segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

A ANGÚSTIA DO SER que escreve - por Vinícius Linné


Minha força é fraca. E quando dizem “Empurre! Empurre!”, eu faço de conta que não ouço nada. Eu espero, espero até que o médico diga: “tragam o fórceps”. Só então eu consigo relaxar, me alargar e me entregar de alguma forma. Porque daí não é minha a responsabilidade. Não sou eu o culpado dos partos. Não me condenem, por favor.

Como é ser um pardiouro de loucos? Alguém mais sabe? Só quem experimentou sabe da dor de fazê-los nascer. Não a física. A moral. Quando eles se põem a chorar por terem nascido. Quando eles sofrem e se arranham e desejam estar mortos. Quando eles se matam. Daí é que dói em quem os colocou aqui.

Por isso eu evito os partos, eu tranco o corpo, eu adio esperando qualquer cordão enrolado no pescoço, qualquer tombo fatal no último instante, qualquer agulha enferrujada me perfurando por dentro. Nada. Eles implodem necessários. Eles vêm a furo, eles abrem caminho, eles fazem força para nascer.

E não sei. Não sei como impedir, não sei como parar, não sei como estancar o jorro de gente que sai de dentro de mim. Meninas que voejam, anjos com maldições, Ângelos com erupções, louras na camisa de força, Clarissas esquecidas no escuro e até um Vinícius – até um Vinícius insuspeito, emparedado no muro.

Eu evito, o quanto posso eu evito. Mas sou fraco. E há o fórceps, não esqueçam. No fim, eu os acabo escrevendo. Eu os faço nascer. Eu os dou à luz do mundo. E é bem só para que sofram mesmo. Eu queria parar. Juro a eles que queria parar. Mas se escrevendo é que sobrevivo – e os faço viver – como parar? Digam-me: como parar sem morrer?

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

cavalgada DAS VALQUÍRIAS - por Simone Huck

"Para Wagner", 2011 - Simone Huck

Wagner me contou que vai embora no carnaval. Sempre temos uma fantasia para rasgar ou abandonar. Nos céus, fogos revelam um novo ano. Recomeços. Folhas de alma em branco. Dizem que é janeiro. Listas e listas de desejos invadem o coletivo humano. Estamos sempre na periferia de algo. Escrevendo verdadeiros tratados para nós mesmos. Cúmplices de mentiras diárias que inventamos tão bem. Nos convencemos diante do espelho. Nossos olhos em nossos olhos. Ainda é dezembro para muitas pessoas. Inclusive para mim. Há restos que ainda piscam freneticamente como as luzes da minha árvore de natal, ligadas à velocidade máxima. Meu modo preferido. Modos particulares. Medos particulares. Frenesim. Frenética. Vida. Pensamentos acendendo e apagando. Sinapses são histerias conectadas.

Wagner não sabe o que sinto por ele. Talvez eu seja sinistra demais. Oculta demais. Calada demais. Mas o fato é que não daríamos certo. Nossa sinastria amorosa nunca saiu da intenção. No fundo, tínhamos medo até mesmo do que os astros diriam. Éramos céticos em quase tudo. Mas teríamos gostado de ler que seríamos compatíveis na sinastria. Acreditaríamos com aquela fé cega que tanto nos incomodava nos outros.

Resolvi reler Cem anos de Solidão. Era o livro que Wagner deveria comprar para ler comigo. Talvez ele, assim como eu, descobriria que nascemos com cem anos de diferença, com dez gerações distantes, com um atraso de milhares de horas, estrelas ou signos. Wagner é terra. Eu sou fogo. Quando buscava motivos para não me apaixonar por Wagner li que as pessoas de terra são realistas, pragmáticas, conservadoras e gostam de bens materiais. Talvez ele esteja indo embora no carnaval para ficar mais rico. São perseverantes. Já as pessoas de fogo são otimistas, passionais e entusiasmadas. Eu sempre ficava feliz quando podíamos passar horas falando de livros, deus, céu ou inferno. Pessoas de fogo são imprevisíveis e impacientes. Inflamáveis, coléricas. Como poderia dar certo? Será que queimei a terra? Dizem que de um solo queimado não nasce mais nada. “Nem suas margaridas, Wagner. Nem suas margaridas” - pensei. Infertilizei Wagner? Ou ele me apagou? Não há casamento possível entre terra e fogo.

Consegui dormir quatro horas. Ele vai embora. Não posso ir. Também não posso ficar. Há tempos que não habitamos nem aqui, nem lá. Ainda é dezembro. Não me convenceram do contrário. Dois mil e doze ainda está aqui no calor das minhas mãos. Preciso dar alpiste para os passarinhos. Agora tenho uma gaiola e dois passarinhos. A fêmea está grávida. O macho prometeu não partir esse ano. Vai esperar nascer o primeiro filho. Estamos sempre dividindo nossa atenção.

Preciso urgentemente tirar o pó da minha casa antes que tenha vontade de escrever minha carta íntima sobre os móveis. Só para a poeira acumulada eu deixaria meu testamento. Ali, em cima do móvel da sala. Confessaria quem realmente sou e pra onde vou antes do próximo inverno. Escreveria uma carta de amor para você, Wagner. Eu confessaria. Juro que confessaria. Mas só os fantasmas da casa saberiam. Será que eles existem? Nosso ceticismo não acredita em nada. Talvez só em sinastria. Ponto.

terça-feira, 1 de janeiro de 2013

pARA QUEM TEM AFETO - Por Dilma Alencar


Desejo o delírio, o delírio de ver o mundo reunido num corpo frágil de uma mulher e ainda dormir em paz.
A novidade de nascer um mar nos olhos gulosos do desconhecido e ser prato e pranto para toda a fome, fazer de seus passos guias e novenas, velas acendendo e uma jangada para o mundo.
Segurar todas as certezas com a mão direita e desejar que o dia não amanheça enquanto se faz luz, porque há luz.
Ver as flores cobrirem a terra, ter o encanto de ter o desespero tirado com a mão, não sentir o abismo que o corpo precipita em vertigem e em poros.
Nua, cobrir de milagres o corpo em nó, enquanto se ouve flautas doces chegando com a maresia de suor, como pequenos gestos que sustentam impérios, erguer colunas de um pequeno castelo apenas com um abraço matinal. Anunciar com lágrimas o fim do medo de morrer, arrumar a cama com a mesma devoção que um louco anuncia o evangelho.
Dormir, dormir com o mundo entre as pernas e braços, sentindo o hálito quente da boca que traz a natureza em água e sal.
Rir dos cortes, dos pontos, das amputações, do tédio, da miséria crescente de parecer.
Reconhecer a única possibilidade de encontro. Plantar, no silêncio das madrugadas de lua, promessas de açucenas e ouro. Romper com os pactos de falso amor e ser tão irresponsável a ponto de invocar anjos para embalar a festa de orixás, quando tudo é mar, navegar a ternura em ondas de ressaca e palavras assonantes, contemplar o corpo como se uma sentença de fim estivesse fixada no punho, perder os prazos, perder os horários e ser doce, doce como quem anuncia a paz.
Ser arauto da primavera, perdoar as pequenas mortes em camas alheias, saber crescer a solidão.
Dançar entre duendes, plantar pé de laranja no quintal, comprar pé de pimenta para enfeitar a sala, pensar no melhor conto para ler junto. Comprar presentes em papelarias excêntricas, fazer um quadro com cores em par.
Ter num encontro a satisfação de todas as fomes. Passar horas pensando na cor do esmalte e deixar o artigo para a semana seguinte, andar de metrô durante horas e ainda ter sorriso e humor, cumprimentar os bêbados na calçada, falar dos poemas do Caeiro enquanto os amigos discutem a banalização do sexo e mentem aventuras sexuais nem sonhadas.
 Rir junto com os poetas que brilham rimas de magia, de laços de fita, de maracatus ébrios, que creem nos passos de Oxum, que ouvem Circe, porque ela existe em dedilhados de violão. Comprar vinho e cerveja como quem alimenta filhos.
Sorrindo à santificação da carne  prever a velhice em novos planos, criar cactos e cachorros, e de repente deixar alguém entrar em casa.
Olhar os dois pratos sobre a mesa com um frio na barriga e escrever um dicionário para os substantivos que ela mudou: lençol, chá, horas, pulseira, cachecol, caderno, bloco de notas, água, pinça, bolsa, cerejas, mesa, clipes, presilha, leite, lápis, borracha, suspiro.
Chegar atrasada numa Segunda de sol, com a cara feliz e amassada de quem não dormiu e sorrir no fim do dia pensando que é deus. Ser cicerone bêbado da cidade que construiu pra ela, nas noites de solidão chorar o medo da separação, tomar banho de cachoeira junto, descobrir que alguns filmes dela você já viu mais de uma vez, comprar alfajores adivinhando qual sabor ela prefere, comprar uma bicicleta e voltar para casa com pressa, sem parar nos bares, comprar poesias avulsas.
Trabalhar muito para ter dinheiro para sábados intermináveis, costurar um discurso bonito para regar flores amarelas, viajar para o Peru e levá-la para o sertão e o mar. Cozinhar massas sofisticadas ou miojo e achar que é a coisa mais importante já feita. Comprar uma coberta nova com a cor que ela gosta, morrer de medo e alegria dos símbolos enchendo a sala: lixa de unha, esmalte preto, pulseira esquecida, livro de sociologia, incensos, marcadores de página, óculos.
Saltar de para- quedas, dividir aquele canto da cidade que você sempre vai só, para meditar sobre a falta de prumo dos dias vãos. Comprar travesseiros novos naquela loja da Imaginarium que ela tanto gosta, e pensar em mil e uma formas de dizer do seu bem querer sem parecer repetitiva nem carente, de repente falar assim no modo como você adoça o café pra ela, ou então de como você sempre espera que ela perceba que você não está com pressa, porque todo lugar é mesmo perfeito e completo quando ela está, e não esconder que morre de medo de amanhã não ser exatamente como é hoje, sem atrasos de respostas. Rezar para chover quando ela está porque o barulho da chuva a deixa mais introspectiva e bonita.
Colar recados indecentes na parede da geladeira e fazer pudim com a mesma atenção que você põe a olhá-la, esperar que ela fale e dar silêncio quando entender o cansaço, comprar ingressos antes de todo mundo, só para que ela ocupe a melhor cadeira. Dividir a solidão dos cafés com a linguagem de uma flor.
Para todos os de coração mole, amor.
Nada de contratos, amor.

segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

PASSAgem - Por Vinícius Linné


No bilhete do trem está clara a data da partida: 31 de dezembro de 2012, 23h59min.

A data de chegada também: 01 de janeiro de 2013, 0h00min. Uma viagem de 60 segundos só. Colocar o pé para dentro do trem e sair. Que importância isso pode ter? Toda. Toda porque de onde se parte é para onde não se pode voltar. Quando todos estiverem no trem, tudo que ficou para trás deixa de existir. Por isso é fundamental estar preparado. Por isso o cuidado agora, na hora de fazer essas malas. Só o que você decidir levar para o trem será salvo de alguma forma.

O que fazer das pessoas que lhe fizeram mal? Deixe-as. Deixe-as assim como estão, azedas e mofadas, mas não se esqueça de anotar seus nomes e levá-los. É bom não esquecer. Os amores imaginários? Deixe-os também. É preciso lugar na mala para o que se encontra no caminho.

Os desgostos todos? Livre-se deles sem dó. São pesados, ocupam espaço e não servem para muita coisa. Os aprendizados, porém, leve-os todos, mesmo se nada mais couber na mala. Eles são o que de fundamental você precisa ter.

Das pessoas que conheceu, leve as mais importantes. Aquela meia dúzia essencial para os dias de frio ou de calor. As esperanças, coloque-as na frasqueira. Que fiquem à mão e sirvam para deixar a vida bonita, mesmo naqueles dias em que tudo acorda fora do lugar. Cuidado, porém, para não confundir esperanças com ilusões. As ilusões você deve descartar, embrulhadas em jornal para que não machuquem mais ninguém.

Os sorrisos você leva. As lágrimas também. Nenhum sentir pode mesmo ser descartado. Leve os abraços enrolados. Assim se ajeitam melhor. Na procrastinação bote fogo, por favor. Ela tem a estranha mania de entrar na bagagem, mesmo quando não é colocada. As músicas que conheceu leve à mão. Você vai precisar delas. Dos livros todos que leu, leve os mais importantes, deixe bastante espaço para os que ainda vai ler. PS: os que tiverem dedicatória, nem pense, leve. Eles fazem parte do delicado da vida. 

As conquistas precisam ir todas também, para lembrá-lo de que é possível sim conquistar. Já as coisas não resolvidas, ou estranhas, ou embaraçosas, faça de conta que esqueceu sobre a mesa. As fotografias, coloque no fundo da mala, com cuidado para não amassá-las. A vontade você não pode esquecer de modo algum, assim como o desejo, a paixão, a motivação. Você sabe que precisa deles de hora em hora.

Enfim, meu bem, abra os armários, areje-os, junte tudo que conseguir juntar, carregue as malas com tudo que você teve e que conseguiu prestar. Encha, também sem dó, os sacos pretos de lixo, desconsidere, esvazie-se, descarte cada cisco que não servir mais. Veja duas vezes se não está esquecendo nada...

Está? Ah, sim, o desejo de mudança... esse você deve deixar fora da mala. Vista-o por inteiro nessa noite. É sempre bom vestir algo assim para a viagem.

Boa viagem, aliás. Que tudo que você deixar seja incinerado quando você embarcar no trem. E que, ao descer, você encontre um mundo todo fresco e lavado, um lugar a ser descoberto e vivido e aproveitado. Que na próxima viagem, no próximo fim de ano, você tenha ainda mais o que levar – e, por favor, cada vez menos para jogar fora.

Aproveite a viagem, aproveite a vista, aproveite a vida. Sem dó.

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

aS ESTRELAS ESTÃO MORRENDO - por Simone Huck

 Era a última quinta-feira de um dezembro qualquer. A presença dela ainda arranhava o céu da memória dele. Quando foi fechar a janela do quarto já era noite. Lembrou que mês passado leu uma reportagem que dizia que o universo está parando de fabricar novas estrelas. Chorou quando não encontrou as Três-Marias no céu.

Há quarenta e nove dias não chovia. Seu coração estava seco. Apenas uma intenção remota e particular insistia em iluminar seu lado escuro. Sentou na beira da cama e terminou de selecionar os trezentos e quatro verbos. Não acreditava mais nos adjetivos. Os substantivos nem cogitou. No dia seguinte, seu horário estava marcado às sete horas da noite. Cinco e meia já estava lá, munido dos trezentos e quatro verbos e do ato. Daria certo.
Sete horas. O tatuador entrou. Posicionou todas as palavras em seu corpo e não restou epiderme sem verbo. Tatuou até o rosto. Aos poucos voltava a ser um camaleão fugido do último tiroteio no Vietnã. Sem pátria e cama. Quase sem estrelas. Precisava esquecer o rastro daquela mulher. Tatuou todo o corpo com os verbos. Olhou no espelho, já não era uma folha em branco. No seu rosto estava escrito verbos defectivos. Não queria mais conjugar nem ser conjugado. Não queria uma primeira, segunda nem terceira pessoa. Não era mais singular; muito menos plural.

No dia seguinte, para garantir a limpeza de suas hemácias da possível lembrança dela, fez transfusão de sangue. Ao meio dia, trocou seu sêmen pelo sêmen de outro homem e para garantir deixou dentro de uma outra mulher. Foi para casa. Estava deixando de ser rascunho.
Entrou no chuveiro e antes de ligar a água leu em seu rosto o verbo “reaver”. Tinha pressa. Chorou duas lágrimas de pedra que caíram e quebraram o piso do chão. Com uma bucha lavou boca, mãos, pés, saudade, costas, desejo, coxas, anseios e joelhos. Saiu e enxugou-se com pressa. Colocou pasta de dentes na escova e antes de começar a limpeza, inflou o peito, mirou a pia do banheiro e projetou o corpo para trás e lançou-se velozmente para frente tirando de si um grande e último escarro. A mulher que ele precisava esquecer estava um pouco ali. Pelo ralo o escarro marrom escuro desceu, grosso. O resto da mulher tentou agarrar com suas unhas pintadas o ralo da pia mas ele ligou a água para garantir o afogamento dos dois: mulher e escarro.

Sentou na bacia sanitária e resolveu cortar as unhas. Havia muitos ressentimentos guardados ali. Unhas são como caixas, aranhas escondidas em quinas, confeccionando teias sem parar. Vestígios que arranham a mínima intenção de esquecer. Quanto mais pensava nela, mais cortava. Cortou até chegar no leito ungueal e só parou porque não havia mais unha. Tinha certeza que se livrou mais um pouco dela ali. Juntou os restos, o sangue e jogou tudo dentro da bacia sanitária. Deu descarga. Suspirou levemente aliviado. A água afogou as unhas. E os restos.

Levantou e com um cotonete limpou os ouvidos. Tirou acúmulos de cera. Secreções reúnem gordura, ranço e passado. Imperceptíveis sobras dela em seu ouvido gritavam palavras que não queria mais ouvir. Estava quase limpo. Perfumou-se. Vestiu sua camiseta preferida. Sua calça preta e seus sapatos brancos. Foi até o jardim e colheu duas margaridas. Arrumou a mesa de jantar, acendeu uma vela e colou as duas flores no prato. Despejou azeite nas pétalas e caule e mastigou tudo com um copo de água gelada. Engoliu as flores e o último resquício dela. Margaridas não seriam mais suas flores preferidas.

Arrumou a cama e antes de apagar a luz e finalmente dormir em liberdade, arrotou um punhado de pólen que foi levado pelo vento e fecundou o jardim da casa da frente. Meses depois novas flores nasceram do outro lado da calçada. Mal sabia ele que ali estava ela. Há presenças que não fizeram catecismo.

terça-feira, 25 de dezembro de 2012

oS FESTEJOS - por Dilma Alencar.


É manhã de natal e importa mais ser manhã.
Um homem dorme em frente ao banco Safra, esquina da Paulista com a Augusta, exibe uma ferida aberta na coxa, ele fede, ele fuma. O crack comeu seu sorriso. Os dois dentes que restam estão escondidos por trás de seu bigode branco e piolhento.
Duas distintas senhoras atravessam a faixa de pedestre exibindo roupas de cortes finos e elegantes, cabelos engenhosamente montados para parecerem naturais.
As sacolas vermelhas deixam o laço dourado arrastando pela calçada. As vidas de luxo e de lixo dividem a mesma calçada.
O homem cospe e coça a barba, uma garrafa de uísque passaporte é seu desjejum. Cada um com seu panetone.
As pernas brancas e tatuadas sobem a Rua Augusta e dobram a esquina em direção ao metrô. Homens de mãos dadas, um deles segurando uma long neck heineck. Falam de Beatles e do quarteto de cordas do teatro municipal.
O rapaz da padaria ainda traz o sotaque e os sonhos frescos, e pensa ser passagem o presente de ônibus cheio, preconceitos vistos e aos poucos aprende a odiar. No amontoado de gente apertada em ônibus e terminais ele conta os dias e vive um futuro que pode não existir, aprendeu a odiar quando se viu sem família, aprendeu a odiar no natal do ano passado, quando a marmita fria o fez vomitar e trabalhou com febre e ódio o dia inteiro, pois a cidade não para.
As meninas brancas bebem cerveja e gozam no banheiro de um bar gay, enquanto seus amigos esperam o misto quente com café com leite.
A T.V. do bar exibe clipes antigos e eles veem a Madonna com a mesma inveja que uma mulher tem de outra.
Da janela de seu apartamento pequeno uma mulher bebe chá, de costa para a grande avenida, ela vê seu namorado, um cara culto, tão carinhoso quanto sua amiga Gabi com quem transa de vez em quando.Para não “entediar”, dizia.
Ele exibia as costas largas e bonitas.
É manhã de natal. Os transeuntes daquela avenida, àquela hora da manhã, carregavam pequenas angústias. Moralidades e ímpetos de sexo. Os bares, as camas, as cores, os brilhos, tudo excitava o corpo e as placas diziam “goze os festejos”.
 Descendo um túnel, numa outra avenida da cidade de concreto, flores suavizam e colorem o que já fora corpo. A paz está ali, pois a inquietude deixara aquela gaiola de carne e luto.
Cheirando a maconha e vodca os meninos afeminados voltavam para suas famílias duras, a mulher do apartamento tomou banho e com muito carinho fez café para o namorado.
As senhoras entraram em suas casas com poltronas de estofados bucólicos e feios.
Só o homem da calçada não pensava, apenas sentia dor. A perna expulsava pus e quando algum pensamento surgia era de medo, pois o lanche jogado no chão por algum outro bêbado atraia moscas, e agora sua perna era alvo. Havia moscas na Avenida Paulista. As moscas também têm fome. Sangue e sacrifício ainda são as alegorias do velho mito de morte e ressurreição.
Mas o dia era de nascimento, e no hospital, perto do Paraíso, sim, alguém nascia vestindo o sangue de sua mãe.

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

c.G.e - Por Vinícius Linné


É natal. E nos natais e anos novos eu costumo lembrar de você. Lembro de quando éramos só adolescentes e bobos. E lembro do meu moletom azul. E lembro do soco que dei no seu braço.

Dos e-mails, das farpas afiadas, da minha incompreensão, do meu descaso e descompasso, eu lembro. Lembro de alguém dizendo: “tem certeza que você não entende?” Eu tinha. Eu tinha as certezas todas. Eu não entendia porque era só para mim que eu olhava.

Os meus sentimentos, as minhas amizades, os meus gostares, os meus pesares. Eu não via o que vejo hoje. Não via os seus natais em um apartamento solitário. Não via a falta de pais, a falta de paz, a janela escura pela qual entravam os gritos felizes de algum bêbado qualquer. Não via que a sua solidão era maior do que a minha. Não via a falta que eu mesmo fazia.

Eu não via o vazio dos enfeites de natal na sua porta. Eu não via você sem receber qualquer presente. Eu não via você me esperando entrar por ali com uma lembrança qualquer. Eu não via você chorar.

No ano novo, eu não via você sem beber champanhe. Não via você segurando firme um travesseiro contra a cabeça para não escutar o barulho dos fogos. Eu estava ofuscado por eles. Eu não via o escuro do seu quarto, a falta de vontade, a saudade do tempo em que eu podia ainda lhe dar socos no braço.

Hoje eu vejo tudo isso.

Mas só porque hoje eu não vejo você.