segunda-feira, 15 de julho de 2013

oS QUE EU NÃO SOU - por Vinícius Linné

Não sou do tipo que dança nas festas. Sou do tipo que um dia se mata. Qualquer frase que contrarie essas sentenças, não sou eu. O que enxergam quando é para mim que olham?

Eu não posso enganar. Eu não sei mais mentir. Sorrir falsamente, cantar o que todos cantam, escrever o que todos escrevem. Eu não sei. Eu desaprendi ser os outros. Logo eu, que já fui tantos, hoje sou só eu.

E eu queria que me reconhecessem por isso. Eu queria que as sombras do que eu não sou não pesassem tanto sobre mim. Mas pesam. Pesam porque cada vez que vocês dizem como eu não sou, subentende-se a maneira como vocês gostariam que eu fosse. 

Eu sou sempre menos do que vocês queriam.

Há alguém que goste do que sou?

Queriam que eu dançasse. Queriam que eu risse. Queriam que eu saísse. Queriam que eu bebesse. Queriam eu tivesse dois empregos. Queriam que eu escrevesse crônicas amenas. Queriam que eu ganhasse dinheiro. Queriam que eu calasse a boca. Queriam que eu tivesse uma plantação. Queriam que eu tivesse uma casa. Queriam que eu fosse pacífico. Queriam que eu fosse dócil. Queriam que eu aceitasse tudo. Queriam que eu relevasse. Queriam que eu me omitisse. Queriam que eu trabalhasse de graça. Queriam que eu fosse incompetente. Queriam que eu transformasse a vida de alguém. Queriam que eu autografasse. Queriam que eu publicasse. Queriam que eu escrevesse a história de um gato. Queriam que eu quisesse tudo isso.

E eu não quero.

Não tudo. Não agora.

O que eu queria era que me deixassem ser essa coisa intrincada, confusa, introspectiva e imatura que eu sou. Queria que não me atirassem na cara o quanto me queriam melhor. A cada frase, o que me esbofeteia é o quanto eu não sou bom o bastante para quem fala. Cada pequena sentença vem em tom de acusação. Diz assim: "Você não é isso. Eu queria alguém que fosse, mas você não é. Por que você não é, se eu queria?"

Estou cansado. Estou cansado dos meus não seres. Eles pesam muito. Muito mais do que aquilo que sou.

Sou o que lê, o que fica, o que observa, o que pensa. Sou o calado, o que se esconde, o que escreve para não se entender. Sou o que pesa, pondera, qualifica, o que responde, manifesta, ri quando acha graça e silencia quando tudo mais é agitação. Sou o que espera as tempestades. Sou o que ama, faz poesia e sonha. Sou o que lida com o insustentável, o que fantasia, que fotografa e estuda por horas um inseto de jardim. Sou o que pinta, o que repara, o que pensa, o que brinda sozinho e olha, pela janela, a lua. Sou o que diz mais do que deve, pensa mais do que sente e não consegue, simplesmente não consegue ser diferente.

Compreendam, por favor, compreendam: eu não sou os que eu não sou.

Os outros são. Eu não.

E se o que eu sou não basta, compreendam isso também: eu sou daqueles feitos para serem deixados no caminho.

quinta-feira, 11 de julho de 2013

vENDE-SE - por Simone Huck


Gabriel Pacheco

Desce a rua dos Lírios com as mãos no bolso. O amor é a própria tormenta em forma de flor. Às vezes tem nome de rua. Tropeça num pedaço de tule vermelho da última noiva que se casou na esquina. Um pano leve para certezas pesadas. A noiva abandonou o véu do amor num cruzamento qualquer. O amor tem esquinas confusas. Cruzamentos perigosos. Trânsito de intenções distintas sem sinalização de ordem. Amar é uma colisão. Todos morrem. Ela morreu na rua dos Lírios, sem número.

O tule arranha o passado dele. Uma voz invade seu ouvido: “Prometo amar você no inferno dos dias monótonos e na insensatez das horas sem respostas”. Descobre que ela mentiu na saúde e na doença. Tira as mãos do bolso e antes de atravessar para o outro lado da rua, lê a placa em frente da casa velha: “ VENDE-SE: Três quartos com uma suíte inacabada e um sótão empoeirado para você se enforcar”. Sorri. Se tivesse comprado aquela casa, seriam felizes na alegria e na tristeza. Era o primeiro anúncio digno dos últimos quatro anos de sua vida.

Abre a porta de sua casa e antes de entrar tira os sapatos e as meias. Caminha descalço até o quintal e pendura no varal alguns de seus silêncios. Nada seca. O tule vermelho, que ele recolheu do chão e carregou até ali, pinga miçangas do pai, filho e espírito santo. O amor disse amém e atravessou a rua sem olhar. O varal escorre vírgulas sem controle. Senta num canto e chora consoantes mortas. Percebe que amanheceu sem asas, sem língua e sem vogais. Calça os sapatos, enrola-se no tule vermelho e sai de casa apressado. Atravessa a primeira avenida sem olhar.

Era tarde demais para qualquer semântica. 
O vento carrega o tule para outra direção.

terça-feira, 9 de julho de 2013

iMPERATIVOS DE MARIA - por Adilma Alencar


            Maria: o lenço, o limbo, desprezo na minha língua, as nuvens todas ainda na minha boca, meu sangue entre as pernas, a filha que vai nascer, rugas no seu espelho, primeiro desejo de morte, cafés com creme, as estações de trem ou o beco das ruas escuras, as sombras de Capitu, a cegueira de Blimunda, deus aberto em flor de mandacaru, deus entre minhas coxas, a eternidade em suor e sal, as lágrimas da mulher que enterrou o filho, as unhas cortadas a dentes, ardentes, infames e sujas. Maria: Canção torta de um lirismo de choro, esmaltes secos na minha estante, cachecol azul na minha cama, pasta de dente na minha pia, atraso de relatórios, cheiro entre papéis, papéis trocados, terapia de sol e grama, elástico de minhas vontades oblíquas, fome de cor, nas curvas de desejos fáceis, mel com cachaça, candeeiro, cangaço de minhas tentativas, arapuca de confete, bicicleta em tarde fria, água gelada, corpo em nó, em laço, lance, visgo de rotina de pele, placidez em dentes, em ferida, vontade de escrever sobre o céu, de violentar uma certeza cravada nos ombros, aliança de plástico, umbigo-mapa-mundo, estampa de poesia na nuca, angústia no nunca, abismo de boca aberta ao meu encontro, precisão, guilhotina, merthiolate, suspiro com veneno, prozac, paracetamol, chá de cogumelo, meu golpe, minha gare, emplastro, nódoa da caju, visgo de jaca, pinha, remendo de arame farpado, fiapo de manga no dente branco.

         Maria, me levanta do chão? Me abre em inferno, em tapa, em teto. Transe com um monge, com uma puta e volte para minha casa, banharei seu corpo, lavarei seu cabelo com chá de pitanga, passearei os dedos na sua nuca, abotoarei seu casaco e dormirei com essa ilusão de que seu calor, da Sibéria, compassa minhas angústias.

segunda-feira, 8 de julho de 2013

iNVERNO - Por Vinícius Linné

Você coloca toalhas velhas nas frestas das janelas. Como se não bastasse, você empurra os panos com a ponta de uma tesoura afiada. Você lacra cada abertura, veda cada furo, tranca, com papel higiênico, até os buracos das fechaduras. 

Você liga os aquecedores, empilha todos os cobertores, deita de roupa, casaco, meia, tênis, manta. Não adianta.

Você vai à cozinha, ferve água e derrama na xícara sobre algumas folhas verdes. Você bebe o chá ainda fervendo, queima boca, língua, faringe, esôfago, estômago. E nada. Você descola a pele aos pedaços, estoura bolhas, puxa couros, tudo arde, mas é de frio.

Você bota as mãos direto sobre a chama do fogão. Elas grudam nas grades, o sangue borbulha, a carne vai assando, se desfazendo em fumaça e cinzas e, mesmo assim, você continua tremendo.

Demora. Demora até você entender que não adianta. Você encosta o que sobrou das mãos no rosto, seus cabelos grudam no sangue, as bolhas seguem vertendo água. A água é gelada. É gelado também o toque dessas mãos. São geladas, ainda, as lágrimas que descem pela sua face e se cristalizam, antes mesmo de chegarem à boca.

Não adianta. Nada mais adianta. Depois daquele último abraço, ao pôr do sol, você nunca mais saberá o que é calor.

quinta-feira, 4 de julho de 2013

cARTA AO CALENDÁRIO - por Simone Huck

"Calendar 2013" - Mina Braun

Nunca te escrevi uma carta. Ainda tenho dúvidas se ao final, isso será uma carta. Inquieta-me sua presença numérica e fria em minha vida. Nos últimos anos você tem trapaceado sem disfarces. Finjo não ver sua apressada ordem. Vivemos no istmo entre certezas e incertezas. Eu envelheço. Você se renova. Somos assincrônicos e obstinados.

Na maioria das vezes você é de papel. Na maioria das vezes sou de carne e osso. O que nos sustenta é dúbio. Nossa natureza escorre líquida. Sem pausas. Às vezes, precisamos de mais feriados para permanecer ilesos.

Sua gênese vem das plantações. Minha gênese vem das guerras. Nunca fomos amigos. Jamais seremos. Insisto para que desista das pontuações. Seguirei escapando pela tangente de seus números ordinais. Algumas de suas datas comemorativas sigo esquecendo.

Queria agradecê-lo imensamente pelo nosso último duelo. Quando você e o médico sentenciaram a mãe, me transformei numa filha de ferro. Já não quebro tão fácil. Troquei de pele e pulso. Renovei minha saliva. Sua rotação consertou meu eixo. Perdi o pouco que sobrava da minha fé e conquistei o melhor dos lugares junto à mesa da Santa Ceia. Tenho dividido pão e vinho comigo mesma. Insisto: desista de querer nos agendar.

Para terminar essa carta - que já está longa demais – não podemos esquecer que sua origem é duvidosa. Você já foi romano, islâmico, teórico, hebraico, misto, juliano, gregoriano. Eu continuo tendo o mesmo nome, morando no mesmo apartamento e tendo a mesma obstinação: envelhecer na tangente do seu incerto sentido. Sem mais. Sem números. Adeus.  

terça-feira, 2 de julho de 2013

sOBRE TUA BELEZA LARGA - por Adilma Alencar.

Nos momentos de graça as palavras fogem. Os olhos se abertos vão virando água, se fechados, oração. Aconchego inerte que o dizer não alcança, o passar do tempo medido em cafuné e roçar de rostos. Você abriu um sorriso e eu quis acompanhar as flores que vingavam verdes no meu estômago. Inverno, os nervos de aço vão derretendo em fios de cabelos longos sobre o edredom e o atraso das horas. A casa é toda vontade de ficar, castelos de cobertas e suspiros de sereias, quase uma cena de Almodóvar a luz do computador incidindo nos teus dentes largos.
A cidade de São Paulo está fria, está vestida de flores, as viagens marcadas aguardam voo, os homens cospem acordos trabalhistas. Na cozinha, homens e mulheres se reúnem ao redor de miojo ou de lasanha, aipim ou sopa. As mãos unidas. Por força do querer, o improvável acontece enquanto a gente é sorriso e bem querer.
Eu não sei garimpar palavra para o calor de tuas pernas querendo dormir, nem recortar o silêncio de teus ombros em minhas mãos. Não quero um quadro para pendurar na parede, eu quero brincar de estar despida nas tuas mãos.
Sem arremedo nem corrente, trançando meu corpo no teu, as curvas que o teu riso desenha no meu rosto são sãs, lirismo de cheiro, de vento frio nas tuas vontades.
Som de flauta doce desenharia, se alcançasse, o ritmo que teu carinho cantou no meu pescoço, anúncio de paz no corpo todo.
A ordem do dia foi adiada, porque o calor cresceu em carinho e violentou o dia, fez sol numa manhã cinzenta.
Xícara, pão, tapete, texto na tua pele, era conto ou crônica, haicai ou provérbio chinês, não era, É.É poesia de Hilda, maçã de Raul.
O cachorro, o café, os carros, o relógio, tudo anunciava a pressa dos horários e das coisas sempre esperando a gente, a vida reta: de cortar as unhas, lavar a roupa, comprar as malas, fazer a inscrição. Tudo apressava nossa preguiça de manhã, nosso espanto dos roteiros.
No ínterim, no intento, no tesão, no passo leve de tuas pernas nas avenidas, nas ruas, na escada, no teu itinerário , que tudo seja a graça que tua luz anuncia porque tua beleza é larga.
Eu falei, tua beleza é larga.
Larga.


segunda-feira, 1 de julho de 2013

uNHA - por Vinícius Linné

— Quem tira as suas fotos? 
— Por quê?
— Porque... não sei... dá pra ver que existe uma conexão muito grande entre você e quem te fotografa. É algo que transparece. Como se vocês se conhecessem muito bem. Como se, com essa pessoa, você se sentisse livre o suficiente para revelar a alma inteira.
— Sou eu. Eu tiro as minhas fotos. O que é estranho, porque eu não me conheço. Eu não me entrego pra mim.
— Mas você pode se entregar, mesmo sem se saber. Às vezes a gente faz as coisas sem saber. Eu, por exemplo, descobri que pratico a automutilação. E sempre achei isso coisa de doido. Eu não corto meus braços, nem nada assim, mas eu tenho uma unha encravada que não deixo sarar. Eu gosto de como ela dói. Eu gosto de ver a vermelhidão do sangue que escorre dela, quando eu a machuco. E eu gosto de machucá-la. 
— Isso é estranho.
— Não é. Se todo sentimento é válido, a dor também é. Quando vou mexer nela e ela começa a doer, eu penso “É dor, é só dor. Eu aguento.” E então eu aproveito aquela sensação. Eu fecho os olhos e deixo ela se irradiar. E nunca dói mais que um coração partido, por exemplo. Mas não quero falar disso. Eu estava falando das suas fotos. Eu admiro demais sua criatividade. E com tudo. Escrita, fotografia... desenho. Você desenhava, não?
— Desenhava sim. Mas consegui parar. Foi uma das coisas que já consegui abandonar. Quero ver se abandono as outras também.
— Como assim?! Sua criatividade é um dom!
— É maldição. Imagine que alguém tem uma porção de sementes, mas não tem um campo para plantar...
— Mas, então, você poderia vender as sementes para quem tem um campo.
— E aí você nunca colheria nada.
— Tá, mas o que você quer dizer, afinal?
— Que não adianta. Eu não sei quantas coisas tenho escritas. Eu não sei quantas técnicas de fotografia eu tenho descoberto. Eu não sei quantas ideias eu tenho gerado. Eu não sei quantas músicas eu já gravei... E tudo pra nada. Eu tenho essas sementes todas, e não tenho onde colocá-las. Eu as vejo embolorar e apodrecer, sem nunca ver fruto algum. Sem nunca ver qualquer resultado. Nada de nada.
— E isso é motivo de desistir?
— O que você espera? Que eu diga para mim mesmo que “É dor, é só dor. Eu aguento”?
— Seria uma alternativa. Pessoas morreriam para ter as ideias que você tem.
— Pessoas morreriam se tivessem essas ideias e ninguém investisse nelas. Se elas não tivessem um caminho, contatos, meios de fazê-las acontecer.
— Você ainda é novo.
— Novo, mas cansado.
— É cansaço. É só cansaço. Você aguenta.
— Estou cansado de aguentar, de esperar, de acreditar, de investir, de viver.
— Te ver assim me dói. Dói mais do que a minha unha encravada.