei dos quarenta. Estamos todos envelhecendo. Resolvi assumir meus cabelos brancos. Na guerra monocromática que se instalou no topo do meu membro superior, o exército da paz, com suas bandeiras brancas, está vencendo o exército negro. Pela primeira vez desejei que o mal governasse com toda a alegria do preto. Um inevitável equívoco. Como tentar dormir, disse ele, enquanto cortava meus cabelos e me contava, em espanto, que há quatro dias não sabe o que é fechar os olhos. Aconteceu assim, subitamente. Num passe de mágica passou a nunca mais dormir. Num passa de mágica, perdi a bicicleta e estou próxima dos quarenta.

Seus olhos vermelhos denunciam a ausência do sono.
Meus cabelos brancos denunciam minha idade. 
Há sempre um inquilino reinvindicando a posse da nossa casa. 
Há sempre um impostor roubando ou o nosso sono, ou a nossa idade.

Tentei ser psicóloga de cabeleireiro nas duas horas que seguiram. Para todas as minhas perguntas ele respondeu "não". Não consome drogas. Não fuma. Não pratica sexo. Não tem namorada ou namorado. Não ingere bebidas alcóolicas. Mora com os pais. Está feliz no trabalho e não está em nenhum financiamento. Por um breve momento, acreditei que a privação disso tudo é a causa da inexistência de sono. Como alguém pode dormir assim? Que vida branca é essa? Eu não dormiria. E teria mais cabelos brancos.

Mesmo assim, insisti, e ele seguiu respondendo "não" para todas as demais perguntas que nem ouso citar. Não somos tão íntimos assim. Ele deve ser amigo apenas dos meus cabelos brancos que em suas mãos, se multiplicam. 
 
Ele tentou ser psicólogo de escritora nas duas horas que seguiram. Para quase todas as suas perguntas a minha resposta foi "não". Ainda pratico alguns problemas. Minha vida não é branca, só os meus cabelos. Talvez por isso, eu durma. Segui respondendo "não". Não somos tão íntimos assim. Sou cúmplice apenas dos seus olhos vermelhos. Em algumas noites, bebo goles da insônia herdada de um pai que não dorme quase nunca. Ainda estou no lucro. Apenas os cabelos brancos vencem.

Ansioso, ele buscava uma resposta. Tentei lhe convencer que tudo se tratava apenas de uma greve neural e que em breve as negociações cerebrais chegariam a um acordo e ele retomaria o sono. Há sempre uma guerra precisando de paz em algum lugar da gente. 
Ansiosa, eu buscava uma resposta. Ele tentou me convencer que cabelos brancos eram charmosos. Não conseguindo, mostrou a nova coleção de cores de tintura da Koleston, falou das luzes, do vermelho e até elogiou minha idade. No final, ousou dizer que uma mulher de cabelos brancos é charmosa. O sono faz a gente omitir. A ausência de sono, mentir. Ele não me convenceu. Eu não escolhi nenhuma cor. Ele seguia com sono. Eu seguia branca.

Debaixo de suas mãos sonolentas, meus cabelos forravam o chão. Parecia que só os pretos eram cortados enquanto os brancos, impunes, faziam greve de força sobre meu couro cabeludo.

Contra os neurônios e contra o tempo, não há remédio. Estamos todos fadados a não dormir na revelia das sinapses
ou a morrer no desgosto do sucesso frêmito dos tons de cinza.