quinta-feira, 19 de junho de 2014

cARTA DE LILA - por Vinícius Linné

Eu sabia, do primeiro Oi ao último Eu te amo, eu sabia que era mentira. Eu sempre soube que você mentia para mim. A novidade, meu amor, é que é preciso duas pessoas para mentir, uma para fazê-lo e outra para acreditar. Eu não o culpo. Eu quis acreditar.

Eu quis acreditar que era importante para você, que era a única, que era a felicidade encarnada em pele branca e lábios roxos de frio. Eu quis acreditar que seríamos felizes, mesmo sabendo, palavra após palavra que você mentia. Eu sempre soube. Era algo na sua pele, na sua aura, no modo como seu sorriso travava seu rosto, nas micro expressões que eu lia pelos espelhos.

Mas sabe, meu bem, a verdade é que eu menti também. Uma mentira só, pequena. Minha mentira foi fingir que acreditava em você. E foi preciso, meu amor, foi mesmo preciso. Sem essa minha mentirinha você jamais abriria a guarda, jamais entraria em mim. Não você, não com tantos princípios e tantos ideais. Não você com suas paixões e poesias. Por isso eu menti. Se não mentisse, jamais teria conseguido chegar perto o suficiente para assassiná-lo, como o fiz.

Perdoe-me, então, amor. Pela mentira.

Sempre sua,
Lila.

quinta-feira, 12 de junho de 2014

oLHOS FECHADOS - por Vinícius Linné

É de olhos fechados que escuto todas as músicas que eu teria feito para você. Pálpebras pesadas, escuridões oculares, outros modos de ver, dessa vez por dentro. É por dentro de mim que você acontece. Suas palavras, seu cheiro, seu toque, seu calor, seu gosto. Tudo é por dentro de mim e só posso vê-la de olhos fechados. Bem fechados.

terça-feira, 10 de junho de 2014

à NAMORADA - por Adilma Secundo Alencar.

À namorada.
Às mãos dadas, luz.

Pela força nesses olhos pequenos, por esse riso com cara de besta e esse jeito bruto de ser doce e chorona, pelo seu entendimento de minha fala, às vezes, incompleta, porque eu não sei terminar alguns pensamentos. Pela vontade de viajar por aí, viajar por um livro, por permitir nossa luz no mesmo espaço, por dividir seus sorrisos que me trazem pedaços de nuvem, por me acompanhar nos cantos bonitos dessa tua cidade minha, por me deixar te ver ver o mar ao seu lado. 

Pelo beijo com gosto de café e manhã, pela comida com gosto de sol num parque qualquer, pela letra na minha pele, por todos os cantos que me trazem coisas suas: tom carmim, gosto doce, luz azul, paroxítonas, doce de leite, estilo retrô anos 30, chapéus, motocicletas, algodão doce, vestidos de bolinha e filmes de amor. Pela vinda tarde da noite, pela minha espera doce, doce como eu não sabia ser, por rir do meu medo da loucura e me mostrar que a chuva de pedrinhas não faz medo nenhum, traz natureza branca para meu cacto junto daquelas flores resistentes no quintal de casa.


Por me trazer essa pressa pelo teu cheiro, essa urgência de quem não pode esperar mais de um dia por teu abraço, pelas coisas bestas e tão nossas, pelo seu consentimento de me entender na irresponsabilidade da lida, pelo teu corpo tão encontrado no meu , pelas urgências pares de dar conta de uma poesia impetuosa que rompe a tarde de domingo e é explosão de rio desaguando, de enchente rebentando cerca.
Pela voz, à noite, querendo dengo, querendo que o final de semana não tarde.

Pela coisas não ditas e abraçadas no nosso corpo morno e cansado. Obrigada, Flor.

quinta-feira, 5 de junho de 2014

gEORGE tOOKER, - por Vinícius Linné

Ele lê imagens procurando que alguma delas conte a sua história. Não há. Não há nenhuma com um homem tão só, nenhuma com letras que flutuam e se fixam na pele. Não há uma imagem de luar e sonho que seja, ao mesmo tempo, ocre, vermelha, preta e azul.

Não há imagem com cheiro de pó, mofo, café e perfume. Se houvesse, contaria parte da história dele. Faltaria ainda o cheiro de vinho, sêmen e morangos maduros (ou mofados, se preferirem a parte dele que lê Caio Fernando Abreu).

Não há nenhuma imagem com música constante e calma. Nenhuma imagem com paixão de arrebatar e vazios de traça por entre as tintas. Nenhuma com luz de sol à noite. Nenhuma com as promessas que ele tatuou na pele: The impossible is possible tonight.

Não há quadro, por surrealista que seja, que consiga tocar-lhe de leve a história, as luzes e sombras que ele esconde no olhar, as sutilezas e descaramentos que ele amarra nas coxas, as mensagens codificadas nas mãos e nas linhas dos pés. Não há. Ele não encontra tela que conte, mesmo sussurrando, a história da sua alma. Por isso ele a escreve. Às vezes ele a escreve.

terça-feira, 3 de junho de 2014

fALAVA DE AMOR -por Adilma Secundo Alencar.

Falava de amor mesmo quando estudava seriamente para o artigo da universidade, mesmo quando brigava com o filho para que enchesse as garrafas de água e não colecionasse copos sujos na pia. Falava  de amor quando explicava sobra Antígona, Freud e Clarice. Era de amor que falava quando uma flor azul brotou na sua pele, eu vi. 

Falava de amor quando um filho chutou dentro sua barriga. Falava de amor quando destacava  nas páginas de Simone Beauvoir símbolos de liberdade. Falava de amor quando brotou um girassol diante de seus olhos e uma mulher roubou seu coração.

Falava de amor quando os olhos choravam a violência dos relógios e da loucura de um coração. Falava de amor quando  reconhecia humanamente o outro mesmo diante da quantificação que sua lida imperava.

Falava de amor,
Continua...

quinta-feira, 29 de maio de 2014

dESAMOR - por Vinícius Linné

Ela não te ama mais. E pediu para eu dizer.

Ela não te ama mais, mas agora coloca mel em todos os chás. (Ele tem a exata cor dos teus olhos). Ela não te ama mais, mas deixa a janela aberta quando há tempestade e sempre que é outono. (Ela sorri toda quando uma folha seca entra pela janela. Era outono quando vocês quase se beijaram, não era?)

Ela não te ama mais, mas agora lê sonetos de Shakespeare. (Em cada um ela vê o teu nome). Ela não te ama mais, mas vê sempre os mesmos filmes, especialmente aquele do DVD que ela embrulhou para te entregar e nunca o fez. (Ela guardou até o embrulho: laço, fita e perfume).

Ela não te ama mais, mas bloqueou teu perfil no Facebook. (Só para não ver tua foto e correr o risco – ridículo – de te amar de novo). Ela não te ama mais, mas ainda ouve todo dia as tuas músicas (E chora, às vezes, naquela de que você gostava mais).

Ela não te ama mais. E pediu para eu dizer.
É verdade. Ela não te ama mais, mas amou.
E, sinceramente, foi a única.

terça-feira, 27 de maio de 2014

pALAVRAS MATIZADAS - por Adilma Secundo Alencar.

Ela arrasta meu coração por ladeiras de cidades antigas, oferece às rainhas do mar preces em nosso nome, ela come um mistério por dia. Quantas páginas escritas separando a intimidade de nosso corpo. O tempo é curto para tanto espaço alargado pelas suas mãos. Ela vai fazer enchente de tanto me trazer mar.

A força dos meus pulsos atada à vontade de levá-la para ver o abandono de uma palmeira na areia da praia, ou um sol se escondendo as serras de Jacobina, no sertão. Eu queria fugir e deitar meu sonho no dela,mesmo que seja careta e contrário à marcha do mundo. Meu delírio entre suas pernas significa uma linguagem de calor,um viço de meia noite em plena tarde clara, um dengo amolecendo o encontro dos nossos mistérios por trás da pele, por trás dos cílios,dos seios,das ancas, da língua, por trás do toque que erradia a luz é tudo mistério.

O encontro é perfume e cio espalhados no lençol, nos cabelos, escorrendo suor de flor serenando. Luzes embaixo da pele, faiscando nos olhos, nos dentes. Toda a carne ofertada a nossa fome. Nós colhemos palavras vermelhas, maduras, suadas, matizadas de cores quentes. Passamos, brilhantes, pela guerra ofertando flores.