segunda-feira, 18 de novembro de 2013

aS ARCAS DE LAMÚRIAS - por Vinícius Linné

Somos tolos e sentimentais, temos arcas cheias de ouvir lamúrias. Nossas próprias lamúrias. Apesar disso, você se julga melhor. Você se julga feliz. Não me engana. Eu conheço o fundo e o topo dos seus baús. Eu conheço suas queixas e os traços negros que lhe desenham.

A diferença é que eu exploro minhas entranhas sentimentais. Eu as espalho no asfalto e vou chamando gente para ver. Eu as torço e pinto flores feias com o que delas escorre. É o que se tem para pintar. Eu deixo minhas arcas abertas, arejo os panos, penduro nas janelas, exponho e não me envergonho disso. Elas são minhas, as lamúrias. Elas são eu.

Você não. Você as tranca e esconde no porão, como se não fedessem por trás do seu sorriso falso. Você varre os corpos da casa, encerra as tristezas nos armários para que elas não apareçam nas suas fotos. 

Nas suas fotos, nas suas frases, nas suas poesias todas ruins, você é solar. Você reluz, você irradia. Enquanto isso, por dentro, você é lua nova. Você é céu escuro, você é solidão sempre e o pesar de se ser. Mas isso ninguém vê.

Você acha que há delicadeza em esconder as arcas. Não há. Há falsidade. A mesma falsidade brava que você condena em cada um que passa. Eu não escondo. Não escondo porque é o que há para se ver de mim. É o que tenho para dar. É o que entrego a quem passa. Minhas lamúrias podem soar vergonhosas para você. Desculpe. Mas elas soam como canção para quem também as possui e não tem vergonha de confessar: "Hoje eu sou infeliz. Hoje. Você pode ser infeliz comigo? Assim, pelo menos, nossa solidão será menor. Só assim."

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

sOCIEDADE SÍSMICA – por Simone Huck

Otávio rasgou mais uma foto e não conseguiu assassinar da sua memória o rosto de Margarida.
Claúdia deletou outro arquivo mas não limpou a lixeira.
João furou o preservativo no dia em que Angélica estava ovulando.
Maria abortou outro filho e não chorou.
Bárbara teve febre a noite toda.
Paulo engoliu outra neosaldina.
Francisco vomitou quatro pregos e não conseguiu morrer.
Isabela pendurou o quadro na memória e esqueceu.

Kátia chorou e ninguém percebeu.
Marcos mentiu e todos acreditaram.
Simone desistiu e não fez diferença.
Cristiano gritou mas ninguém ouviu.

Placas tectônicas descansam sobre o magma do planeta Terra.
Não há previsão de terremotos, ondas gigantes ou ciclones para esta noite.
Jair está em rotação e ainda duvida de tudo que ouve.
Débora está em translação e ainda acredita em tudo que vê.

Você - que lê esse texto - tem um relógio no pulso, na parede ou no estômago. 
Ele avança. 
Ponteiros e segundos caminham para o funeral de todos os homens. 
Não conseguiremos fugir.
O mundo é uma convicção apostólica. 
Jamais duvide.

terça-feira, 12 de novembro de 2013

lARANJA - por Adilma Secundo Alencar.

Ela mudou de cidade e fez um pacto de amor com seu próprio corpo, com sua luz. Vivera muito tempo querendo tudo que era oferecido, a casa, o emprego, a vida par. Mas uma inundação de beleza invadiu seu gosto. Agora ela assumia sua própria loucura, é caro viver assim. A vida dela segue devagar e simples. Não sabe cuidar da casa. Passa horas olhando o céu, o asfalto quente, as mulheres pintadas, os homens barbudos, as cores frias do inverno. Dedica seu silêncio e seu afeto ao primeiro sorriso amigo que lhe oferece colo, cama, calma. Ela também dói. Antes não sabia dar esse afeto largo que seus olhos pingam, antes temia a ilusão, hoje só acredita nela, é tudo ilusão. Escolheu a mais cara e mais colorida, a quase loucura de tardes alaranjadas embaixo das árvores sadias e sós. Sangrou pelos olhos com um amor que lhe imprimiu a eternidade nos dentes, no suor, na comida,no filho que não teve, vive assim prenhe de perfume e delicadeza. Ela procura é repouso para esse tanto de amor, e encontra nos bons dias de olhos calmos e grandes. Nas noites que além do corpo está à luz, regada a desejo e fome. É de água e sol, porque não condiciona o gosto, não evita a dúvida de querer bem.
Ela não tem par, não tem páramo. Desfila dúvida e um milhão de feixes solares, a tristeza não dura, porque ela sabe cozinhar massas, sabe fazer doces, sabe se sentar à mesa sem nódoas no peito, sabe comer como um bicho sabe comer, com prazer e com fome.
Cambaleia na multidão, vê o lirismo como a religião do seu corpo, os cartões, as cartas, os laços de gente. As crianças invadindo a grama, as crianças despindo Deus. É milagre e abismo essa beleza que ela enxerga. É quase cessar os ponteiros dos homens e se render às açucenas, aos girassóis.

Ela sabe dançar. E não tem tristeza que não derreta numa manhã como a de hoje, alaranjada.

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

iNOMINÁVEL - por Vinícius Linné

Dos livros que você lê, eu sou as palavras que não têm. Eu sou o que está por trás dos pontos, dos parágrafos, dos conceitos e dos homens muito velhos, de barbas longas. Eu sou as palavras que você evita, as que estão repetidas e repetidas, sempre e sempre, nos romances cor de rosa, lá, nas bancas de jornais.

Eu sou as palavras de que escorrem mel nos poemas ruins. Eu, que fico fora dos jornais, dos receituários, dos diagnósticos, dos males e das curas. Eu, que fico de fora das cifras e dos horóscopos, das teorias e dos emails, das imagens e dos textos sacros. Eu, que não sou escrito em braile, nem pronunciado dentro dos bares. Eu, que não exorcizo nem conjuro, não excito nem relaxo, não dou consolo nem doo demais. 

Eu, e só eu, saberia te dizer do jeito certo o que você precisa ouvir. Eu, e só eu, saberia acariciar teus olhos se você me lesse. Mas você não lê. Não lê porque pressente em mim uma armadilha. Não lê e me evita na concretude de seus livros velhos, nos estudos e nos artigos, nas resenhas e nas senhas que, eu sei, ainda têm meu nome.

E será sempre assim: enquanto você não disser minhas palavras, elas não existirão. Enquanto você evitar o abstrato da minha pele e a concretude do que sente, estará salva.

Mas salva de quê?

Da vida? Meu Deus, da vida?

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

rECEITUÁRIO - por Simone Huck

"Paz e Amor",  Beatriz Milhazes


DE USO TÓPICO, ORAL, SUBCUTÂNEO, INTRAMUSCULAR ETC.
1) Regue suas cores. Lustre suas flores. Seque a ponta da sua língua. Penteie a dúvida para fora da sua cabeça. Corte as unhas da tristeza. Embrulhe a depressão em um pedaço de jornal e mire na primeira lata de lixo espalhada pelos postes da sua cidade inquieta. Acerte o passo. Ria no descompasso. Observe os espinhos. Não tenha medo do que sangra. Há uma sabedoria na dor. Aprenda.

2) Coloque na sacola os dias cinzas e leve sua nostalgia para passear. Compre bons livros e faça amizade com cada palavra cúmplice. Alimente-se de vírgulas sensatas. Engula pontuações sem equívocos. Devore o livro todo e deixe nascer dentro de você uma nova história. Uma outra possibilidade. Descubra caminhos novos em estradas antigas. Não tenha pressa. Observe.

3) Ajude um idoso atravessar a rua. Ensine uma criança escrever a palavra paz. Cuide dos seus pais até o último dia da sua vida. Dance no metrô. Dance no banheiro. Dance em cima dos seus obscuros medos. Abra a janela e dê bom dia para a planta que nasceu no meio do muro, entre as pedras. Aprenda com o bueiro o que deve ser sobra, lixo e resto. Aprenda com o asfalto o valor da caminhada. Abrace o céu da sua vida. Ande de mãos dadas com seu melhor amigo. Apaixone-se por você todos os dias. Sorria.

4) Ame mais. Ame cada dia mais: sua vida, o cadarço dos seus sapatos, o pijama velho, sua calça jeans rasgada, a camiseta branca amarelada. Transe todos os dias com você mesmo sem preservativos. Odeie cada dia mais a falta de paz, a confusão, os gritos, a falta de educação e o egoísmo. Ajude a carregar os tijolos para a construção de um novo planeta, uma nova era, uma galáxia inteira. Trabalhe.

5) Abrace ao entrar e ao sair. Distancie-se de tudo o que não acolhe e afasta. Seja inteiro. Seja íntegro. Seja justo. Seja fiel a você mesmo durante o dia, a tarde e a noite toda. No outro dia, também. Reconstrua-se sempre que quebrar. Permaneça em pé e deite para reconectar-se. Beije uma estrela e faça-se demasiadamente feliz. Confie.

terça-feira, 5 de novembro de 2013

mANGA -por Adilma Secundo Alencar.

Manga.
No último domingo de calor e luz, as suas lembranças iluminaram as paredes do meu quarto. Eu a vi dentro de um raio de sol que me esquentou os seios e meu sorriso se abriu em intenções ternas e cálidas, porque é de minha natureza o visgo, o vinho. Eu tomei suas mãos como estrada, e essa constante ressaca do seu gosto de manga agora é saliva e saudade.
A consulta, a salada, a lotação, o boleto, a luz e a água, tudo na gaveta, para depois, como tem que ser. O mundo cede à poesia, meu alumbramento passeia pelos ombros pesados dos homens de vida reta, nas lágrimas absurdas das mulheres tristes.
Meu susto é um beijo molhado nos sorrisos que seguram a vida rente à carne.
A raiva não rima com nada, a raiva não sabe dançar. A raiva dá tiro, dá úlcera. A raiva é o monstro mais feio, mais feio que o abandono.
Hoje, eu só adoeço é desse amor vagabundo que o meu corpo quer. Se querer bem assim trouxesse de volta o buquê de flores verdes que me levaram.Mas não,o mar não pode ser minha metáfora.
Foi de espinho e chumbo meu primeiro alumbramento, e agora tudo é pétala e pele. Para a morena que é de água afloro em sorrisos verdes de meninice desmedida. Ao homem triste e fechado dou é verbo de lã e fogo. O inferno salta aos olhos, e eu já sei preferir a saúde de ser doida. Eu jogo flores sobre as armas e sepulto meus mortos com comida e bebida, de comer e de beber e esquecer o nome.
Eu quero esse susto eterno de desatinar em alecrim e chuva, sol e margaridas brancas.

É de viver o meu sorriso, é de viver.

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

vAZIO - por Vinícius Linné


Coração vazio não pulsa. Bate. Bate no peito, dá socos, pontapés, machuca pela agudeza da sua própria solidão.

Coração vazio não pulsa. Não distribui o sangue, não te deixa vivo por dentro, não te faz querer escrever, pensar, cantar, viver.

Coração vazio não pulsa. Faz eco. Eco das nossas próprias sensações vazias, da nossa falta de sentido (e falta de sentir), da nossa impossibilidade de compreender o para quê da vida.

Se não vim antes aqui foi por falta de ter alguma coisa dentro do coração. Ainda não tenho, mas voltei porque é primavera e qualquer coisa no ar nos explica. Qualquer coisa nos justifica. Voltei porque compreendi que o coração se tem sempre vazio, não importa quem esteja do nosso lado, não importa quem povoe nossos pensamentos, não importa por quem nós fechemos os olhos. Ele continua sempre vazio.

Continua porque ele só poderia se preencher de si mesmo. E ninguém é tão tolo assim. Por isso eu vim. Vim para dizer que ainda há um talvez em mim. Ainda há uma possibilidade, mesmo vazia. Não de ser feliz, não de ser completo, não de ser alguém, não de ser teu. Isso seria tão tolo quanto querer ocupar um coração que, por essência, morrerá vazio.

Vim porque há uma possibilidade de me deitar na tua cama. Uma possibilidade de tirar minha roupa e desfazer meu corpo no teu. Vim agora porque percebi que não há mais do que isso. Não há futuro, não há final feliz, não há sim no altar. Há isso e despedidas. Há isso e reencontros. Há isso e motivos para voltar. Há isso e aquele primeiro abraço, o primeiro contato, a primeira fagulha a queimar tua pele onde meu beijo a marcou.

É por mim que tu ainda fechas os olhos. É por ti que eu ainda fico acordado à noite.

E, mesmo assim, são de vazios imensos nossos corações. E para sempre serão. Por isso eu vim. Porque perdi o medo de perder aquilo que não se tem.