Terça de carnaval e tempestade de verão. Uma boneca molhada pendurada no varal lembra uma infância distante. A jovem, de 23 anos e nenhum amor, é feliz e anuncia nas calcinhas e nas saias de renda sua disposição para a alegria.
Um anel enfeitando sua mão esquerda exibe mais vaidade que vínculo.Discursos em luta corporal com as leis do mundo cintilam guerra nos seus olhos pequenos.Fez renda,, fez festa no corpo de meninos nus, fez rasgos no coração de sua mãe.
Ela fugiu para uma cidade estranha, com gente estranha. Hoje nessa terça de carnaval, essa boneca velha ,observada de longe, é parte de uma passado morto.
terça-feira, 4 de março de 2014
segunda-feira, 3 de março de 2014
cONJUGAÇÃO DO VERBO iR - por Vinícius Linné
É carnaval e eu fiz tantas curvas que nenhum samba me achou.
Fui para onde o vento pinta tudo de poeira vermelha, transformando pessoas em anjos barrocos.
Fui para onde as borboletas são ninfas azuis que seduzem, provocam e se escondem na hora dos retratos. Borboletas que acreditam no que ainda lhes disseram os índios: capturar suas imagens seria capturar suas almas.
Fui para onde as Iaras pedem licença à Iansã e penteiam os cabelos nas quedas d’água das pedreiras.
Fui para onde existem onças nos olhos dos gatos. E gatos com olhos de mato.
Fui para onde a mata faz fumaça e canta coisas de arrepiar.
Fui para onde as caiporas caçam e os cães ninam os filhotes alheios.
Fui para onde os facões crescem em árvore e avisam no caminho que há guerra para quem vier.
Sim, fui para onde as pessoas se matam e abandonam casas ao fugir.
Fui para onde o chão é mais duro e puxa mais forte quem dele se aproximar.
Fui para onde as pessoas se acostumam (ou não) com a prisão.
Fui para onde as Igrejas rezam sozinhas, com vozes de quem já morreu e repetem os encantos que as cercam sem cessar.
Fui para onde o rio é mistério e aparta línguas, costumes, cores e olhares.
Fui para onde brotam lodos e peixes dentro das máquinas de fotografar.
Fui para onde a tentação de encher os bolsos de pedras é grande, lá Virgínia jamais poderia estar.
Fui para as quedas que me acompanharam ao voltar. O barulho daqui é agora o mesmo de lá. A chuva é água do peral e da queda daquele que tudo engole.
É carnaval e eu fui para dentro de mim.
terça-feira, 25 de fevereiro de 2014
pORQUE- por Adilma Secundo Alencar.
Porque Madalena se dizia só, mesmo na confusão dos bares,nas orações de domingo e o no peito aberto cheio de raízes molhadas, mesmo depois de um amor luzente que por dias levou seus olhos sobre um pires.
Porque Madalena acredita no amor,mesmo depois da travessia do abandono frio numa manhã fria de junho, mesmo depois de perder a vontade de parir,mesmo depois de rasgar as passagens e adormecer os sentidos.
Porque Madalena sabe fazer carnaval, mesmo nua daqueles confetes fluorescentes, mesmo depois do calvário e da vontade do passo para trás,mesmo depois do luto nas unhas e da solidão da carne.
Porque Madalena é assonante em a, e provoca pulmões cheios de desejo carmim, mesmo depois do afogamento no sal, mesmo e apesar dos nãos e das pedras atiradas a sua porta.
Porque Madalena é palavra, mesmo depois dos compêndios secos de tantos homens e do açoite de palavras acostumadas, mesmo depois do soluço de uma noite sem lua.
Porque Madalena é mato, mesmo e apesar das sepulturas dentro do peito, das paredes mofadas e da nódoa nas mãos.
Porque Madalena é rasgo,é fresta, é cicatriz, é sina, é sangria e semente.
segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014
pRESUMIR - por Vinícius Linné
Quantas coisas você presumiu quando eu sumi?
Você presumiu que eu não voltaria, então apagou as fotos, os traços, os riscos de giz e as manchas dos meus pés nas paredes azuis. Você limpou os armários, arejou o quarto e despejou na pia o resto do perfume meu. Você queimou os papeis, doou os livros e deu meu canário para o cachorro comer.
Você colocou o vestido bonito e saiu e dançou e cantou e voltou para casa já com outro não-eu. Você deitou com ele na cama que era nossa, colocou meu último CD de fossa e disse meu nome baixinho bem na hora H. Depois me dormiu e esqueceu.
Você presumiu que eu arranjei outro alguém, lhe fiz três filhos e comprei um novo canário, dessa vez belga. Tudo em meia hora só. E por isso vingou-se até me rasgar os vestidos e me arrancaria das orelhas os brincos, seu eu não tivesse lhe segurado de vez.
Mas, meu amor, eu só fui ali comprar cigarros!
Não me enganes que tu não fumas.
Eu sei. Eram pra ti.
terça-feira, 18 de fevereiro de 2014
a FORÇA DOCE DE AÇUCENA - por Adilma Secundo Alencar.
Eu não sei dizer direito. E
se eu fizesse de nossa natureza verbo, o que eu diria desse meu olhar tonto de
desejo? Qual seria o nome dessa sua
violência açucarada de canela e cereja?
Essa explosão em força.
Essa explosão em força.
Você tomou com a força de
seus olhos e a ousadia de sua boca todos os meus advérbios de intensidade. E de
tanto e tanto desejar sua língua, esse verão de 40 graus fez açude nos nossos
lençóis amassados.
Olhando sua pele sob a luz
da lua, fez sentido desde a pedra à escritura em ofício o registro de seus encantos de mulher. No visgo do desejo, na sagração da carne em oferenda ao mar
entre suas pernas, se deleita no arrebentar das ondas, enquanto cai por terra o
pudor imoral de quem desconhece rios e raios desse fevereiro agudo.
Rosas e letras, riscos e
rasgos. De sangue e de letras surgem cicatrizes e flores, e quando você me dá sua
mão, eu seguro meus verbos mais bonitos. Os meus signos nus descansando nos seus
braços são seus. São suas também minhas horas de dengo, minhas receitas de
bolo, e as músicas do Marcelo Camelo.
Eu queria tecer uma colcha
de retalhos com suas cores, fazer uma colagem com seus cabelos curtos, seu
batom rosa cintilante, seu vestido azul, seus cílios descansando no meu
travesseiro, sua mão pequena tomando minha nuca, suas cerejas, seu joguinho de
jujubas no celular (que certamente tem outro nome), seu playlist, bolo de limão, caipirinha de maracujá, Clarice, sol de
três da tarde, cio, rede, grama, sessão das seis, salto, rímel, peitos queixo, passos,
pele, pranto, letras, o livro das flores, as músicas do Caetano, a doçura de
Caeiro.
Mas eu não sei tecer essa literatura
de plasma, de folhas, de algas que tanto você gosta, eu só sei olhar, com um
jeito besta e meu, eu só sei o susto de ver você arrebentando tudo como o mar em
dia de ressaca.
segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014
sENHORA CABELEIREIRA - por Vinícius Linné
Clarissa não brincava de médico. Não queria ter ciência do corpo alheio e tampouco que conhecessem o seu lhe interessava. Mesmo assim, criou uma brincadeira de se aproveitar: “Senhora Cabeleireira”. Como se pressupõe, não eram os corpos o interessante, mas as cabeças, ou, antes ainda, os cabelos; tudo bem, confessemos, o que realmente interessava à Clarissa eram as carícias.
Havia um menino na rua de baixo (qual era o nome do menino?) que brincava com ela e procedia bem assim: batia na parede para fazer de conta que era na porta, depois dizia: “Senhora Cabeleireira, vim cortar os cabelos! Quero o mesmo de sempre!”. Ditas essas frases, ele se sentava no degrau mais baixo da escada e, de costas para Clarissa, deixava que ela o penteasse demoradamente.
Não havia corte, havia Clarissa de olhos fechados, deixando os dedos brancos percorrerem os cabelos do menino (quase consigo lhe dizer o nome, mas ainda não). Havia a sensação quente que aos poucos amortecia e disparatava a menina. Clarissa já adivinhava que algum dia dedos como os seus se embrenhariam naqueles cabelos escuros, grossos como pelos de cachorro, e ali se contorceriam de prazer.
Às vezes, sozinha, Clarissa lembrava da sensação e sua mão dançava no ar, como se repassasse contornos, redemoinhos e o arrepio causado por um toque desavisado na nuca do menino (cujo nome ainda não digo / não lembro). A nuca quente, às vezes suada de verão, às vezes picada de insetos, às vezes pedindo um beijo que só mais tarde viria, eriçava-se toda. E Clarissa terminava com o brinquedo então, ofegante.
Um dia o menino (e talvez seu nome fosse mesmo “menino”) cansou de ser o cliente. Queria ser ele o Senhor Cabeleireiro. Melhor se fosse, ainda, com outro menino. Assim podia fazer-lhe a barba também, como Seu Diógenes lhe fazia com o pai. Mas contentou-se com Clarissa. Alheio aos intentos da menina com aquela brincadeira.
Quando ela disse as palavras, elas saíram tremidas. Era demais a sensação oposta, entregar-se, ser ela a selva branca de inverno na qual os dedos do menino se perderiam por descaminhos e desvios, cabeça, nuca, costas, demoradamente. Sim, ela esperava que fosse demoradamente.
Ele, obviamente, não tinha tanto tato. Puxava forte e fazia dores. Seria sempre assim com os meninos, Clarissa tinha dessas intuições. De todo modo, continuava muda, de olhos fechadíssimos, enquanto era tocada. Acariciada. Quase lambida pelos dedos dele.
Muito tempo passou sem que Clarissa abrisse os olhos ou o menino (sem nome?) dissesse palavra. Ele estava concentrado em fazer nela uma trança. Uma trança longa e dourada. Linda. Desde a testa até além da altura da nuca.
Ah, Clarissa... Ela deveria ter adivinhado quando o silêncio foi cortado por um estalo rápido. O menino (e nunca mais saberei seu nome) lhe cortou a trança rente ao couro. A trança longa e dourada e linda repousava feito um rabo de bicho morto nas mãos dele. E ele ria, ria enchendo a rua e a tarde de som. Clarissa abriu os olhos incrédulos e não sabia o que sentir. Primeiro viu aquele rabo, aquela corda, aquela trança de sisal e pensou ser só piada. Ele a devia ter trazido escondido. Brincava com ela, aquele menino, um maroto.
Depois correu afoita para dentro e nem teve tempo de chegar ao espelho. Apanhou na cozinha. “O-que-vo-cê-fez-com-es-se-ca-be-lo,-Cla-ris-sa!” Soletrou a mãe às palmadelas. E então tornou-se verdade. Verdade. E nenhum tapa doeu mais do que ele ter feito aquilo de verdade. Ela se entregara e agora tinha um buraco entre os cabelos. Um buraco que levaria meses e vergonhas para ser tapado, bem na frente, como insígnia, como marca de vergonha.
Clarissa nunca mais brincou com aquele menino. Sequer o olhava quando se cruzavam na rua. Mesmo depois de crescidos os dois.
O menino nunca mais se desfez. Nem daquela trança, nem daquela tarde de verão, nem do que sentia por Clarissa.
terça-feira, 11 de fevereiro de 2014
nÃO SAIR - por Adilma Secundo Alencar.
Ana resolveu não sair.
Um luto sem cor cobria seu corpo e seus olhos vivos já não diziam.Depois da tempestade daquela semana,perdeu o coração numa correnteza,numa correnteza urbana, dessas que jogam os móveis nas praças, e quanta exposição.Suas roupas íntimas boiando,seus anéis, um estômago exposto.
Ana chorava, seu colo inundado de flores brancas emanava um doce melado, cheiro visguento de amor agonizando.
Ana é ainda mais bonita do que seu corpo diz, ela faz amor como quem dança.
Mas Ana resolveu não sair.
Não viu passar os olhos desejosos de tantos homens,nem sorriu quando um vermelho morno tomou o horizonte e aqueceu sua cisma.Ela fechou a porta de sua casa,se sentou, se deixou na agonia de não enxergar, suas mãos pequenas já não queriam abraçar vontade nenhuma.
Uma mulher em correntezas,só, entre talheres sujos,roupas usadas e um abandono de criança.Soluços, as xícaras, o rosto vermelho escorrendo rímel,as havaianas azuis alfinetando sua saudade, e um anel decepando seu dedo,amputando seus abraços, anulando sua primavera,seu verão que é tempo de escândalo foi anulado por pedras no canto dos olhos.
Talvez Ana volte a escandalizar um coração,talvez Ana escreva uma carta de amor, quem sabe talvez nasça uma flor rebelde no seu peito,mas por hora,Ana resolveu não sair.
Ana resolveu não sair.
Um luto sem cor cobria seu corpo e seus olhos vivos já não diziam.Depois da tempestade daquela semana,perdeu o coração numa correnteza,numa correnteza urbana, dessas que jogam os móveis nas praças, e quanta exposição.Suas roupas íntimas boiando,seus anéis, um estômago exposto.
Ana chorava, seu colo inundado de flores brancas emanava um doce melado, cheiro visguento de amor agonizando.
Ana é ainda mais bonita do que seu corpo diz, ela faz amor como quem dança.
Mas Ana resolveu não sair.
Não viu passar os olhos desejosos de tantos homens,nem sorriu quando um vermelho morno tomou o horizonte e aqueceu sua cisma.Ela fechou a porta de sua casa,se sentou, se deixou na agonia de não enxergar, suas mãos pequenas já não queriam abraçar vontade nenhuma.
Uma mulher em correntezas,só, entre talheres sujos,roupas usadas e um abandono de criança.Soluços, as xícaras, o rosto vermelho escorrendo rímel,as havaianas azuis alfinetando sua saudade, e um anel decepando seu dedo,amputando seus abraços, anulando sua primavera,seu verão que é tempo de escândalo foi anulado por pedras no canto dos olhos.
Talvez Ana volte a escandalizar um coração,talvez Ana escreva uma carta de amor, quem sabe talvez nasça uma flor rebelde no seu peito,mas por hora,Ana resolveu não sair.
Ana resolveu não sair.
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