segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

PASSAgem - Por Vinícius Linné


No bilhete do trem está clara a data da partida: 31 de dezembro de 2012, 23h59min.

A data de chegada também: 01 de janeiro de 2013, 0h00min. Uma viagem de 60 segundos só. Colocar o pé para dentro do trem e sair. Que importância isso pode ter? Toda. Toda porque de onde se parte é para onde não se pode voltar. Quando todos estiverem no trem, tudo que ficou para trás deixa de existir. Por isso é fundamental estar preparado. Por isso o cuidado agora, na hora de fazer essas malas. Só o que você decidir levar para o trem será salvo de alguma forma.

O que fazer das pessoas que lhe fizeram mal? Deixe-as. Deixe-as assim como estão, azedas e mofadas, mas não se esqueça de anotar seus nomes e levá-los. É bom não esquecer. Os amores imaginários? Deixe-os também. É preciso lugar na mala para o que se encontra no caminho.

Os desgostos todos? Livre-se deles sem dó. São pesados, ocupam espaço e não servem para muita coisa. Os aprendizados, porém, leve-os todos, mesmo se nada mais couber na mala. Eles são o que de fundamental você precisa ter.

Das pessoas que conheceu, leve as mais importantes. Aquela meia dúzia essencial para os dias de frio ou de calor. As esperanças, coloque-as na frasqueira. Que fiquem à mão e sirvam para deixar a vida bonita, mesmo naqueles dias em que tudo acorda fora do lugar. Cuidado, porém, para não confundir esperanças com ilusões. As ilusões você deve descartar, embrulhadas em jornal para que não machuquem mais ninguém.

Os sorrisos você leva. As lágrimas também. Nenhum sentir pode mesmo ser descartado. Leve os abraços enrolados. Assim se ajeitam melhor. Na procrastinação bote fogo, por favor. Ela tem a estranha mania de entrar na bagagem, mesmo quando não é colocada. As músicas que conheceu leve à mão. Você vai precisar delas. Dos livros todos que leu, leve os mais importantes, deixe bastante espaço para os que ainda vai ler. PS: os que tiverem dedicatória, nem pense, leve. Eles fazem parte do delicado da vida. 

As conquistas precisam ir todas também, para lembrá-lo de que é possível sim conquistar. Já as coisas não resolvidas, ou estranhas, ou embaraçosas, faça de conta que esqueceu sobre a mesa. As fotografias, coloque no fundo da mala, com cuidado para não amassá-las. A vontade você não pode esquecer de modo algum, assim como o desejo, a paixão, a motivação. Você sabe que precisa deles de hora em hora.

Enfim, meu bem, abra os armários, areje-os, junte tudo que conseguir juntar, carregue as malas com tudo que você teve e que conseguiu prestar. Encha, também sem dó, os sacos pretos de lixo, desconsidere, esvazie-se, descarte cada cisco que não servir mais. Veja duas vezes se não está esquecendo nada...

Está? Ah, sim, o desejo de mudança... esse você deve deixar fora da mala. Vista-o por inteiro nessa noite. É sempre bom vestir algo assim para a viagem.

Boa viagem, aliás. Que tudo que você deixar seja incinerado quando você embarcar no trem. E que, ao descer, você encontre um mundo todo fresco e lavado, um lugar a ser descoberto e vivido e aproveitado. Que na próxima viagem, no próximo fim de ano, você tenha ainda mais o que levar – e, por favor, cada vez menos para jogar fora.

Aproveite a viagem, aproveite a vista, aproveite a vida. Sem dó.

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

aS ESTRELAS ESTÃO MORRENDO - por Simone Huck

 Era a última quinta-feira de um dezembro qualquer. A presença dela ainda arranhava o céu da memória dele. Quando foi fechar a janela do quarto já era noite. Lembrou que mês passado leu uma reportagem que dizia que o universo está parando de fabricar novas estrelas. Chorou quando não encontrou as Três-Marias no céu.

Há quarenta e nove dias não chovia. Seu coração estava seco. Apenas uma intenção remota e particular insistia em iluminar seu lado escuro. Sentou na beira da cama e terminou de selecionar os trezentos e quatro verbos. Não acreditava mais nos adjetivos. Os substantivos nem cogitou. No dia seguinte, seu horário estava marcado às sete horas da noite. Cinco e meia já estava lá, munido dos trezentos e quatro verbos e do ato. Daria certo.
Sete horas. O tatuador entrou. Posicionou todas as palavras em seu corpo e não restou epiderme sem verbo. Tatuou até o rosto. Aos poucos voltava a ser um camaleão fugido do último tiroteio no Vietnã. Sem pátria e cama. Quase sem estrelas. Precisava esquecer o rastro daquela mulher. Tatuou todo o corpo com os verbos. Olhou no espelho, já não era uma folha em branco. No seu rosto estava escrito verbos defectivos. Não queria mais conjugar nem ser conjugado. Não queria uma primeira, segunda nem terceira pessoa. Não era mais singular; muito menos plural.

No dia seguinte, para garantir a limpeza de suas hemácias da possível lembrança dela, fez transfusão de sangue. Ao meio dia, trocou seu sêmen pelo sêmen de outro homem e para garantir deixou dentro de uma outra mulher. Foi para casa. Estava deixando de ser rascunho.
Entrou no chuveiro e antes de ligar a água leu em seu rosto o verbo “reaver”. Tinha pressa. Chorou duas lágrimas de pedra que caíram e quebraram o piso do chão. Com uma bucha lavou boca, mãos, pés, saudade, costas, desejo, coxas, anseios e joelhos. Saiu e enxugou-se com pressa. Colocou pasta de dentes na escova e antes de começar a limpeza, inflou o peito, mirou a pia do banheiro e projetou o corpo para trás e lançou-se velozmente para frente tirando de si um grande e último escarro. A mulher que ele precisava esquecer estava um pouco ali. Pelo ralo o escarro marrom escuro desceu, grosso. O resto da mulher tentou agarrar com suas unhas pintadas o ralo da pia mas ele ligou a água para garantir o afogamento dos dois: mulher e escarro.

Sentou na bacia sanitária e resolveu cortar as unhas. Havia muitos ressentimentos guardados ali. Unhas são como caixas, aranhas escondidas em quinas, confeccionando teias sem parar. Vestígios que arranham a mínima intenção de esquecer. Quanto mais pensava nela, mais cortava. Cortou até chegar no leito ungueal e só parou porque não havia mais unha. Tinha certeza que se livrou mais um pouco dela ali. Juntou os restos, o sangue e jogou tudo dentro da bacia sanitária. Deu descarga. Suspirou levemente aliviado. A água afogou as unhas. E os restos.

Levantou e com um cotonete limpou os ouvidos. Tirou acúmulos de cera. Secreções reúnem gordura, ranço e passado. Imperceptíveis sobras dela em seu ouvido gritavam palavras que não queria mais ouvir. Estava quase limpo. Perfumou-se. Vestiu sua camiseta preferida. Sua calça preta e seus sapatos brancos. Foi até o jardim e colheu duas margaridas. Arrumou a mesa de jantar, acendeu uma vela e colou as duas flores no prato. Despejou azeite nas pétalas e caule e mastigou tudo com um copo de água gelada. Engoliu as flores e o último resquício dela. Margaridas não seriam mais suas flores preferidas.

Arrumou a cama e antes de apagar a luz e finalmente dormir em liberdade, arrotou um punhado de pólen que foi levado pelo vento e fecundou o jardim da casa da frente. Meses depois novas flores nasceram do outro lado da calçada. Mal sabia ele que ali estava ela. Há presenças que não fizeram catecismo.

terça-feira, 25 de dezembro de 2012

oS FESTEJOS - por Dilma Alencar.


É manhã de natal e importa mais ser manhã.
Um homem dorme em frente ao banco Safra, esquina da Paulista com a Augusta, exibe uma ferida aberta na coxa, ele fede, ele fuma. O crack comeu seu sorriso. Os dois dentes que restam estão escondidos por trás de seu bigode branco e piolhento.
Duas distintas senhoras atravessam a faixa de pedestre exibindo roupas de cortes finos e elegantes, cabelos engenhosamente montados para parecerem naturais.
As sacolas vermelhas deixam o laço dourado arrastando pela calçada. As vidas de luxo e de lixo dividem a mesma calçada.
O homem cospe e coça a barba, uma garrafa de uísque passaporte é seu desjejum. Cada um com seu panetone.
As pernas brancas e tatuadas sobem a Rua Augusta e dobram a esquina em direção ao metrô. Homens de mãos dadas, um deles segurando uma long neck heineck. Falam de Beatles e do quarteto de cordas do teatro municipal.
O rapaz da padaria ainda traz o sotaque e os sonhos frescos, e pensa ser passagem o presente de ônibus cheio, preconceitos vistos e aos poucos aprende a odiar. No amontoado de gente apertada em ônibus e terminais ele conta os dias e vive um futuro que pode não existir, aprendeu a odiar quando se viu sem família, aprendeu a odiar no natal do ano passado, quando a marmita fria o fez vomitar e trabalhou com febre e ódio o dia inteiro, pois a cidade não para.
As meninas brancas bebem cerveja e gozam no banheiro de um bar gay, enquanto seus amigos esperam o misto quente com café com leite.
A T.V. do bar exibe clipes antigos e eles veem a Madonna com a mesma inveja que uma mulher tem de outra.
Da janela de seu apartamento pequeno uma mulher bebe chá, de costa para a grande avenida, ela vê seu namorado, um cara culto, tão carinhoso quanto sua amiga Gabi com quem transa de vez em quando.Para não “entediar”, dizia.
Ele exibia as costas largas e bonitas.
É manhã de natal. Os transeuntes daquela avenida, àquela hora da manhã, carregavam pequenas angústias. Moralidades e ímpetos de sexo. Os bares, as camas, as cores, os brilhos, tudo excitava o corpo e as placas diziam “goze os festejos”.
 Descendo um túnel, numa outra avenida da cidade de concreto, flores suavizam e colorem o que já fora corpo. A paz está ali, pois a inquietude deixara aquela gaiola de carne e luto.
Cheirando a maconha e vodca os meninos afeminados voltavam para suas famílias duras, a mulher do apartamento tomou banho e com muito carinho fez café para o namorado.
As senhoras entraram em suas casas com poltronas de estofados bucólicos e feios.
Só o homem da calçada não pensava, apenas sentia dor. A perna expulsava pus e quando algum pensamento surgia era de medo, pois o lanche jogado no chão por algum outro bêbado atraia moscas, e agora sua perna era alvo. Havia moscas na Avenida Paulista. As moscas também têm fome. Sangue e sacrifício ainda são as alegorias do velho mito de morte e ressurreição.
Mas o dia era de nascimento, e no hospital, perto do Paraíso, sim, alguém nascia vestindo o sangue de sua mãe.

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

c.G.e - Por Vinícius Linné


É natal. E nos natais e anos novos eu costumo lembrar de você. Lembro de quando éramos só adolescentes e bobos. E lembro do meu moletom azul. E lembro do soco que dei no seu braço.

Dos e-mails, das farpas afiadas, da minha incompreensão, do meu descaso e descompasso, eu lembro. Lembro de alguém dizendo: “tem certeza que você não entende?” Eu tinha. Eu tinha as certezas todas. Eu não entendia porque era só para mim que eu olhava.

Os meus sentimentos, as minhas amizades, os meus gostares, os meus pesares. Eu não via o que vejo hoje. Não via os seus natais em um apartamento solitário. Não via a falta de pais, a falta de paz, a janela escura pela qual entravam os gritos felizes de algum bêbado qualquer. Não via que a sua solidão era maior do que a minha. Não via a falta que eu mesmo fazia.

Eu não via o vazio dos enfeites de natal na sua porta. Eu não via você sem receber qualquer presente. Eu não via você me esperando entrar por ali com uma lembrança qualquer. Eu não via você chorar.

No ano novo, eu não via você sem beber champanhe. Não via você segurando firme um travesseiro contra a cabeça para não escutar o barulho dos fogos. Eu estava ofuscado por eles. Eu não via o escuro do seu quarto, a falta de vontade, a saudade do tempo em que eu podia ainda lhe dar socos no braço.

Hoje eu vejo tudo isso.

Mas só porque hoje eu não vejo você.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

21.12.2012 - por Simone Huck

Abriu os olhos e do lado viu seu marido. Teias de aranha confundiam as frestas de sol que tentavam entrar pela janela. Era mais um dia. Mais um copo de café. Novas esperas. Ausência de esperança. Nada que fosse palpável de mudança. Não havia nem malas novas, nem coragens velhas. Atrás dos dentes escondia-se alguma palavra que não ousava dizer em voz alta. O silêncio conhecia sua aflição. Crenças desacreditadas. Não havia Deus para dizer o que era certo. Não havia santo ou altar para que pudesse ajoelhar ou suplicar. Nas suas pernas havia mais cansaços do que a mínima possibilidade de milagre. Os dias contradiziam-se. A pele queimava desejos novos. A vida oferecia caminhos antigos. Não sabia se era neste mundo. Não sabia se era no mundo passado. Não sabia de onde aquilo tudo apareceu para metralhar sua paz cinza. Tinha uma boca tão bonita. Andava tão calada. Era dia dos pais.


Ela estava de quatro. Ele estava por trás. Segurou seus cabelos loiros e pediu para que ela rebolasse. Nunca estavam satisfeitos. Ele tinha mais dez minutos pra gozar. Ela tinha mais quatro clientes para atender. A madrugada anunciava pela janela uma lua que parecia uma boca sorrindo. Ela não via graça, nem sorriso, nem lua, nem noite. Enquanto ele metia ela gemia mentiras. Ele gozou. Ela levantou e limpou o umbigo e a boca. Ele jogou cinquenta reais na cama. Ela passou uma vida inteira sem ouvir a palavra “eu te amo”. Cada um virou a esquina no sentido oposto. Sombras de uma madrugada úmida. Ele não estava satisfeito. Antes de voltar pra casa, precisava de mais algumas metidas. Tinha 150 reais no bolso. Ela pegou o celular e conferiu se havia novas mensagens. Estava na hora de Marcelo acreditar que ela era atendente noturna numa empresa de telefonia. Que era mulher séria. Que merecia ouvir ao menos uma vez “eu te amo”. Nada. Sem mensagens. Sem Marcelo. João era o próximo cliente e ela precisaria mentir bem. Era Domingo de Páscoa.


Ele era tão bonito. Desde menino se destacava da maioria. Cabelos longos e macios, lisos. Olhos ávidos, claros. Sorriso aberto. Conduzia o mundo com hálito de sonho bom. Era pessoa do bem. Ninguém poderia atestar o contrário. Casou. Não teve filhos. Construía casas. Comprou a dele de outro engenheiro. Quando fez trinta anos descobriu que não sabia o que era viver. Quando sua esposa preparou um jantar para pedir um filho, ele colocou sua melhor camisa para pedir o divórcio. Foi na mesma noite. Cada um tratou de engolir suas próprias vírgulas. Ele vendeu tudo. Resolveu sair nu na noite mais fria do ano. Sentou debaixo de uma árvore molhada. Abraçou suas pernas e ficou vendo os carros passarem. Era Natal.



Mais um cigarro. O cinzeiro estava cheio de intenções. Mais uma dose de vodca. Era impossível permanecer sóbria. Era viciada. Consumia todas as tendências do mundo dos destilados. Era conhecida pelos malucos na boca de fumo. Ia ao médico para pegar receitas azuis. No armário do banheiro colecionava psicotrópicos. Tinha um estado de pasmaceira tão natural que achavam que era loucura e não vício. Talvez excesso de leitura. Todos a conheciam e gostavam dela. Era moça estudada. Dava palestras para os adolescentes da igreja. Dava aula na universidade a noite. Nos finais de semana visitava as exposições temporárias da cidade e todos esperavam que ela publicasse uma mínima nota falando a respeito. Tudo o que ela falava produzia efeito. Tudo o que ela ingeria, também. Chegava em casa sempre sozinha. Tinha sete gatos e dois passarinhos machos que moravam na mesma gaiola. Uma gata conversava com um dos passarinhos. Era o único erotismo presente naquela casa. Toda a íntima conversação da vida dela era lacônica. Os bichos ficavam na maior parte do tempo estáticos, olhando o vaso pendurado na janela do vigésimo sétimo andar. As nuvens faziam parecer que o vaso dançava. Eram todos lunáticos ou, talvez, sensatos em demasia. Guardava a maioria dos livros debaixo da cama. Às vezes gostava de comer traças gordas. Eram suculentas e frias. Era como comer restos de livros. Restos de palavras. Restos do resto. Vomitou antes de apagar a luz e esperar um outro dia. Era dia de Finados.



O calendário marcava a mundial histeria: 21.12.2012. Nada tremeu. Nada mudou. Sorriram um sorriso cinza de quem nada espera. Até os dentes se acostumam à previsibilidade da boca. Não era feriado para nenhum deles.


terça-feira, 18 de dezembro de 2012

sOBRE AQUELAS PERGUNTAS - por Dilma alencar


Gostava do seu cabelo sobre meu rosto, seu jeito de me acordar, sua mão subindo pela nuca desgrenhando meu cabelo amassado, compondo minha feição de preguiça.
O dia sorria, logo cedo um jardim repousava aos pés da cama.  Num encanto de água teu corpo acordava e o mundo estava nele, angelical e irresponsável, tudo que se queria num corpo outro. Não fosse o fascínio de uma absoluta entrega de poros, de pó de túmulos futuros, de sangue, não fosse a dureza de ter as armas todas dispersas no chão, e o coração na garganta, eu teria fugido. Mas minhas pernas trêmulas de um cansaço de deus, só sabiam de seus passos. Tudo era imã, como naquele dia improvável em que eu voltei para casa, desistira de ir ao trabalho na esquina de casa.
Você tomava banho e ouvia meu álbum de Marisa, eu abri a porta, queimando de saudade do nosso lençol. Seu rastro, roupas largados no chão. Entrei no chuveiro de roupa, bolsa, sapatos. Você recebeu meu repente como quem vê um eclipse acontecer pela primeira vez. Com o cuidado delicado de não abandonar meu olhar brilhante, você me despiu: bolsa pesada da água quente do chuveiro, fones de ouvido, colar, anéis e brincos. A brandura do cansaço. O meu mundo reunia-se em torno do seu umbigo.
 Imã: quando você me deu aquele buquê amarelo, seu rosto numa expressão que eu não sabia dizer, de quem descobre um segredo antigo, um mapa das terras virgens.  Eu agarrei sua mão lhe cobrando verbo, você sorriu e disse que meus olhos dançavam entre as flores, intensos e livres. E me abraçou como quem abraça uma fortaleza.
Li em algum lugar que “os anjos são ateus e só acreditam no que é matéria”, imediatamente me lembrei de seu corpo.
Como foi mesmo que a poesia invadiu a cozinha, o corredor, o jornal embaixo da porta, minha saia, minha língua, meu xampu, minha nudez, meus modos verbais?
O som macio de seus pés descalços indo até a cozinha ainda me faz abrir sorrisos que me assustam de tão fáceis.
Aos poucos a nossa linguagem foi tecendo corda, o amor fincava raízes nos nossos estômagos e gargantas. Estrangulava pequenas liberdades esquecidas,e meu zelo pela liberdade de olhos soltos e minhas mãos no mundo foram ferindo sua compaixão. Compaixão: deriva do latim, compassio “capacidade de sentir o que o outro sente”. Não tínhamos um dicionário etimológico, quiçá um manual sentimental. Quando é que é só tesão e fogo? Quando é que começa o caos, como sinos de igrejas invadindo sem permissão lares baldios?
Sentimentos que matam o instinto da vida e nos fazem fiéis a um corpo que não é o nosso, eis a loucura que sentíamos, morremos merecidamente. A devoção aos sinais virara rito, o ritmo perdia o tempo do acorde, e matamos com velas e orações a gratuidade dos gestos.
O desespero embutido no amor vazava pela geladeira, entre sua geleia e minha cerveja, entre sua roupa passada e minha preguiça.
Estupidez, não ter saído antes daquele luar eterno em que tocamos Deus.
Corrente no tornozelo: anel de compromisso, metáforas angustiantes de um fim próximo.
A nossa luz preferida, aquela depois de chuva à tarde, quando a ar flutua prata e todas as cores adquirem visgo, como planta bem regada. Ela agora me enche os olhos de vazio e meu café esfria enquanto meu olhar se perde na distância dos dias.
Ainda arrasto correntes no tornozelo. Um dia,  um anjo teve encantamento de me roubar aquele peso, mas devolveu após uma semana, dizendo que não cabia em sua casa, embora bonito, soltava  ferrugem nas nuvens virgens de dor e peso.
O que se alcança querendo voar?
De um bar numa esquina movimentada, os copos e os corpos são tomados de intenções medíocres de um gozo pobre de espírito e anêmico de poesia, há quem diga que há amor nas tentativas, quantos goles mais de vodca e memória de seu gosto? Quantos dias arranhando a chuva? Comendo a guerra?
Quando escrevo e me lembro da estupidez crescente, eu rio promessas absurdas nesse dezembro chuvoso, como aquele que você me apresentou deus em forma de água.
Abençoados sejam os que já voaram e sabem da inutilidade sagrada de ter amor e desespero!

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

the END - Por Vinícius Linné

Que meteoros são necessários para te pôr abaixo? O que precisa ainda para te cobrir de vez de fumaça e fogo? É anjos que tu queres? Quatro deles com cavalos e trombetas? Poupe-me. Nós dois sabemos que é preciso menos. Teus cataclismos sempre vieram com suavidade. 

Até para destruir-te tu és fraco.

Que cor é o planeta que queres para contigo chocar? Azul, vermelho, roxo, quem sabe?! Que raio alienígena é preciso para que te rendas ao fim? Diz, diz pra mim...

Quem sabe o sol explodindo, uma lua se partindo, o teu núcleo congelando por falta de zelo e uso e dor? Diz, diz de que sabor tu queres a lava feito calda derretida.

Gases tóxicos, contaminação, lenta decomposição... É assim? Queres arrastada e dolorosamente? Sempre foi esse teu caminho de vida, por que não, então, o de morte? Ou vais, enfim, te deixar render? Fazer tudo acabar num gozo de prazer? Confessar, mostrar teu calendário escondido...

Diz, diz logo como vai ser. Não tenho mais tempo para esperar e perder. Diga de uma vez. Não fique parado me olhando no espelho. Pelo amor de Deus, apocalipse-se.