terça-feira, 5 de novembro de 2013

mANGA -por Adilma Secundo Alencar.

Manga.
No último domingo de calor e luz, as suas lembranças iluminaram as paredes do meu quarto. Eu a vi dentro de um raio de sol que me esquentou os seios e meu sorriso se abriu em intenções ternas e cálidas, porque é de minha natureza o visgo, o vinho. Eu tomei suas mãos como estrada, e essa constante ressaca do seu gosto de manga agora é saliva e saudade.
A consulta, a salada, a lotação, o boleto, a luz e a água, tudo na gaveta, para depois, como tem que ser. O mundo cede à poesia, meu alumbramento passeia pelos ombros pesados dos homens de vida reta, nas lágrimas absurdas das mulheres tristes.
Meu susto é um beijo molhado nos sorrisos que seguram a vida rente à carne.
A raiva não rima com nada, a raiva não sabe dançar. A raiva dá tiro, dá úlcera. A raiva é o monstro mais feio, mais feio que o abandono.
Hoje, eu só adoeço é desse amor vagabundo que o meu corpo quer. Se querer bem assim trouxesse de volta o buquê de flores verdes que me levaram.Mas não,o mar não pode ser minha metáfora.
Foi de espinho e chumbo meu primeiro alumbramento, e agora tudo é pétala e pele. Para a morena que é de água afloro em sorrisos verdes de meninice desmedida. Ao homem triste e fechado dou é verbo de lã e fogo. O inferno salta aos olhos, e eu já sei preferir a saúde de ser doida. Eu jogo flores sobre as armas e sepulto meus mortos com comida e bebida, de comer e de beber e esquecer o nome.
Eu quero esse susto eterno de desatinar em alecrim e chuva, sol e margaridas brancas.

É de viver o meu sorriso, é de viver.

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

vAZIO - por Vinícius Linné


Coração vazio não pulsa. Bate. Bate no peito, dá socos, pontapés, machuca pela agudeza da sua própria solidão.

Coração vazio não pulsa. Não distribui o sangue, não te deixa vivo por dentro, não te faz querer escrever, pensar, cantar, viver.

Coração vazio não pulsa. Faz eco. Eco das nossas próprias sensações vazias, da nossa falta de sentido (e falta de sentir), da nossa impossibilidade de compreender o para quê da vida.

Se não vim antes aqui foi por falta de ter alguma coisa dentro do coração. Ainda não tenho, mas voltei porque é primavera e qualquer coisa no ar nos explica. Qualquer coisa nos justifica. Voltei porque compreendi que o coração se tem sempre vazio, não importa quem esteja do nosso lado, não importa quem povoe nossos pensamentos, não importa por quem nós fechemos os olhos. Ele continua sempre vazio.

Continua porque ele só poderia se preencher de si mesmo. E ninguém é tão tolo assim. Por isso eu vim. Vim para dizer que ainda há um talvez em mim. Ainda há uma possibilidade, mesmo vazia. Não de ser feliz, não de ser completo, não de ser alguém, não de ser teu. Isso seria tão tolo quanto querer ocupar um coração que, por essência, morrerá vazio.

Vim porque há uma possibilidade de me deitar na tua cama. Uma possibilidade de tirar minha roupa e desfazer meu corpo no teu. Vim agora porque percebi que não há mais do que isso. Não há futuro, não há final feliz, não há sim no altar. Há isso e despedidas. Há isso e reencontros. Há isso e motivos para voltar. Há isso e aquele primeiro abraço, o primeiro contato, a primeira fagulha a queimar tua pele onde meu beijo a marcou.

É por mim que tu ainda fechas os olhos. É por ti que eu ainda fico acordado à noite.

E, mesmo assim, são de vazios imensos nossos corações. E para sempre serão. Por isso eu vim. Porque perdi o medo de perder aquilo que não se tem.

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

aZUL - por Simone Huck

imagem retirada do site da Fundação Fritz Muller

Você abre seus olhos azuis pela manhã e não alcança um céu estável. Engole um pedaço de nuvem carregada com leite desnatado e não mata fome nenhuma.
Corre muito e não chega.
Sua saliva é uma dúvida ancorada nos pés da tempestade que se aproxima.
O dia é uma rotina nublada.
Você abre o guarda-chuva.

(...)

Chama o elevador e ninguém interessante sobe ou desce.
O mundo é uma caixa de metal vazia com diversos andares duvidosos.
Olha no espelho e ajeita a febre curta dos seus cabelos longos.
Você está envelhecendo secretamente.
Pega os óculos escuros.
Confere no celular a agenda do dia.
Entra no carro.
Para no farol.
Acelera na subida.
Estaciona.
Chega e nem percebe.
Tenta roer as unhas mas desiste.
Esquece.
Admite.
O mundo é uma tentativa falida arranhando seu otimismo.
Você fecha o guarda-chuva.

(...)


terça-feira, 29 de outubro de 2013

o HOMEM DA CASA AMARELA -por Adilma Secundo Alencar.

O homem da casa amarela acorda antes do dia clarear, se levanta naquela hora em que o céu do sertão é azul-anil, e vai pra roça, no caminho que seus pés rachados conhecem há 60 anos, caminha sem pressa, que fique claro que não foram os anos que lhe deram mansidão, é de sua natureza não ter pressa nos movimentos nem nas vontades. É um existencialista que não foi à escola, porque foi a escola que por tédio fez do existencialismo uma escola. Os seus filhos já tem filhos e ele reconhece seus traços no queixo, no semblante dos homens que são seus olhos, braços. Ele canta diariamente, assovia as cantigas que Gonzaga eternizou, é um menino de sorriso solto, embora o rosto seja grave e fechado e os vincos enriqueçam a fortaleza do que os seus braços alcançam. Essa hora em que o dia chega com uma luz já laranja, mas fria, fria como um boi a sente, é nessa hora que ele é sozinho, no caminho da roça, é sozinho com os cinco filhos e a mulher no pensamento. O juazeiro na subida da ladeira está ali antes dele e faz sombra para os andantes, para uma rês fatigada. As graúnas firmes, o açude, o cocho, a pedra de quebrar licuri, a corda de amarrar o garrote, o liculizeiro onde deixa a moringa, é tudo cenário onde o homem da casa amarela passa, porque de algum lugar nosso corpo vai gastando olhar, o dele está debruçado nas caçutingas, gravatás, macambiras. Os braços não aparentam força, mas resistem como juncos aos tombos e às     quedas que a natureza lhes impõe. O ícto é de sertão, tão português quanto angolano porque é brasileiro. Resiste como um mandacaru, existe como uma flor, o homem da casa amarela não pensa grande porque ele já vive grande.

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

o NÃO DE MAYARA - por Vinícius Linné


Eu queria transformar teu não em poesia, fazer escorrer na pele a rima exata que não me deixaria cair de braços abertos. Eu queria. E queria sem entender. Além de tudo eu não entendo. Porque, sinceramente, eu não te queria. Eu já tramava os segredos, eu já tingia as máscaras, eu já preparava a vergonha de seres minha. Eu não te queria e, de repente, teu não me abala.

Logo depois de tantos sins ouvidos essa semana ainda, veio teu não. E ele superou os sins. Sabe por quê? Porque o teu não foi a uma possibilidade, enquanto os sins só confirmavam o que eu já tinha. O que eu tenho me cansa. As possibilidades é que me seduzem, as noites insones a imaginar o depois, a expectativa desenhada, os planos macerados, os ideais pintados em um rosto falso, em um nome fingido que tatuarias no peito. E, então, teu não.

Teu não à minha história imagina, prendendo-a para sempre. Teu não desdenhando dos meus não-ditos. Teu não a abalar minhas crenças, a desfazer minhas capacidades, a tingir de vergonha minha voz quando repito, baixinho, que não, que não me quiseste. Nem agora nem nunca.

E eu, tolo, ainda pergunto o porquê. Ainda me desfaço os restos de honra a querer saber. E então, não por quê? Do outro lado só o silêncio. Uma palavra de três letras, foi tudo que me deste. A palavra errada: não. Uma palavra que não preenche a poesia, que não desliza na pele (a não ser como lágrima), uma palavra que não sustenta, que não publica livros, que não realiza sonhos, que não diz. 

Não.

Uma palavra que não diz e que não me deixará, jamais, dizer: te amei muito mais depois desse não do que qualquer vez antes dele.

terça-feira, 22 de outubro de 2013

pRUMO - por Adilma Secundo Alencar.

Um voo de um mosquito, um fazer e desfazer de nuvem, um cílio caído, tudo quer pausa.
Pausadamente. Pega minha mão e vamos enfrentar o nojo diário que nos aflige. Deixa para trás seus medos, seus lençóis sujos de rosas, o seu inferno, esse altar incendiário, essa promessa emanando alfazema.
Pausa. Pousa seu rosto e esse exército de expressões de dor no meu colo nu e rompe esse pranto lamacento em que a angústia mora. Joga fora esse erotismo vagabundo comprado numa loja virtual. Deixa que eu lave seu rosto, tire seus anéis, desfaça suas amarras, amarre seu cadarço, seu vestido. Apague do seu olhar esse relâmpago de desejo, não há guerra.
Deita na cama que espera seu sono. Assuma o prumo, estanque esse sangue.
Caules verde oliva, cones laranjas, peças de um quebra cabeça, peças de suas vestes no chão.
Seu olhar é metonímia, é manto e me põe em pele.

Esse formigueiro urbano, essas segundas de chão de zinco, ressoam memórias de marujo. É a pausa, entre uma nota e outra vibra o intervalo das letras, das cirandas, eu quero sentir as pausas, as dissonâncias.

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

oS PLATÔNICOS - por Vinícius Linné

Os dias foram passando, o beijo que deixei delicado no teu pescoço foi se apagando. O calor do meu corpo foi esfriando no teu. Esvaneceu-se meu cheiro de madeira e âmbar, esvaziou o sentido, o não dito, o não permitido entre nós.

De repente, à distância, meus olhos ficaram opacos pros teus. Meu brilho foi ficando cada dia mais fosco. Minha voz mais distante. Meus sonhos cada vez mais parecidos com utopias pintadas.

De repente, então, tu decides que não valia a pena mesmo. Que tu não merecias alguém como eu. Melhor: que nós não nos merecíamos. A dor seria demais. O trabalho seria dobrado. O sacrifício seria imenso.

Então deixa. Deixa assim. Segues tu. Sigo eu. Distantes. Sem nunca sabermos do sabor um do outro. Seguimos apartados, com as lembranças do que não foi. Do que poderiam ter sido nossas vidas. 

Se tu assim decidiste, eu acato. Eu acolho tua escolha. Eu recolho meus restos. Eu espano o espaço, dissipo as lembranças, esfrego minha pele até saírem dela as lascas da tua. Eu esvazio meu peito, mesmo sabendo que tu ficarás nele, feito sujeira, impregnada.

E no fundo é só isso. Só. Eu não te queria no canto dos não esquecimentos. Eu não te queria na minha estante de arrependimentos. Eu estava disposto a tirar o coração e te dar, para que ele fosse coisa tua. Assim eu teria paz, de alma toda em ti, toda tua.

E então tu me disseste que não o queria. Que eu fique com meu coração gasto. O coração que eu preparei todo tempo pra te entregar, que eu cultivei e enfeitei só para que um dia fossemos teus. E agora, Deus, que faço desse meu coração sem dono? Que faço do vazio da tua ida sem mim. Da dor de não ter tido uma chance de sequer ser infeliz contigo. O que faço?

Nada. Não faço nada. 

Os melhores amores são mesmo os platônicos.