quinta-feira, 5 de junho de 2014

gEORGE tOOKER, - por Vinícius Linné

Ele lê imagens procurando que alguma delas conte a sua história. Não há. Não há nenhuma com um homem tão só, nenhuma com letras que flutuam e se fixam na pele. Não há uma imagem de luar e sonho que seja, ao mesmo tempo, ocre, vermelha, preta e azul.

Não há imagem com cheiro de pó, mofo, café e perfume. Se houvesse, contaria parte da história dele. Faltaria ainda o cheiro de vinho, sêmen e morangos maduros (ou mofados, se preferirem a parte dele que lê Caio Fernando Abreu).

Não há nenhuma imagem com música constante e calma. Nenhuma imagem com paixão de arrebatar e vazios de traça por entre as tintas. Nenhuma com luz de sol à noite. Nenhuma com as promessas que ele tatuou na pele: The impossible is possible tonight.

Não há quadro, por surrealista que seja, que consiga tocar-lhe de leve a história, as luzes e sombras que ele esconde no olhar, as sutilezas e descaramentos que ele amarra nas coxas, as mensagens codificadas nas mãos e nas linhas dos pés. Não há. Ele não encontra tela que conte, mesmo sussurrando, a história da sua alma. Por isso ele a escreve. Às vezes ele a escreve.

terça-feira, 3 de junho de 2014

fALAVA DE AMOR -por Adilma Secundo Alencar.

Falava de amor mesmo quando estudava seriamente para o artigo da universidade, mesmo quando brigava com o filho para que enchesse as garrafas de água e não colecionasse copos sujos na pia. Falava  de amor quando explicava sobra Antígona, Freud e Clarice. Era de amor que falava quando uma flor azul brotou na sua pele, eu vi. 

Falava de amor quando um filho chutou dentro sua barriga. Falava de amor quando destacava  nas páginas de Simone Beauvoir símbolos de liberdade. Falava de amor quando brotou um girassol diante de seus olhos e uma mulher roubou seu coração.

Falava de amor quando os olhos choravam a violência dos relógios e da loucura de um coração. Falava de amor quando  reconhecia humanamente o outro mesmo diante da quantificação que sua lida imperava.

Falava de amor,
Continua...

quinta-feira, 29 de maio de 2014

dESAMOR - por Vinícius Linné

Ela não te ama mais. E pediu para eu dizer.

Ela não te ama mais, mas agora coloca mel em todos os chás. (Ele tem a exata cor dos teus olhos). Ela não te ama mais, mas deixa a janela aberta quando há tempestade e sempre que é outono. (Ela sorri toda quando uma folha seca entra pela janela. Era outono quando vocês quase se beijaram, não era?)

Ela não te ama mais, mas agora lê sonetos de Shakespeare. (Em cada um ela vê o teu nome). Ela não te ama mais, mas vê sempre os mesmos filmes, especialmente aquele do DVD que ela embrulhou para te entregar e nunca o fez. (Ela guardou até o embrulho: laço, fita e perfume).

Ela não te ama mais, mas bloqueou teu perfil no Facebook. (Só para não ver tua foto e correr o risco – ridículo – de te amar de novo). Ela não te ama mais, mas ainda ouve todo dia as tuas músicas (E chora, às vezes, naquela de que você gostava mais).

Ela não te ama mais. E pediu para eu dizer.
É verdade. Ela não te ama mais, mas amou.
E, sinceramente, foi a única.

terça-feira, 27 de maio de 2014

pALAVRAS MATIZADAS - por Adilma Secundo Alencar.

Ela arrasta meu coração por ladeiras de cidades antigas, oferece às rainhas do mar preces em nosso nome, ela come um mistério por dia. Quantas páginas escritas separando a intimidade de nosso corpo. O tempo é curto para tanto espaço alargado pelas suas mãos. Ela vai fazer enchente de tanto me trazer mar.

A força dos meus pulsos atada à vontade de levá-la para ver o abandono de uma palmeira na areia da praia, ou um sol se escondendo as serras de Jacobina, no sertão. Eu queria fugir e deitar meu sonho no dela,mesmo que seja careta e contrário à marcha do mundo. Meu delírio entre suas pernas significa uma linguagem de calor,um viço de meia noite em plena tarde clara, um dengo amolecendo o encontro dos nossos mistérios por trás da pele, por trás dos cílios,dos seios,das ancas, da língua, por trás do toque que erradia a luz é tudo mistério.

O encontro é perfume e cio espalhados no lençol, nos cabelos, escorrendo suor de flor serenando. Luzes embaixo da pele, faiscando nos olhos, nos dentes. Toda a carne ofertada a nossa fome. Nós colhemos palavras vermelhas, maduras, suadas, matizadas de cores quentes. Passamos, brilhantes, pela guerra ofertando flores.

quinta-feira, 22 de maio de 2014

eSCOLHA - por Vinícius Linné

Há dias em que ele escolhe a desatenção. Sim, ele escolhe. O aleamento, a palidez, a impessoalidade de quem passa pela vida à passeio. Ele escolhe flanar nas ruas, sem dar atenção a qualquer um que diga seu nome. Ele escolhe até não reconhecer o próprio nome, não dito assim, em boca alheia, com outro tom que não o dela.

Há uma espécie de loucura seletiva, então. Uma loucura bem mansa e um pouco tristonha. Loucura de olhos baixos e baços, de não cantarolar na rua, de não cumprimentar os vizinhos, de não responder os emails. Loucura de só existir, de não viver, ver, sentir, ouvir.

Ele escolhe pausas, ele coleciona vazios, ele se deixa seduzir pelo não estar onde se está. E esse, então, passa a ser o seu ideal máximo: não estar. E não ser, obviamente. Não ser chefe, não ser colega, não ser o que sorri ao falar com quem não se gosta ou não se conhece. Ele escolhe internalizar. E, por isso, é chamado de louco. E não é louco qualquer um que abdique da razão do outro em benefício do próprio coração? E não é louco aquele que, podendo escolher, se escolhe?

terça-feira, 20 de maio de 2014

dESAGUOU - por Adilma Secundo Alencar.

Preparou um chá de canela e sentada no sofá cismou sobre os caminhos espinhosos que a levaram até ali, chorou que nem criança sem mãe. O copo de vidro, desses copos de boteco, virou mil pedrinhas transparentes. No instante do soluço e do corte no pé, ela sorriu uma alegria sem amparo e foi iluminada, o arriscado sempre fora seu amigo desde que saiu de seu canto de mundo, vasto e duro.

A dança do mundo obedece a chicotes, a angústia de saber a massa branca de nomes que segura arma tão letal, em salas limpas. Sob marquises enferrujadas, agonizam homens de sua mesma matéria, com pernas e braços apartados do óbvio conforto de ter onde ir e quem abraçar. Ela não quer orquestrar o ódio que já brilha sem nome em tantos meninos, ela queria mesmo, senhores, ela queria mesmo era humanizar, era amansar a violência nas raízes da linguagem.

Ela decidiu tomar um atalho, mesmo com um vidro espetado no peito do pé, porque os seus pés cresceram em terra seca, rachada de sol, uma terra sustentada durante o sempre pela palavra, pela promessa, pela fé nos olhos de Santa Luzia, oferecidos num pires, enfeitando a sala de sua mãe. Ela vai, porque ela é forte, é preciso muita força para se alimentar de nuvem. Deixem que ela vá, deixem.

quinta-feira, 15 de maio de 2014

uM DIA - por Vinícius Linné

Às vezes, Clarissa tinha a impressão de que a vida, a vida de verdade, jamais começaria. Mas isso era antes. Agora, aos vinte e sete, Clarissa tem certeza. A vida, para ela, não começará.

É como se a vida fosse um baile de salão. Uma festa rica, em um salão iluminado de cristais, cujas janelas se abrem frescas para o verão e a noite. Um baile repleto de cetins e tafetás, lencinhos e valsas céleres. Um baile muito antigo e bonito para o qual ela não fora convidada.

Clarissa, no entanto, é feita de sutilezas e, sendo assim, ela descobriu o baile, ela ouviu a música ao longe, ela encontrou caminhos, ela desfez impossibilidades, ela espiou pelas janelas e entrou, enfim, no salão. Em vão. Entrou para descobrir que não pertencia àquele lugar.

A língua em que os outros cantavam não era a sua. Os passos da dança, ninguém lhe ensinara. Nada lhe diziam os panos, os lustres, as janelas e os cantos repletos de amassos do salão. Seria inútil, pois, ficar ali.

Mesmo assim, Clarissa ficou. De teimosa, ou de sutil, ficou a olhar a alegria que jamais lhe pertenceria. Ficou a se fascinar com a vida dos outros, mesmo que inventada. A marejar os olhos com as danças que ela nunca dançaria, a murmurar baixinho a melodia do que os outros cantavam à voz solta e que nunca seria dela. 

Às vezes Clarissa percebia a verdade angustiada: ela era só um atrapalho no baile alheio. Mas logo ela fingia esquecer e voltava a se consolar, imaginando que algum dia a notariam. Que algum dia a convidariam para uma das mesas, ensinariam a língua e a dança e diriam o porquê terem esquecido o convite. 

Nessas horas ela chegava a se imaginar amada. Coitada, ninguém a via. Nessas horas ela escondia sua certeza e tinha a esperança (de novo) de que a vida começaria, um dia.

Um dia...