terça-feira, 10 de setembro de 2013

vIDRO - por Adilma Secundo Alencar.

Anunciam a vida boa, a possibilidade de felicidade pode ser dividida, é possível fazer o mestrado, o doutorado em menos tempo, viajar, os amores são anunciados de dez em dez minutos numa tela fria e a mulher linda, carinha de tela de tevê, agora conversa e marca, não, anuncia mil festas numa tela azul, anuncia inclusive sua solidão acompanhada de dez curtidas e 2 comentários. O homem chora, a morte chegou numa carruagem suicida e a moça da televisão relata o acontecido com a mesma expressão da moça que anuncia a venda de geladeiras a preços reduzidos. O cuidado com o corpo e a adoção de uma alimentação saudável é a grande receita para vencer o tédio, e a vida só precisa de você para completar o quadro da alegria do comercial do dinheiro, lésbica, ateia, amarela, negra, branca, banguela, maneta, caolha pague e leve, tudo custa o seu suor cotado ao dólar do dia e o PF no centro velho sai por R$8,50. Comam todos da mesma angústia dos trens e dias lotados, a oferecer os sete dias para uma janta mais cara e uma transa rapidinha, um cinema sem pensar e algumas frases prontas após o café com pão de queijo e voltamos para o quarto de dormir..
Bombas de efeito moral tem efeito nos olhinhos de Ana que só queria o Smurf do Mc Lanche Feliz, mas seu pai, Brás, dizia da luta democrática e do papel do homem na mudança, segunda vez que mudaram de lar naquele semestre, um estudante perdeu o olho que em tempo real foi filmado, fotografado e curtiram e compartilharam, uma luta de cliques e teclados, telas de indignações. E sobre a pele da palavra só há cicatriz, só há furo no olho, fuzil no peito e nó cego.
Meu nó na garganta já não amarra nenhuma certeza.


segunda-feira, 9 de setembro de 2013

a ESPERA DE BERENICE - por Vinícius Linné

'Wainting' by Marta Syrko


O calor invade o quarto e aumenta a fúria até sua última grandeza. Não, ele não vem. Ele tem muito mundo a devorar para se perder no quarto quente de Berenice. Ele não vem, como não veio das outras vezes. Mas essa é a última, jura Berenice, a última.

Quantas vezes ela fizera o mesmo ritual, quantas vezes as velas queimaram invernos e verões, só esperando que ele viesse? E ele veio? Não. Ele tem outros interesses, outros amigos que mentem o quanto ele é bom, outras vadias que o fotografam até o último aplauso fingido. Ele não vem e o vinho, o vinho é seco.

Ele deve estar em outra festa, em outra pose, em outra garrafa de cerveja ruim. Ele deve estar iluminado pelas luzes que piscam e piscam e piscam, sempre na mesma intensidade.

Intensidade, isso era tudo que Berenice podia lhe oferecer em troca.

Sim, em troca das festas, das farsas e do mundo, ela lhe oferecia sua própria intensidade, sua imensidão por trás dos olhos marrons. Ele achou pouca a troca. Ainda se os olhos fossem azuis... Não eram. Ele preferia o enjoo do outro dia pela manhã, do que os mistérios de Berenice estendidos sobre o cobertor. Ele preferia um amasso mal dado num banheiro (filmado por terceiros), do que um poema cafona de amor no travesseiro.

Ele era desses. 

E Berenice, Berenice era dessas que esperam, mesmo sem qualquer esperança, serem amadas algum dia.

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

aNJO - por Simone Huck

"The betrothed and Eiffel Tower", 1913 - Marc Chagall

Você me via por dentro. Elogiava meus dentes, pele, mãos e ossos. Com seus dedos longos, ajeitava meus cabelos atrás das orelhas e pedia um abraço. Sentia sede quando via minha nuca. Fome quando tocava minhas coxas. Azia quando cochilava em minhas costas. Você se lambuzava imaginando meu interior. Minhas vísceras em seu prato. Veias. Músculos. Ossos. Sangue. Sempre fui uma superfície atormentando seu existir.

Perguntava, como um psicanalista calmo e carnívoro, o que tinha dentro do meu coração. Queria lamber o suor das minhas palavras. Eu, inocente e boba, verbalizava meus sentimentos todos. Um por um. Você salivava. Puro disfarce. Pura encenação. Enquanto preparávamos o jantar, media minhas costas e anotava minhas dores e alegrias em sua pele com a ponta da faca. Descia os pratos do armário e imaginava meu coração ali. Quente. Entre seu garfo e sua mentira faminta. Meu endocárdio mural dentro da sua boca. Você queria mastigar meu interior e beber sangue. Limpar meu baço em seu guardanapo. Meu encéfalo liquefeito em seu copo.

Antes de dormir, catalogava cada mancha do meu corpo. Me revirava separando sardas e pintas. Dizia que eu era sua constelação. Eu, boba, achava graça e nem suspeitava. Sentia cócegas com a ponta dos seus dedos tocando meu corpo todo. Você tremia com a contagem. Queria dissecar minha cavidade torácica e abdominal até encontrar uma sombra sua que pudesse estar ali, na minha topografia incompreendida. Engolir cada sentimento. Todo meu interior. Tudo. Minhas pintas em seu intestino grosso.

Você nunca encontrou a régua capaz de medir alguma coisa em mim que fosse sua. Ou, uma balança capaz de pesar o que eu carregava por dentro. Tudo era apenas um gosto amorfo dentro da sua boca. Uma vontade atormentada nas unhas. Doença que invadia seu corpo febril cada dia mais esgotado de mim. 

Naquela noite, o jantar ficou pronto mais cedo. 

terça-feira, 3 de setembro de 2013

sOLAR - por Adilma Secundo Alencar.

Há jornais, meu bem, cheios de notícias que não quero ler.  Letras garrafais e interjeições suicidas antecipando meu enjoo de todo o excesso, dentro de mim um tumulto grita, quantos silêncios são necessários nas nossas pausas diárias?
Solar, domingo solar pingando gotas de laranja no vidro de meu copo de café, um copinho vagabundo desses que veem com molho de tomate, meu café quente, primeiro gole dessa manhã escandalosa de primeiro de setembro, volto à cama e vejo sua beleza tão solar como esse domingo que deus fez. Seios nus e plácidos, mãos mansas, unidas segurando um rosto amassado de quem não quer acordar. Nossa casa com poucos móveis e muita festa. Meu alumbramento perdoado diante de sua poesia em carne e água, em flor e mato, sua poesia enervou meu sangue e o céu pintou nuvens para dar amor também aos outros. Pego seu celular que grita o desespero dos relógios e afasto de nosso quarto a ameaça do mundo.
Cílios, pés, pescoço, cabelos, nuca, todo canto onde me encontro é pedaço seu, colo, lágrima e anúncios de felicidade.
O mundo está em guerra e meu bem querer ameaça o tédio e a preguiça, um domingo pode forjar algemas nos nossos desejos. Fico com o silêncio que o cheiro dos seus cabelos alimenta, quando a tarde horizontal e alaranjada me traduz uma inflamação no peito, é seus olhos tristes meu refúgio, minhas mãos, meu delírio e porto. Sou pequeno e o medo quer tomar minha preguiça por desespero, nessa peleja de sertão e cimento é na cama o palco de meu choro, é quando você cresce e um metro e setenta é o  tamanho de minha dúvida de ficar ou partir.
Minha semana vai se abrir em notícias de azaleias contentes, gerânios melancólicos e petúnias espevitadas, porque você veio. Seu organdi lilás é menos um cachecol do que um curativo para meus olhos cansados das revistas.

As crianças nascem cobertas de sangue, já anunciam nossa sina de choro e milagre, vamos milagrar, meu bem, nosso medo também é nascimento. É um milagre que vencendo o nojo das notícias, a dor dos indigentes, a angústia dos doentes à espera do fim, ainda aconteçam encontros grandiosos como esses que explodem em saliva e sexo e deslumbre desses nossos olhos se misturando aos raios dessa manhã tão milagrosa como recém- nascidos estranhando a linguagem já dita, bem dito seja nosso estranhamento.

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

aS VONTADES QUE VOCÊ ME DÁ - por Vinícius Linné

Você me dá vontade de escrever. Mas eu não posso lhe culpar por isso, posso? Posso tanto quanto você pode me culpar pelas vontades que me dá. Vontade de escrever é só uma delas.

Tem a vontade de ser você. De ter a sua solidão - maior do que a minha. De olhar as coisas por dentro dos seus olhos, ver no espelho outro rosto (e também não gostar), de aprofundar o escuro da alma e de ter escrito a dança das águas.

Tem a vontade de ver você. De beber um café ao seu lado, de sorrir e lhe ver esconder o sorriso por conta de uma falha nos dentes. De falar sobre o tanto em comum e suspirar num mesmo tom dobrado.

Tem a vontade de ter você. De tirar roupas, acessórios, medos, vergonhas, sensatezes, de engolir e ser engolido pela mais pura volúpia que há tempos marina (em ti).

Tem a vontade de perder você. De ir embora depois de muitas noites e sumir, só para poder sentir tua falta, só para olhar pela janela do apartamento e ter a vontade intensa de me jogar.

Tem a vontade, por fim, de escrever você. De te criar dentro dos meus meios, meus textos, minhas poesias de rima ruim. Vontade de te colocar entre meus dedos, expurgando meus medos e fazendo o que eu quiser de ti. Vontade de ora te fazer protagonista, ora cadáver. Ora reticências... ora ponto. E bem final.

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

o HOMEM QUE FABRICA ELEVADORES - por Simone Huck


Não há crônica inédita hoje. Mas tem essa aqui, escrita há um ano e que fala sobre o homem mais especial e enigmático da minha vida: o HOMEM QUE FABRICA ELEVADORES. 
Boa leitura e até semana que vem. 
Huck


Entro no meu carro e ainda não amanheceu. É segunda-feira e tudo parece estático. A vida pendurada na previsibilidade de um prego invisível e rotineiro. Antes de sair procuro uma música no iPod, a trilha sonora que abrirá mais uma semana de sono e cansaço. Penso nele. Ele não combina com meu iPod. Eu não combino com o mundo. Talvez ele não combine com nenhum dos dois.

Eu passava dos 30 quando, num domingo despretensioso, ele beijou pela primeira vez a minha testa e disse “eu te amo, minha filha”. Ali, ele salvou minha vida. Resgatou de uma só vez sua ausência brusca, bruta, pouco lapidada. Eu e meu pai somos dois desconhecidos que se amam. Ele é um homem calado, pouco sei dos seus segredos. Ele pouco sabe dos meus. Nossos silêncios gritam.

Ligo o carro. O iPod toca uma música calma, quase calada. Continuo pensando nele. Uma lágrima quer saltar dos meus olhos. Uma vontade de gritar. Uma traqueia oclusa no tempo – meu e dele.  Uma consciência tão exata de que depois da sua morte, eu não serei mais eu. Eu não terei mais ele. Ele não terá mais ninguém.
Durante a madrugada, no pouco dos sonhos que consigo lembrar, ele morria. Sou uma pessoa que não lembra de nada quando acorda. Mas ao abrir meus olhos de lágrimas, ali estava ele. Algumas realidades aguardam o momento infalível de estrearem no palco dos nossos dias. Às vezes, a vida é um anúncio gritante em outdoor. 
Procuro pelos meus olhos no retrovisor do carro. Encontro minha covardia. Um dia ele não mais estará ao alcance do meu abraço.

Tenho quase 40 anos e poucos medos acumulados. Logo cedo o seu silêncio áspero me ensinou a não temer a vida. Ele não me emprestou um dos seus elevadores pra que eu subisse ou descesse com segurança. Disse pra eu fazer tudo usando cordas, escalando o bem e o mal. Hoje muita coisa mudou. Deixamos de ser tão silenciosos em nossos encontros. Há poucas sombras entre nós. Há muitas sobras. Hoje quem o leva ao médico sou eu. Sou eu quem escolhe a armação moderna dos óculos que ele usa. “Pai de artista deve usar óculos de artista”, brinco, enquanto o faço comprar uma armação preta e amarela. Ele sorri e me pergunta se está bonito, só depois que garanto o sim, ele saca o cartão e paga a minha escolha para os seus olhos. Hoje é ele quem precisa confiar em mim. Hoje sou eu quem anseia um outro beijo em minha testa antes da sua fria partida. 
Nos últimos dias abraço o desespero diário da sua ausência. Sofro calada um futuro próximo que mudará nossas sombras.
A morte é a única certeza da biografia.

Desço do carro e chego ao trabalho. Aperto o botão do elevador e ao entrar, procuro ávida a marca do equipamento. Sorrio. Ali está as mãos do meu pai. Estou salva naquele cubículo de metal. Meu pai é um homem que fabrica elevadores. Em seu ofício de garantir a subida ou a descida do coletivo anônimo.
Cresci procurando pela cidade os elevadores que ele criou. E quando entro em um que não há as mãos dele, não me sinto segura. Sempre tenho medo de cair. Sempre acho que alguma coisa não vai dar certo e a claustrofobia fica perto de mim na subida incerta. Só nos elevadores feitos por este homem é que me sinto livre.

O elevador sobe macio enquanto leio as quatro letras que compõem o nome da empresa das suas caixas de metal. As últimas duas letras também estão no meu nome: “IS”. Pura coincidência. Aposto que meu pai nunca pensou nessa relação. Sou eu quem precisa da segurança dos seus elevadores. Ele só precisa da minha segurança em aquecer suas mãos enquanto o levo ao médico.
O elevador chega. Sou a última a sair. Procuro mais um pouco do seu abraço metálico. Ali, sempre estarei segura. 

Olho a cidade cinza, mais um dia nasce. O homem que fabrica elevadores também já está trabalhando. Sorrio. Do meu lado a certeza de que passarei a vida inteira notando todos os elevadores só pra saber se foi ele quem fabricou. Só assim saberei que as pessoas estarão a salvo quando subirem ou descerem. Eu também estarei. Sim, meu pai é um homem que fabrica elevadores. Os melhores elevadores do mundo.

Décimo sétimo andar. Portas em perfeito alinhamento se abrem. Posso começar a escalar o dia.

terça-feira, 27 de agosto de 2013

mEU PESAR - por Adilma Secundo Alencar.

Seja agora. Eu já não posso sem você. Todos os dias eu engulo uma lua sentindo seus seios em minhas mãos e um buraco na memória faz vertigem e enjoo no meu estômago.  Eu não quero discutir política, Barthes, eu também sofro desse cansaço de um mundo estúpido, entupido de palavras sem pensamento. Eu quero o silêncio de água do teu sexo, tua raiva me rasgando a roupa. Sem você eu não sei chorar. Eu não fumo, não bebo. As flores estão chegando e setembro é o mês que te veste. Vem nua para nosso pequeno inferno de amar. Esses bares todos da cidade de São Paulo só esperam nosso encontro escandaloso. Não há traição, tampouco namoro, os filmes desse semestre são estúpidos e burgueses e meus livros velhos estão inflamados de poesia com teu nome, não demora não, é fácil enlouquecer sem amor. Eu ajeitei minha cama e corrigi minha sintaxe para não reprimir teus instintos, vem com esses olhos chorosos que me devoram antes de tua boca. Entre teu choro e minha raiva, meus dentes e tua língua, vem fazer verbo do que é substância, seja com essa linguagem obscura que nossas palavras não alcançam nem alimentam.
O meu armário guarda suas revistas e aquele álbum do Noel nunca mais tocou, os sachês de chá apodreceram esperando tua sede e eu guardei a forma de pudim.
Eu comprei xícaras com seu tom de vermelho e engravidei três vezes durante sua ausência, sem você sou menos gente. É desesperador o barulho do relógio sem o teu sorriso ao entardecer, sem o teu corpo nu junto ao fogão me fazendo café, seus reclames das notícias de jornal e sua impaciência com meus carinhos.
Me deixa  cuidar do teu corpo com a mesma devoção com que guardei teus traços nas minhas mãos e teu gosto na minha boca. Fica, é simples, vem para o espanto vadio do meu querer ajustado às curvas de meus desejos entre dedos e língua, sintagmas. Manoel de Barros me nina com suas formigas de corações líquidos, Bandeira me oferece café e putas bonitas para namorar, os bares se abrem para minhas mentiras moles, mas teus braços, teus braços onde estão? Todo colo nu, agora é calçada de concreto, e eu não durmo, eu anoiteço te querendo numa tara sem satisfação, numa fome cuspida em gestos cambaleantes engendrando mais rostos que sentimentos nos meus sábados.

O amor apodrece dentro de uma gaveta que é tua, uma gaveta fechada há cinco anos.