quinta-feira, 30 de maio de 2013

as PERAS também esPERAm - por Simone Huck


Sei que vou morrer antes de você chegar. Já se passaram tantos anos. Ainda espero. Ontem a noite, mais uma vez, fechei os olhos e seus passos pesados invadiram o assoalho da sala. Só os seus passos fazem a madeira ranger assim. Você tem um jeito pesado de andar. 

Na geladeira, peras maduras esperam pela sua boca. Sei que será a minha, mais uma vez, a comê-las no seu lugar. Eu não desisto, nem as peras desistem de você. Nossas bocas confundem qualquer tipo de fruta. Outro dia abri a geladeira, coloquei todas as peras enfileiradas na mesa e fiquei falando de você. Agora elas sabem exatamente o gosto da sua língua, o som da sua voz, o doce do seu hálito. Esperamos com avidez que a sua boca adentre a casa e a geladeira. Todos nós sabemos que você jamais chegará antes de morrermos. As peras morrerão antes de mim. Há uma certa ordem no caos da morte.

Ontem de manhã choveu. A chuva molhou o jardim. Peguei um pano e fiquei secando as flores. Ousei secar a chuva enquanto te esperava chegar. Sou pretérito perfeito que aguarda. Falei de você para o jardim. As flores brigaram comigo, não aprovaram minha honesta espera. Disseram que fidelidade tem prescrição, validade e durabilidade. Não entendi nenhuma dessas três palavras quando se trata de você. Nada disso se aplica a você. Muitas coisas não se aplicam a você.

Pintei outro quadro essa tarde. Ficou tão bonito. É colorido e denso como você. Espesso, grosso, com nuances opacas e gêmeas. Há pedaços seus tão iguais no mesmo lugar. Há pedaços distintos. Mistura de branco e preto. Tudo e nada. 
Você nunca esteve em nada. Nunca esteve aqui. Sempre soubemos. Você ainda não sabe quem é. Nem pra mim. Nem pra ninguém.

Sei que vou morrer antes de você chegar.
Ontem à noite, antes de dormir, descobri uma música nova na rádio da Palestina. Estamos todos em infinitas guerras. As estações do rádio, a Palestina, eu e você. Sorri e fiquei ouvindo, repetindo, repetindo, repetindo aquele novo som até dormir. Você teria gostado tanto de ouvir essa música nos meus fones de ouvido. A Palestina talvez dormiria em paz assim. 

Antes de apagar a luz, subi na escada e beijei a lâmpada quente do teto do quarto. Parece que a sua imagem está ali dentro daquela lâmpada, querendo atravessar com sua lança, o raio de luz. Você se parece tanto com a imagem de São Jorge, seu protetor.

Somos apenas imagens. Estados gasosos que serão dissipados pela urgência da espera.
Acenda a luz quando você chegar...

("as PERAS também esPERAm" foi publicado em 29 de novembro de 2012 aqui, no febre CRÔNICA.)

terça-feira, 28 de maio de 2013

aUSÊNCIA - por Adilma Alencar.

Os lírios se abrindo em neons escarlates madrugada adentro, sutiã, perfume, mel e desespero.
Última madrugada nua em braços alheios, sem culpa e sem amor, o caos fotografando minha palidez cristalina.
Mulher é uma palavra aberta.
Fez tranças nos meus cabelos, suas mãos eternamente trançam, fazem nós, desfazem nódoas que o mundo cingiu. Suas raízes lançaram terra em cada gesto que se seguiu, em cada gesto diário de tentativa de amor.
Todo o meu silêncio é um prato de comida, é domingo de manhã. É raio.
Não há solidão, o que violenta meus sentidos é sua ausência na minha cama, no meu café preto de madrugada, na procura burra de minhas mãos.
Há meu pranto nos poemas de amor, leva meu corpo para servir sua eternidade, não há um traço, um risco, um vinco no meu rosto que não signifique seu meu amor.
O primeiro frio que me recebe à porta de manhã, a pressa, o prazo.
O amor é essa eminência triste e doce de romper de lágrimas absurdas.

Meu mundo berra rouco, largo, é um touro perdido. Vingo sua ausência profanando a beleza das manhãs que não lhe dei, morrer é absurdo. Seu amor plantado em meus nervos é cor primeira de tudo que pulsa. O gosto do seu umbigo é horizonte macio do corpo em gozo. Renuncio à estupidez. O amor é maior que arapucas do medo.

segunda-feira, 27 de maio de 2013

aCEITAÇÃO - Por Vinícius Linné


A dor é uma sensação. Quem disse que é ruim? Não é. Não se você se convencer disso. Se você decidir senti-la até o fim. Não é você quem vive dizendo que quer colecionar sensações? Comece, então, pelas suas dores todas. Desde aqueles cortes agudos no braço até o dedo trucidado pela máquina de moer. Desde a solidão de um domingo à noite até o fatal término do casamento.

Dor.

É mais fácil se você aceitar. Se você a vivenciar como sendo parte do que existe e do que não pode ser evitado. Diga: "É dor, eu sei" e a deixe doer. 

Não digo para você desejar a dor, para causá-la... Não... isso seria doentio. Digo apenas para que aprenda a conviver com ela. Que não coloque compressas e emplastros anestésicos tão depressa. Deixe doer. Observe como é belo o sangue vermelho pingando sobre os azulejos brancos. Veja o quanto é lindo seu rosto franzido, sua lágrima translúcida, seu afinado gemido. Conte em quantos cacos se faz uma alma, quebre os maiores, bata seus próprios recordes, se desfaça em pedaços cada vez menores. 

Há outra opção? É possível desvencilhar-se? Fingir que não dói? Mudar-se para um país em que nada jamais doa?

Não é. Aguentar é tudo que resta, então. Aguentar enquanto as agulhas entram no seu corpo. Enquanto as facas caem nos seus pés. Enquanto alguém arranca sua unha da pele. Enquanto ninguém responde ao seu e-mail. Enquanto os dias passam em branco. Enquanto você queima os próprios sonhos. Enquanto desiste de se fazer entender. Enquanto desata laços e nós. Enquanto se desfaz de quem se desfez de você. Enquanto percebe que não doer é em vão...

Dor... É só uma sensação... e vai passar. Você sabe que vai. Aguente, por enquanto.

quinta-feira, 23 de maio de 2013

o EXCREMENTO - por Simone Huck


CAROS LEITORES:

A colunista SIMONE HUCK estará por um pequeno período afastada do blog, enquanto isso, republicaremos alguns textos antigos de sua autoria. Pra quem ainda não leu, aproveite.

 Rastros, 2011 - Simone Huck

Ela seguia fria, seca e cada vez mais gorda em seu ofício de alimentar-se do passado.
Acho que era ela dois meses atrás, ainda magra e filha, subindo por alguma das paredes do meu úmido quarto. Naquele dia eu tinha tanta urgência que nem poderia perder tempo acertando-lhe um chinelo. Tudo me era sempre ontem. As coisas habitavam uma pressa, uma inóspita ausência de tempo para o que eu não via. Deve ter sido num desses momentos, em que também não percebi, que o amor que eu transpirava também trazia essa certa urgência e talvez parecesse - “vazio” – retrucou ela, antes de fazer as malas e sair pela porta cinza. Somos previsíveis no erro. Desconhecidos nos acertos.

Tenho pensado em quase tudo. Tenho habitado um quase nada.
Há dias que encontro alguns cinco minutos entre um trânsito e outro para pensar um pouco além de mim. Revejo sombras. Engulo espectros.
Escrevo um pequeno poema em minhas unhas, levo o dedo até a boca e a saliva limpa a tinta. A garganta engole os vestígios. A ausência omite o medo.

Poucas coisas me espantam. Apenas ela, gorda, alimentando-se das minhas lãs esquecidas num fundo de uma gaveta morta conseguiu me fazer parar e pensar. Será que as traças engolem o passado? Qual a forma de um excremento frio e cinza, cujo nome é “passado”?

Mastigo o canto das minhas unhas enquanto penso em desistir. Há uma forma de sabedoria na desistência. Olho a sua nova fotografia e penso: eu faria melhor. Minhas presunções precisam de algumas traças, eu sei. Assim como a sua cegueira, aquela que mastigou um damasco, arrotou e depois foi pendurar nossas roupas no varal. As futuras roupas que um dia serão o passado da minha gorda amiga traça em seu ofício de limpeza.

"o EXCREMENTO" foi publicado em 19 de julho de 2012 aqui, no Febre Crônica.

terça-feira, 21 de maio de 2013

cOR - por Adilma Alencar.


Esse ano ele prometeu para os amigos que teria mais tempo para o chope, a conversa, o futebol. Mentira.
Andava triste, mas era só por dentro, ele comprou um carro novo, foi promovido, saiu com a amiga do trabalho, a mais gostosa, falavam nos corredores, assim como falavam da sua fama de galanteador.
Do seu apartamento, apreciava a vista bonita da avenida cara de morar, para ele aquela beleza escorria na solidão de uma saúde boa, na solidão dos bons vinhos, nunca amara.
Numa segunda- feira fria, de tempo seco, seus olhos esqueceram os sinais e por pouco o carro vermelho, que buzinava incessantemente atrás de seu importado, não o atingira. Foi nesse dia de dispersão que ele chorou o medo de que a solidão de todos os objetos belos furassem seus olhos.
Quis pousar seu corpo numa teia que inflamasse mais fundo, para que pudesse dar às cores da manhã um nome mulher, um nome de homem, o corpo é a ponte, ele sabia.
Sentiu medo de estender as mãos, pois não era só o corpo pronto em sim que ele oferecia, oferecia todas as estrelas que já contara, todo luar, todo o seu pranto.
Descobriu ao acaso, uns dirão, que É milagre enviesado em nervos.
Nada foi mais bonito e dolorido quanto o pranto desse homem nascendo

segunda-feira, 20 de maio de 2013

vOCÊ - por Vinícius Linné


Às vezes você volta.
Nas sombras do inverno, na neblina que encobre as árvores e nos cantos longínquos dos pássaros de mau agouro. 

Às vezes você vem.
Aos chumaços, sem percalços, inteiro de novo e pronto pra mim.

Às vezes você se faz sentir.
Na ausência à mesa, no silêncio da casa e na chaleira que chia sozinha.

Às vezes você me chama.
No voo interrompido de uma mosca à vidraça, no papel das balas que açucararam na gaveta e nas notas musicais do disco que não toco mais.

Às vezes...

Às vezes você me olha.
No reflexo. Sempre no reflexo. Você me olha e segue adiante, ainda incapaz de me ver.

quinta-feira, 16 de maio de 2013

aquela DIARISTA FILHA DE UMA PUTA - por Simone Huck

Amélia, uma contemporânea mulher de verdade, abriu os olhos e não estava em seu quarto. As costas doíam. Os pés estavam naufragados em meio à talheres sujos do último jantar. Sentia cheiro de restos de cebola e óleo. O teto, que não era do seu quarto, estava amarelado e úmido. Acordou em cima da pia da cozinha ao lado de um exército invencível de pratos, talheres e panelas sujas para lavar. Não era possível. Mas também não era miragem.

Era casada com Acácio - que de inocente não tinha nada - e que saía de casa logo cedo, garantindo a grana para manter todos vivos. Ponto. Tinham três filhos. João, Pedro e Tiago. Além de sete gatos com sete vidas cada um e que, se somados à vida de Pedro, João e Tiago, seriam dez seres com sete vidas. Fez as contas mentais e chorou com a estimativa de setenta longas vidas repetindo, repetindo, repetindo. Dez vezes sete significava mais pia. Mais louça. Mais cebola e óleo. Menos ela. Amélia não tinha um tempo para chamar de seu. Chorou na água suja da pia entulhada. Sua lágrima caiu em cima da bola de óleo podre que boiava, formando um coração que se desfez rapidamente. Ironias da visão. Fúria heterogênea. Onde estava Mabelle? - que de querida não tinha nada.

Mabelle era descolada. Tinha carro e facebook. Mascava chicletes e sempre que ia guardar um livro na estante da patroa, vasculhava algumas páginas até encontrar os grifos e lia, relia, tentando decorar. Sonhava ser culta como Amélia. Era empregada diferenciada, o que chamou a atenção na hora de sua contratação. Amélia imaginou que ela poderia ajudar com João, Pedro e Tiago - que de discípulos não tinham nada - os gatos, a louça e as cuecas de Acácio. Assim, Amélia, que acabara de lançar um livro sobre arte chinesa por uma editora bacaninha e renomada, poderia viajar pelo Brasil todo divulgando seu trabalho. Nas horas vagas, ela era professora de história da arte. Em todas outras, era dona de casa, esposa, mãe e ainda alimentava gatos, cachorros, passarinhos e qualquer forma animal de vida que lhe pedisse socorro. Mabelle era a solução de todos os seus problemas. Ela dirigia. Tinha seu próprio carro. Sua independência seria a alforria de Amélia para o mundo. Fim dos navios negreiros. Santa Princesa Isabel. Com certeza, ela também teve uma Mabelle para ajudar com seu império.

Naquela manhã, porém, Mabelle não apareceu. Desgraçada, maldita, vaca, filha de uma puta. E agora? A louça, a casa, a pia, as lancheiras, a escola, os rascunhos, a agenda, o skype com a editora. E agora? E agora? E agora? Não havia eco. Nem resposta.

Não pensou duas vezes. Vacas merecem um pasto. Mabelle não poderia jamais ter feito isso com ela. Ainda mais depois de ter lido Feliz Ano Novo. Rubem Fonseca tinha razão. Agora Amélia sabia de onde vinha àquela satisfação sangrenta. Sorriu.

Afundou as mãos na pia suja e na água imunda. Achou a faca de cabo branco. Trancou as crianças em casa e disse que voltaria em quinze minutos. Entrou no carro e foi até a casa de Mabelle. Apertou a campainha enquanto a empregada mentirosa olhava pelo olho mágico tentando pensar rápido numa desculpa esfarrapada. Abriu a porta e Amélia nem precisou ser convidada, já estava dentro da casa.
Nem deixou Mabelle falar, abriu a boca e com tamanha satisfação gritou sua vaca, sua vaca, sua vaca inúmeras vezes. E quanto mais gritava, mais apunhalava Mabelle - cujo nome significava minha querida.

Juntou todos os pedaços de Mabelle em vários sacos. Uma vaca merecia morar no pasto. Ponto. Nessas horas, ficava feliz por morar em Presidente Prudente, um local afastado, próximo de várias fazendas onde a pecuária de corte tinha tradição nacional. Na estrada dezesseis haviam vários pastos. Deixaria ali, pedaço por pedaço da vaca maldita que colocou seus planos por água a baixo. Água suja, repleta de louças.

Espalhou Mabelle pelos pastos como pétalas ao vento. Não sobrou um fio de cabelo. Voltou para casa aliviada. As crianças estavam jogando vídeo game na sala e nem notaram quando ela entrou. Foi até sua mesa de trabalho e dentro do seu livro, o que está fazendo sucesso no Brasil todo, pegou a lista de candidatas. Gostou de Gabriela, cujo nome significava a enviada de Deus. Não dirige. Não tem facebook. Não masca chicletes. Só cursou o primeiro grau e colocou uma observação enorme no final do curriculum “farei qualquer coisa para ter uma patroa para chamar de minha”. Amélia sorriu aliviada. Agora teria tempo para ser uma professora com um livro de sucesso.