quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

a PROPOSIÇÃO DE DINORAH - por Simone Huck

 Ilustração de Ricardo Bezerra

Não vamos confundir preposição com proposição. Um prefixo pode mudar uma sentença; uma sentença pode mudar uma vida. Muita coisa cabe dentro de uma vogal - solitária letra. Imagina o que não cabe dentro de um prefixo? Mas não vamos perder a proposição desta crônica. Convido-os a pensar nas preposições. Gramaticalmente, há grande diferença entre o significado das duas palavras. Em retórica, podemos ousar colocar as duas dentro de uma mesma frase ou pensamento. O autor pode tudo. A Sra. Dinorah, também.

Segundo explicações gramaticais, preposição é a palavra que liga dois ou mais termos de uma oração. A relação entre os elementos ligados é subordinativa. Se não houver ligação, não há entendimento. Mais ou menos como a ordem do chefe e o chefiado. Nunca tive chefe. Não saberia ser uma preposição. Já o significado da palavra proposição, segundo dicionários, é a ação de pôr diante dos olhos, propor, apresentar, expor um assunto, provar, estabelecer. Tenho dúvidas se conseguiria ser uma proposição. 

Na escola eu tinha um caderno onde anotava, repetidas vezes, todas as palavras que ortograficamente eu escrevia errado pelas diversas redações semanais. Se trocasse X por CH, por exemplo, lá ia a palavra ser escrita trinta vezes no maldito caderno até o burro aprender. Chateação, chateação, chateação, chateação, chateação, chateação... chateação.  

A Sra. Dinorah, minha inesquecível professora de português, era dessas megeras que bem cumpria seu papel e suas proposições. Seu rosto, também gravado e cravado em minha memória, está presente nos meus olhos feito assombração de filmes de terror. O caderno que ela inventou era a sentença que carregávamos o dia todo. Quanto mais palavras ortograficamente erradas em nossas redações, maior o calo nos dedos pela repetição da palavra certa. "É preciso escrever trinta vezes a grafia certa de uma palavra! Assim vocês jamais esquecerão!". Xingar, xingar, xingar, xingar, xingar, xingar, xingar... xingar. Trinta vezes! Me controlei para que essa palavra ficasse apenas no caderno e nunca fosse um ato.  

Jamais conseguirei esquecer a Sra. Dinorah. Ela é a correção de uma grafia errada martelando minha memória? Defuntos também são eternas proposições. Calma, leitor, já chegarei nas preposições. Prossigamos:

Apesar dos seus rituais nazistas, devo admitir que ela foi a grande responsável pelo meu amor e ódio por algumas palavras - o bem e o mal andam de mãos dadas pelos parques do mundo. No calo de nossos adolescentes dedos, sua ênfase na repetição queria fazer de nós, no mínimo, pessoas capazes de escrever minimamente bem. Devo admitir que sua cruel proposição foi e é até hoje eficaz comigo. Quando olho para a minha mesa de trabalho, percebo que há inúmeras dinorás escorrendo dos meus textos, pingando da minha mesa, molhando chão, deixando rastro. Sua voz sobe pela terra seca, grita, acena e pontua. Sua morte faz florescer as palavras que não esqueço. Ela é uma grafia certa na minha língua.

O caderno das palavras repetidas, que chamávamos de caderno do diabo, não era preto. Era encapado com aqueles plásticos quadriculados de vermelho que se parecem com toalhas italianas. O meu era encapado com o quadriculado azul. Nunca gostei de regras. Só as ortográficas da Sra. Dinorah. Sempre fui uma proposição contrariada. Neste caderno anotávamos também algumas regras gramaticais que tínhamos, segundo a nazista, que decorar. Me lembro das preposições. Passei dias, meses, séculos, gerações tentando decorar as dezoito preposições: a, ante, até, após, de, desde, com, contra, em, entre, para, per, perante, por, sem, sobre, trás... Nunca consegui gravar as cinco últimas. Hoje compreendo que tenho problemas com "per, perante, sem, sobre, trás". Sempre fui uma preposição incompleta. Não consigo estabelecer certas relações de subordinação. Sou uma preposição acidental, um "exceto". Muitas vezes sou um "senão". Às vezes não consigo ligar dois termos de uma oração. A expressão fica perdida num canto da minha intenção. Falo sozinha comigo mesma, entendo minhas frases insubordinadas. Sou um perante. Talvez um trás. Um sobre sem per.

Muitos anos se passaram. Sempre que escrevo um texto ou me debruço em pesquisas, me lembro da megera e do caderno do diabo. Já falei que ele era azul. Não sei se contei que ela já faleceu. Nem sei se atualmente ela ainda dá aulas. Não sei se no céu os anjos precisam de cadernos do diabo. Talvez ela tenha ido para o inferno. Dizem que lá eles não usam cadernos. Ela deve sofrer com esse detalhe.

Criei uma pasta no meu iPad para as palavras que ortograficamente escrevo errado. Digito cinquenta vezes a mesma palavra. Sou muito mais cruel que a Sra. Dinorah. Não há exceção entre as minhas preposições. 

Aprendi a escrever “exceção” depois de ganhar dois calos nos dedos. Nunca mais esqueci. Como não me esqueço dela. Sempre entrava na sala com sua farda de general: avental rosa com um bolsinho na frente repleto de giz colorido. Para cada erro específico, uma cor. Erros são coloridos. A Sra. Dinorah era branca. Não sou nem colorida, nem branca. Sou a lousa. Talvez, ainda seja o caderno do diabo tentando aprender a grafia certa da vida. 

Um dia encontrarei a Sra. Dinorah. Tomaremos um café com açúcar de silêncio eterno. Não precisaremos mais de nenhuma palavra.

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

cASAL - por Dilma Alencar.


Passos tristes em direção à estação, a chuva fina molha as mãos dadas, os casais passam no sentido contrário, um homem com boina vermelha e calça justa improvisa Chico Buarque em seu violão preto, enquanto dois bêbados abraçados soluçam cerveja e descem a rua.
Um casal caminha sem pressa, no início os passos parecem tomar a mesma direção: o metrô.
Ela conheceu Eduardo numa tarde de sexta, entre uma página e um cigarro, ela sofria a angustia das personagens Clariceanas.
Depois de chamar três vezes, finalmente Eduardo conseguiu ser ouvido. E sim, ela tinha fogo.
Os sorrisos foram embalando os braços, os olhos adivinharam alguma coisa por trás das coisas óbvias dos parques.
A grama parecia mais verde, o céu pintou umas nuvens de laranja e alguém tocou a música “vinte e nove”, falaram, ao mesmo tempo, o quanto gostavam daquela música.
Ela reparou uns fios grisalhos no cabelo do homem, notou uma cicatriz no modo dele olhar o horizonte. Sua imaginação feminina e passional deu a ela um nome de mulher, foi o primeiro sinal de querer Eduardo, muitos sentimentos nascem assim, de um nó inventado, de uma cicatriz imposta rente à carne do outro.
Nada doía, saibamos. Os olhos faiscavam alguma coisa além do tesão.
Ele falava pouco, desajeitado com as palavras que sempre foi. Mas fazendo esforço para ser agradável e permanecer ali, perto da voz e do decote da moça. Ele gostou das cores do lençol que cobria a grama, achou graça por ser um lençol e não uma toalha de mesa como de costume no parque.
Comprou água com gás e guaraná.
Um homem passou oferecendo fotografias ao casal.
-Registrem esse momento. Dizia.
Eles sorriram, pois não eram nada além de desconhecidos, se assim se souberem sempre, desconhecidos, terão graça.
Um outro homem passou oferecendo a preço de alma e culpa a história de um homem crucificado.Eles não ouviram.
Fumavam mais e falavam mais perto um do outro.
Eduardo chegou mais perto da moça, rio um riso que interrogava a aproximação dos rostos. Ela disse que sim, com um olhar demorado que anunciava ternura em pétalas lilases.
Ele, inseguro como os homens negam ser, tocou a cintura dela.
E logo, casal.
No fim do dia, casal.
As mãos, ainda tímidas da novidade, ora juntas, ora soltas.
Caminhavam em direção ao portão de saída.
Eduardo, devagar, como se a moça fosse de porcelana cara, passou seus braços pela cintura dela e a abraçou como um namorado faz.
Ela deslizou os dedos entre os cachos castanhos que cobriam a nuca de Eduardo.
Telefones trocados, vontades ditas entre um beijo e outro, um amasso e outro.
Antes de dormir, ela mandou um haicai do Leminski para o homem, Eduardo não estava em casa ainda, mora longe do parque e dela.
Ele enviou como resposta uma “carinha” feliz, e escreveu logo em seguida, para se redimir da economia linguística, uma frase explicando a alegria que o cheiro da moça anunciou aos seus sentidos.
O primeiro café juntos. Ela escolheu um lugar bonito: xícaras estampadas de verde oliva, frases nos pires. Ele usou um tênis vermelho. Ela provou seis vestidos antes de decidir usar uma saia.
Sabiam pouco um do outro, se queriam. Ela não fez perguntas.
Ela viu que ele dispensa canela e gosta de café carioca.
Eduardo disse do trabalho com entusiasmo, diferente da moça, que vivia a dúvida de dizer sim a estabilidade ou arriscar dois anos fora do país, conhecer “gente nova”.
Seis meses. Hoje faz seis meses do dia do parque.
É noite, os passos desse nosso casal caminham sob o céu cinzento e chuvoso.
É mês de festa. As mãos já não se sabem soltas.
Em frente à estação, um beijo demorado sela o fim do domingo.
Doces, cheios de luz, encantados com o brilho azul que a chuva trouxe à cidade. Eles se despedem, tristes, como se uma semana fosse uma ano longe dos sentidos um do outro.
Um casal sob a garoa humaniza o olhar.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

sANTA - por Vinícius Linné

Eu queria estar longe, toda distância ameniza a dor, mas estou ainda aqui.

De longe os números soariam números. A notícia seria triste, mas não imensa como é.

A comoção seria a mesma – uma das meninas posso dizer que vi crescer –, mas não haveria estas ruas cheias de sirenes com notas fúnebres. Não haveria a certeza de que o mesmo ar que agora respiro infeccionou-se de fumaça negra e letal a algumas quadras daqui.

As casas são tristes. A palavra “LUTO” se multiplica pelas ruas, os panos negros acenam nas janelas. Carros, gente, gritos, lágrimas mancham a cidade com nome de santa. A cidade pandemônio. A cidade inferno.

E só de pensar o quão pouco me colocaria naquela boate, estremeço. Um convite, um amigo, uma vontade súbita, uma coincidência qualquer e então a fumaça me consumindo também. E então os sinos aqui e lá em Tapera dobrando por mim.

Na verdade, não se pode pensar. Nem dizer ou escrever se pode. Não é esse o tom. O tom aqui é de minuto de silêncio. Minuto eterno, que congelou a vida toda de quem ficou. Dos pais, dos filhos, dos irmãos, dos amigos... Nenhuma vida voltará a andar. Tenho a impressão de que todos morrerão (daqui a anos) ainda nesse silêncio de sepulcro.

Respeitemos, então, o silêncio deles. E busquemos o nosso próprio. É no silêncio que as feridas se fecham. É no silêncio que os últimos rastros da fumaça somem. É no silêncio que podemos doer, enfim, até a dor amansar. Sim, amansar, porque a dor, ao contrário de nós, não morre jamais.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

o ESPARTILHO BRANCO - por Simone Huck

"The Corset", Valerie Steele.
(Raio-X de Cathy Jung usando um espar­tilho).

(para A. M.,  entre nossos longos cafés e diálogos).

Suas manhãs eram feitas de lancheiras, cadernos escolares, lápis de cor, o jornal do dia, desenhos impressionistas com giz de cera, sucrilhos, leite semi-desnatado, a pasta do marido – o primeiro a sair de casa, preocupado restritamente com seus compromissos – e as coisas dela; última a sair, carregando os dois filhos pelas mãos com suas respectivas mochilas. As crianças começam cedo a carregar nas costas seus pequenos mundos. Bom dia, Vietnã.

Entra no carro, acomoda os filhos no banco de trás, as mochilas e lancheiras, sua agenda e no banco do passageiro acomoda sua solidão. Ajusta o cinto de segurança com uma leve vontade de ajustá-lo em seu próprio pescoço e apertar até o ar ser a última coisa a invadir seu corpo cansado de uma rotina silenciosa e cheia. Não estava triste. Não era infeliz. Liga o carro. Queria ouvir Marisa Monte cantar Give me Love no último volume mas o filho grita do banco de trás “mamãe, coloca a música do Patati Patatá?” Se ela pudesse, compraria uma metralhadora na primeira boca de fumo – correria risco de vida – só para poder entrar no primeiro circo e matar a primeira dupla de Patati Patatá que encontrasse pela frente. Seriam dois palhaços a menos dos três milhões que se disseminaram nos últimos anos. O lixo sempre tem um marketing inteligente. Trocou o CD a pedido dos filhos e foi Patati Patatá quem metralhou Marisa Monte. Ela não ganhou amor. Give me Love não existe. Deixou os filhos na escola e sua solidão, sentada no banco do passageiro, fumava um debochado cigarro e vestia Calvin Klein. Tinha um sorriso elegante tanto quanto sua postura e roupa. Repousou suas mãos em cima das mãos dela quando tentava trocar a marcha do carro e disse “agora vamos tomar um café de verdade?” Concordou sorrindo. Trocou o CD do carro com tanta raiva que quase esfarelou Patati Patatá entre seus dedos. Give me Love começou a tocar. Ainda era possível. Chorou. Cantou. Batia no volante com dedos ávidos, acompanhando o ritmo da música. Finalmente era seu próprio metrônomo. O ritmo, a vida, o ar que entrava pelos seus pulmões e atravessava sua alma estava em Adágio. Naquela hora da manhã, tudo era somente seu e seguia o seu ritmo. Lembrou que antes de sair de casa havia vestido por baixo da roupa cotidiana um espartilho branco que o abraço frio e rápido do marido não notou. A rotina é uma tesoura diária que recorta detalhes.

Faltavam duas horas para o trabalho. Precisava mais uma vez daquilo. Não, não era vício. Nem fuga. Não era louca. Não estava possuída por um espírito. Tinha o exato controle de sua mente, coração e vida. E justamente por ter o controle de todas as suas razões e emoções, sentia-se plenamente lúcida para mais uma vez estar ali. Estacionou o carro numa garagem larga com vários outros carros. A casa era bonita por fora, clara, com algumas flores debochadas no canteiro de entrada. Tocou a campainha e o interfone pediu a senha. Aproximou a boca no microfone e disse alguma palavra em inglês que lembrava peixe, seguida por três números repetidos. Nosso maior segredo pode habitar uma simples senha. A porta abriu. O que estava lá dentro em nada se parecia com o que estava lá fora. Era escuro, muito escuro. Corredores, balcões, quartos. Não havia flores. A casa parecia um labirinto sem fim. Anônimos da manhã misturavam-se com os anônimos da madrugada. Entrou no terceiro quarto escuro depois do segundo corredor. Fechou a porta e os olhos. Em menos de dois minutos sentiu uma boca a percorrer seu pescoço e corpo. No escuro, uma boca é uma boca, nada mais. Quem a beijava sentiu seu espartilho, suspirou alguma coisa inteligível e gostou. Os desconhecidos alimentam-se de detalhes que os conhecidos não enxergam. Em poucos segundos estava nua, abraçada, beijada e domada. No escuro anônimo, Maria Bethânia cantava “Dentro da noite feroz, no breu das noites brancas de hotel, no clarão, no vão, no não... na multidão. Tua. Tua e só tua”. Misturado a um cheiro velho de almíscar, ela sentia-se completamente de alguém com vontade, suor, tremores e silêncios. Escamas córneas escorriam pelas paredes. Dentes, mãos, pelos e pele. Tudo era minuciosamente percebido e sentido. Ficou por duas horas naquela casa. A porta abriu e fechou algumas vezes. Outras pessoas entram e saíram. Todos notaram seu espartilho.

Entrou no carro. Antes de sair passou um batom, arrumou o cabelo e foi para o trabalho. Atendeu telefonemas. Resolveu situações adversas. Autorizou a contratação de dois novos funcionários e saiu para almoçar no horário de sempre. Conversou com todos normalmente. Resolveu tudo com a eficiência diária e as dezoito horas em ponto estava no portão da escola para pegar seus filhos. Em cinco minutos as crianças saíram com um sorriso largo pendurado no pequeno rosto, abriram os braços e correram em sua direção. Ela os abraçou como se abraça alguém que vai para a guerra sem a certeza do regresso. Eles a abraçaram como se abraça uma mãe, na rotina dos dias. Foram todos para casa. Não tiveram tempo de pedir Patati Patata porque ela já havia deixado pronto para tocar. Voltaram cantarolando os palhaços. Ela achou a vida uma ironia. Um picadeiro com a melhor fantasia. Um palhaço no auge de sua melhor palhaçada. Ela nunca conseguiu sorrir com um palhaço.

Chegaram em casa. Deu banho nas crianças e quis terminar de preparar o jantar. Fazia questão de finalizar o que a empregada deixava pronto. Queria ser a última a dar uma pitada de gosto em seu pequeno desgosto particular. Enquanto os filhos brincavam na sala, o marido e sua pasta entraram. Ele abraçou os filhos como se abraça um gato. Sorriu. Foi até a cozinha e beijou-a como se beija a foto da própria mãe numa lápide fria. Ele era muito educado. Elogiou o cheiro da comida e quase não notou que ela terminava de preparar o arroz com carne que ele mais gostava. Foi para o banheiro em silêncio. Tomou banho e não ousou cantar uma única vogal. Quando terminou, todos o esperavam na mesa. Antes de começar a comer, ele quis colocar uma música para tocar baixinho na sala ao lado. Ela concordou. Ele foi até o aparelho de som, colocou o CD e deu play. Maria Bethânia começou a cantar: “Dentro da noite feroz, no breu das noites brancas de hotel, no clarão, no vão, no não... na multidão. Tua. Tua e só tua”. Ela parou de respirar. Ele voltou para a mesa e começou a comer. Ela perdeu a vontade de comida e começou a mastigar a música que deitava em seu prato. A rotina tinha fome e apreciou a carne com arroz que ela fez. A música tinha fome e notou o espartilho dela. A rotina e a música lamberam os beiços.

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

mARINA - por Dilma Alencar.

Os abismos apartam o homem do óbvio. Os cabrestos orgulham os pares desavisados da morte, os horários, as brigas, as rédeas que qualquer relação pressupõe. Enfeites, o fogo foi nosso primeiro símbolo, luz, enfeite.
A solidão não é um prêmio aos desajustados do mundo, esses por aí, que tem angústias embutidas até nos goles de cerveja, a solidão é um segredo dos primeiros homens, é uma linguagem que não se ajusta aos pacotes de viagem nem às noites eróticas de rezas, a solidão é um estado de silêncio em que os fantasmas nos amam, solidão é o espaço entre meu copo e o seu, entre meu filho e seu parto, a solidão é um estado de dor inseparável, de uma regularidade que envergonha qualquer namoro,
A mãe que guarda a roupa do filho morto. A fome de pão alimenta a linearidade do operário feliz, a fome de corpo estrangula o corpo de adultos violentos.
Com três tiros levaram o menino vadio.
Com três terços banhados em ouro, ela voltou sem comer, cada conta uma lágrima e o filho morto, um soluço e um filho morto, um orgasmo e um filho morto. Um pedaço de pão dormido e um filho morto.
A vertigem anula absurdos e o que dói já não precisa de nome, assim também como o que dá prazer. A cidade é palco, é também vida. A cidade é.
Há fome de carros, gravatas, crachás, apartamento, viagens, drinques, novas línguas, sex shop, pubs, yoga, comida vegetariana, piscina grande, feriados longos, havaianas, jeans, cinema, teatro, açougue, asilo, creches, campanhas, acampamento, escritura.
Jornais, estúpidos e niilistas, organizam o caos no discurso de quem manda, quem lê ri e arrota as últimas teorias para explicar a guerra, a impotência sexual, a bipolaridade, a depressão, o barroco, a renda da saia, o fio do cabelo, a partícula de deus, o buraco do asfalto, a fumaça da boca do mendigo, o fedor do rio, o músculo da perna do jogador, o dente quebrado do artista fenômeno do minuto, o imposto que não rende rente aos olhos de quem paga, o sangue na escada perto da avenida.
Mãos e pés, escadas e corrimãos. O cenário da lida, as estações inchadas de pressa.
À primeira luz, poucos sabem, ou podem, ver além da plataforma e do trem. A maioria dos olhos está no pulso e nos trilhos, os passos apressados, os corpos cansados, antes mesmo das seis.
A ordem do dia é a vida regulada pelas horas aceitas.
Na contramão do fluxo, do óbvio e do apetite geral, Marina volta do velho centro.
Tocara percussão durante 4 horas. Boêmios brindaram à música, ao diabo e principalmente às pernas de Marina, vistas redondamente vistas com desejo, saltando de um vestido azul.
Deus põe poesia no sereno, e Marina aos olhos de poetas.
Nos intervalos, ela fumava, doce como só ela sabe ser.
Solta, irresponsável à correnteza dos atos clichês, Marina foi a um quarto tão desconhecido quanto a sua companhia despiu e foi despida.
Quente, esguia e ávida, matava a fome, alimentava os versos que um dia alguém, de certo, escreverá.
Marina, agora, voltava para o lar: filho de um ano, marido e no domingo, almoço na casa da sogra. É muito feliz.
Ninguém duvida.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

PRETO no BRANCO - por Vinícius Linné

"Ela mostrou. Ela mostrou um papel em que dizia que a casa toda era dela. E que eu tinha umas tantas horas pra sair de lá. Eu saí. Saí, né?! Saí porque se está escrito lá no papel, então é verdade. Se ela só dissesse, eu não acreditava não. Mas tava no papel. E era papel bonito, viu?! Com letra desenhada e tudo. Carimbo? Não, não tinha carimbo não. Sinatura? Sinatura é quando escreve com letra tudo junta, né?! Sinatura tinha sim. Era bem vermelha, coisa mais linda."


"A Maria Izildinha disse que tava escrito lá no livro. Tava no livro que ela leu na escola que no Japão o céu é embaixo. Coitadinhos dos japoneses, devem viver no mundo da lua. Por isso é que são tão avançado, né?! Queria eu na época dela ter ido pra escola. Eu ia saber daí dos japoneses e de tudo mais que tá escrito nos livro. Eles fazem os livro tudo contando o que existe, sabia? Outro dia ela tava lendo um cheio de ET, até me mostrou uma figura. Eita bicho zuiudo. No mínimo eles moram lá no Japão também. É tudo mesmo meio céu, né?"


"Mas é verdade! Tá até escrito! Deixa que eu vou pegar o papel pra você ver como que é verdade"


"Então escreve! Não, não, não. Negócio de promessa não me vale de nada. Palavra de homem só se bem escrita aqui no papel. Se eu tiver o papel escrito e tu não cumprir, depois eu posso ir lá na polícia e mostrar: tá aqui, ó! Tá escrito o trato todo. Escreve logo. E daí se eu não sei ler? A polícia sabe... a polícia sabe..."


"Escreve. Escreve tudo aí, seu moço. Escreve porque se a gente não tá escrito, a gente nem existe. Pelo menos foi assim que me falou o homem lá do cartório. Disse “Senhora, se não tem o papel dizendo que a menina nasceu, ela não existe”. Agora veja, a menina já tá quase criada, crescida e depois de tanto tempo parida nem gente é. Pra ser gente tem que tá escrito em algum lugar que se é gente, então escreve aí, seu moço: Ana Francisca Clementina das Almas existe. E é gente! Apesar de que não muito..."

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

a CHUVA LÁ DE FORA E AQUI DE DENTRO - por Simone Huck

Aquarela de Joana Vieira

Visto-me de janeiro e tento compreender a espera das horas que me escurecem. Ontem tive uma súbita vontade de vender todas as minhas palavras. Quem daria cinco centavos por elas? 

Desconheço a extensão da letra e do motivo. O que será que nos move de fato? A palavra ou a intenção? Memórias póstumas estão ancoradas no presente do meu fígado. Martelam regras, odores e nãos. Sou um pirata ilhado no meu próprio mar. Tenho saudades de casa.

Hoje o dia foi um suceder de tempestade e sol. Nem os céus sabem o que querem. Todos estão loucos; não faço parte desse hospício sozinha. Será que Zeus quer chamar atenção ou está numa crise de identidade e idade? Estamos todos envelhecendo. Nos céus ou na terra. Controlando chuvas ou palavras, todos querem vender alguma coisa que pensam possuir. Seremos eternos mercadores. Deuses e homens em conflitos e trocas. Vamos descer? Ou melhor, remar?

A falta omitida. A presença adiada. A saudade guardada num baú empoeirado, repleto de relicários e traças famintas. Agarrados a um pedaço vão de fé, somos um exército de maltrapilhos pagando promessas mudas por coisas que não mais acreditamos. Não desistimos. Somos homens da insistência. Quem ousa dizer que não somos felizes? Mas é claro que somos!

Janeiro é uma repetição de chuva, sol e tempestades. Tempestades externas e internas. Qual será que destrói mais? Enquanto a tempestade desce dos céus, vejo a porta dos estabelecimentos repletos de gente que buscam abrigo. Padarias, bares, mercados, bancos, hospitais, ficam com as portas de entrada obstruídas por uma multidão se protegendo da chuva. Possuem olhos ávidos. Olhos de esperar chuva passar, tempestade acabar, água secar. Olhos nostálgicos também. A chuva sempre molha alguma coisa interna do nosso humano. Amontoados, homens e mulheres com medo dos céus a espera de um segundo de trégua. Quando os pingos chegam, eles se atiram ao anonimato das ruas e seguem seus solitários caminhos. Passos apressados. A dúvida sempre corre.

No fundo, só queremos voltar pra casa. O guarda-chuva de pedra das nossas vãs ilusões.