quinta-feira, 29 de agosto de 2013

o HOMEM QUE FABRICA ELEVADORES - por Simone Huck


Não há crônica inédita hoje. Mas tem essa aqui, escrita há um ano e que fala sobre o homem mais especial e enigmático da minha vida: o HOMEM QUE FABRICA ELEVADORES. 
Boa leitura e até semana que vem. 
Huck


Entro no meu carro e ainda não amanheceu. É segunda-feira e tudo parece estático. A vida pendurada na previsibilidade de um prego invisível e rotineiro. Antes de sair procuro uma música no iPod, a trilha sonora que abrirá mais uma semana de sono e cansaço. Penso nele. Ele não combina com meu iPod. Eu não combino com o mundo. Talvez ele não combine com nenhum dos dois.

Eu passava dos 30 quando, num domingo despretensioso, ele beijou pela primeira vez a minha testa e disse “eu te amo, minha filha”. Ali, ele salvou minha vida. Resgatou de uma só vez sua ausência brusca, bruta, pouco lapidada. Eu e meu pai somos dois desconhecidos que se amam. Ele é um homem calado, pouco sei dos seus segredos. Ele pouco sabe dos meus. Nossos silêncios gritam.

Ligo o carro. O iPod toca uma música calma, quase calada. Continuo pensando nele. Uma lágrima quer saltar dos meus olhos. Uma vontade de gritar. Uma traqueia oclusa no tempo – meu e dele.  Uma consciência tão exata de que depois da sua morte, eu não serei mais eu. Eu não terei mais ele. Ele não terá mais ninguém.
Durante a madrugada, no pouco dos sonhos que consigo lembrar, ele morria. Sou uma pessoa que não lembra de nada quando acorda. Mas ao abrir meus olhos de lágrimas, ali estava ele. Algumas realidades aguardam o momento infalível de estrearem no palco dos nossos dias. Às vezes, a vida é um anúncio gritante em outdoor. 
Procuro pelos meus olhos no retrovisor do carro. Encontro minha covardia. Um dia ele não mais estará ao alcance do meu abraço.

Tenho quase 40 anos e poucos medos acumulados. Logo cedo o seu silêncio áspero me ensinou a não temer a vida. Ele não me emprestou um dos seus elevadores pra que eu subisse ou descesse com segurança. Disse pra eu fazer tudo usando cordas, escalando o bem e o mal. Hoje muita coisa mudou. Deixamos de ser tão silenciosos em nossos encontros. Há poucas sombras entre nós. Há muitas sobras. Hoje quem o leva ao médico sou eu. Sou eu quem escolhe a armação moderna dos óculos que ele usa. “Pai de artista deve usar óculos de artista”, brinco, enquanto o faço comprar uma armação preta e amarela. Ele sorri e me pergunta se está bonito, só depois que garanto o sim, ele saca o cartão e paga a minha escolha para os seus olhos. Hoje é ele quem precisa confiar em mim. Hoje sou eu quem anseia um outro beijo em minha testa antes da sua fria partida. 
Nos últimos dias abraço o desespero diário da sua ausência. Sofro calada um futuro próximo que mudará nossas sombras.
A morte é a única certeza da biografia.

Desço do carro e chego ao trabalho. Aperto o botão do elevador e ao entrar, procuro ávida a marca do equipamento. Sorrio. Ali está as mãos do meu pai. Estou salva naquele cubículo de metal. Meu pai é um homem que fabrica elevadores. Em seu ofício de garantir a subida ou a descida do coletivo anônimo.
Cresci procurando pela cidade os elevadores que ele criou. E quando entro em um que não há as mãos dele, não me sinto segura. Sempre tenho medo de cair. Sempre acho que alguma coisa não vai dar certo e a claustrofobia fica perto de mim na subida incerta. Só nos elevadores feitos por este homem é que me sinto livre.

O elevador sobe macio enquanto leio as quatro letras que compõem o nome da empresa das suas caixas de metal. As últimas duas letras também estão no meu nome: “IS”. Pura coincidência. Aposto que meu pai nunca pensou nessa relação. Sou eu quem precisa da segurança dos seus elevadores. Ele só precisa da minha segurança em aquecer suas mãos enquanto o levo ao médico.
O elevador chega. Sou a última a sair. Procuro mais um pouco do seu abraço metálico. Ali, sempre estarei segura. 

Olho a cidade cinza, mais um dia nasce. O homem que fabrica elevadores também já está trabalhando. Sorrio. Do meu lado a certeza de que passarei a vida inteira notando todos os elevadores só pra saber se foi ele quem fabricou. Só assim saberei que as pessoas estarão a salvo quando subirem ou descerem. Eu também estarei. Sim, meu pai é um homem que fabrica elevadores. Os melhores elevadores do mundo.

Décimo sétimo andar. Portas em perfeito alinhamento se abrem. Posso começar a escalar o dia.

terça-feira, 27 de agosto de 2013

mEU PESAR - por Adilma Secundo Alencar.

Seja agora. Eu já não posso sem você. Todos os dias eu engulo uma lua sentindo seus seios em minhas mãos e um buraco na memória faz vertigem e enjoo no meu estômago.  Eu não quero discutir política, Barthes, eu também sofro desse cansaço de um mundo estúpido, entupido de palavras sem pensamento. Eu quero o silêncio de água do teu sexo, tua raiva me rasgando a roupa. Sem você eu não sei chorar. Eu não fumo, não bebo. As flores estão chegando e setembro é o mês que te veste. Vem nua para nosso pequeno inferno de amar. Esses bares todos da cidade de São Paulo só esperam nosso encontro escandaloso. Não há traição, tampouco namoro, os filmes desse semestre são estúpidos e burgueses e meus livros velhos estão inflamados de poesia com teu nome, não demora não, é fácil enlouquecer sem amor. Eu ajeitei minha cama e corrigi minha sintaxe para não reprimir teus instintos, vem com esses olhos chorosos que me devoram antes de tua boca. Entre teu choro e minha raiva, meus dentes e tua língua, vem fazer verbo do que é substância, seja com essa linguagem obscura que nossas palavras não alcançam nem alimentam.
O meu armário guarda suas revistas e aquele álbum do Noel nunca mais tocou, os sachês de chá apodreceram esperando tua sede e eu guardei a forma de pudim.
Eu comprei xícaras com seu tom de vermelho e engravidei três vezes durante sua ausência, sem você sou menos gente. É desesperador o barulho do relógio sem o teu sorriso ao entardecer, sem o teu corpo nu junto ao fogão me fazendo café, seus reclames das notícias de jornal e sua impaciência com meus carinhos.
Me deixa  cuidar do teu corpo com a mesma devoção com que guardei teus traços nas minhas mãos e teu gosto na minha boca. Fica, é simples, vem para o espanto vadio do meu querer ajustado às curvas de meus desejos entre dedos e língua, sintagmas. Manoel de Barros me nina com suas formigas de corações líquidos, Bandeira me oferece café e putas bonitas para namorar, os bares se abrem para minhas mentiras moles, mas teus braços, teus braços onde estão? Todo colo nu, agora é calçada de concreto, e eu não durmo, eu anoiteço te querendo numa tara sem satisfação, numa fome cuspida em gestos cambaleantes engendrando mais rostos que sentimentos nos meus sábados.

O amor apodrece dentro de uma gaveta que é tua, uma gaveta fechada há cinco anos.

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

a QUE EU NÃO CONHECI - por Vinícius Linné

'Barren' by Daphne Ng


Se algum dia me perguntarem se conheci Beatriz, vou dizer que não. E, realmente, eu não a conheci. Não assim, como ela era nos últimos tempos. Se me disserem que encontraram meu brinco em sua mão, eu nego. O brinco não era meu, não importa com que força a mão dela tenha se fechado. (Cofre de joias em rigidez cadavérica.) Não importa o rasgo na minha orelha esquerda. (Cicatriz vespertina sem lágrimas expostas.) Se disserem que havia minha pele, meus pelos, meu DNA inteiro debaixo das unhas de Beatriz, eu ainda direi que é engodo, fabricação de prova, incriminação da mais pura e pérfida.

Eu não conheci Beatriz.

Eu não me apaixonei por ela. Eu não ouvi dela que minhas palavras eram nuvens de se flutuar, que minha voz tinha almíscar e ronronares, que meu canto a fazia mergulhar no que havia de doce e pesado no mundo.

Não. Eu não cantei nas noites de temporal para que Beatriz dormisse. Eu jamais a aninhei no meu peito e a deixei, fascinada, ouvir o meu coração pulsando. Eu jamais lhe beijei a boca agora cheia de terra, nem envolvi nos meus braços seus seios, decerto já encolhidos aos ossos das costelas.

Eu não conheci Beatriz.

Eu não falei com ela sobre a solidão e o ser. Sobre as almas irmãs e sobre a distância entre nós e o mundo. Eu não lhe descortinei os sonhos, despi os medos e teci os prazeres. Nunca, porque eu não conheci Beatriz.

Eu não sei nada sobre o que ela se tornou. As festas, as bebidas, os jogos, as máscaras. Eu não sei.

Eu não conheci Beatriz, a estranha que invadiu minha casa, que rasgou minhas telas e quebrou meus discos. Eu não conheci a Beatriz que me culpou pelo rumo que escolheu, que pediu de volta o que antes era seu, que implorou, bêbada e suja de sêmen, que eu lhe cantasse outra vez.

Eu não conheci Beatriz. 

Eu não matei Beatriz!

Não, eu não esqueci Beatriz...

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

úLTIMAS NOTÍCIAS - por Simone Huck


Krzysztof Domaradzki

O cego, de cinquenta e seis anos, rasga um pedaço de jornal para limpar os óculos. 
A estagiária, de dezessete anos, rasga um pedaço de jornal para limpar o vômito de sua chefe. 
A mãe, de trinta e dois anos, mora debaixo de um viaduto na Avenida Consolação e rasga um pedaço de jornal para limpar a bunda do seu filho, de três anos. 
O engenheiro genético, de quarenta e quatro anos, rasga um pedaço de jornal para embrulhar frascos de insulina. 
A médica, de vinte e sete anos, rasga um pedaço de jornal para embrulhar os fragmentos de um feto que acabou de assassinar do útero de mais uma cliente. 
O escritor, de trinta e nove anos, rasga um pedaço do jornal com o endereço de uma casa que fabrica personagens que ainda não foram publicados.

O córtex visual do cego jura que leu o jornal. A estagiária é virgem e todos os dias lê primeiro a sessão de classificados das putas e depois, o caderno de empregos. A mãe pensa em matar o filho e ser notícia de jornal. O engenheiro busca a glicose do amor no caderno de economia. A médica quer o homem ideal, capaz de lhe fazer um filho, lendo as combinações do zodíaco. O escritor mastiga e engole o jornal acreditando que vai arrotar algo inédito.

O delírio não está na linha editorial do dia.

terça-feira, 20 de agosto de 2013

sACHÊ DE AÇÚCAR - por Adilma Secundo Alencar

Eu não soube mais falar dessas coisas depois que você partiu. O papel de carta colorido de sóis permanece virgem. Eu ainda desejo seu corpo como se seu perfume ainda estivesse aqui, mesmo depois de tanta água e sabão e ferro de passar.
Eu sei rever, sem esforço, todos os passos daquele dia: a chuva tempestiva, eu aos prantos naquela avenida verde oliva, o vermelho do meu tênis borrado de tanta água nos meus olhos. Foi nesse dia que eu percebi o estrago que você fez.
E depois, o sol, a cerveja gelada, o sexo, os dias azuis em camas arrumadas.
E depois, a dúvida, a saudade do meu nome na sua boca, do meu nome metaforizado em nuvem e vento.
E depois, a viagem, o encontro com Buda, a energia tântrica, os mistérios do sânscrito, o parto.
E depois, a cama posta, a espera pronta, seu nome em meus hiatos.
Na semana passada eu deixei minha boina na poltrona do cinema, voltei assim que percebi. Quando me aproximei da boina, vi um casal que fomos nós, um falava frases do sachê de açúcar para o outro e recebia de volta um punhado de promessas no mexer cósmico dos olhos encantados. E depois, chorei.

Um sachê de açúcar numa sexta qualquer, os vincos que seu sorriso faz aparecendo noutros rostos. A cidade está cheia de você, eu estou enchendo a cidade de sua sombra.

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

dO QUE PRECISA A SOLIDÃO - por Vinícius Linné

Ela não entende, mas é preciso muito mais do que presença para acabar com uma solidão. É preciso de uma música que a aumente, de um vinho que a entorpeça e de um lugar afastado em que só a lua a ilumine.

A solidão precisa de uma cama, de lençóis limpos e de uma noite sem sono. Ela precisa do cheiro de velas e de ter muito em que pensar.

Ela precisa de um sonho que não vai se repetir, de cartas de tarô rasgadas, de um passado qualquer e dos arrependimentos certos.

A solidão precisa que se ande pela casa de madrugada, que se pegue na geladeira um copo d'água e se beba enquanto se olha pela janela, enquanto se ouve só o silêncio da cidade para sempre adormecida.

Ela não precisa de consolo, de afago, de uma poesia qualquer. Ela precisa ser. Ela precisa existir até o fim, sozinha. Ela precisa vagar, pensar, ver. Ela precisa ser amplificada até os limites da dor.

Ela precisa se nutrir, crescer, se reproduzir. Ela precisa do vento no rosto, do silêncio da noite, da indiferença de alguém, da madrugada toda.

Ela precisa da mesma música tocada em repeat, da consciência de que o sol demora a nascer, de uma mensagem que jamais foi respondida, de um e-mail que jamais será enviado e de um amor. Um amor que nunca mais será. Nem esquecido, nem vivido.

A solidão não precisa de alguém, meu amor. A solidão precisa de mim.

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

dOMESTICANDO SEMÂNTICAS - por Simone Huck


"oculto", 2013 - Simone Huck


Ando com transtorno obsessivo por uma palavra nova. Abro gavetas. Vasculho dentro dos sapatos. Confiro bolsos antigos de calças jeans envelhecidas. Arranho o chão de uma língua muda. Minha busca é morta.

Deve estar guardada em algum lugar de mim a consoante capaz de me escrever. Verifico frases escondidas debaixo das unhas. Nada. Nada. Nada. Nenhuma palavra nova para descrever ânsias velhas. A palavra que não existe está escrita em minha miopia?

Dentro da estante, desconfianças e medos empilhados. Esperanças que não vejo penduradas por pregos que não foram fabricados. Escassas felicidades desbotadas pelo tempo. Como encontrar uma palavra capaz de descrever não-seis?

Dilúvios de incertezas ácidas em água doce. Lágrimas são palavras líquidas. No rádio e na igreja a mesma saliva que cospe “eu te amo” também cospe “eu te odeio”. Onde compro uma palavra nova?
Dias incertos.
Essa palavra não deve existir.

A casa que não habito está limpa. Estou lendo todos os livros sem palavras. A biblioteca e a cozinha seguem organizadas. Meu coração é um armário branco repleto de prateleiras congestionadas, pendurado na cozinha laranja que não pintei.

O telefone e a casa seguem mudos. O gato que não tenho descansa em paz no meu pé. Mastigo pão de felicidade com café de tristeza. Tudo é uma dúvida que também não foi criada. Não sei mais se sinto.

Vou me casar daqui quinze dias. Estou levando uma mala cheia de dicionários para a vida dela. Nunca será tarde para encontrar uma palavra nova. Passagens compradas. Alianças compradas. Roupas na mala.

Vou me mudar para a vida dela e não volto nunca mais. Nem eu, nem a palavra nova.