terça-feira, 24 de julho de 2012

a MORTE COMUM - por Dilma Alencar

Alguém, por favor, coloque de uma vez uma navalha no meu pescoço e sirva-se, ou use uma faca que tenha um cabo vermelho, ultimamente gosto de vermelho e laranja. Eu preciso tanto morrer. Nua com sangue entre os dentes, salivando ainda seu gosto. Estou lúcida como o diabo estaria, porque deus está bêbado e vendendo o amor nos bares e igrejas.
A morte será doce e colorida e não faltará verbo de ligação nas lembranças esquecidas depois de três chuvas. O anúncio de um sol entre os dedos, de um rasgo no vazio de sempre, na medida de tudo que pode transbordar eu não sei quanto de mim ainda pode morrer.
O afeto escorre de um olhar perdido e doce, porque a vida está crua, nua, mas a morte não vem, a morte seduz as sombras que eu escondo. Traga a navalha, eu quero morrer nua, olhando para você. No fundo a gente se perde. 
Já não há sangue, nem corpo, os verbos dormem, os olhos não fecham, a paz eterna é prenúncio de uma guerra. Mate, mastigue e jogue no seu lixo essa minha sintaxe imprecisa de quem perdeu. Meus verbos entre seus dentes podem alegrar o finalzinho de luz que me resta, a vontade de morrer esfria minhas mãos e descompassa meu ritmo.
Antes da navalha, gostaria que minhas palavras, ralas e saudosas, virassem lágrimas, eu também preciso de lágrimas teimosas escorrendo no meu batom vermelho, borrando essa  maquiagem que nem é minha. Quero tanto virar uma nuvem.
Há tanta vaidade vã em desejar a morte, como se uma faca, um punhal, uma navalha, uma corda, afirmassem uma vontade, como se num repente, por pura arrogância minha, eu quisesse as rédeas desse caos todo que é a minha vida. Que diabos é a minha vida? A morte não é um espetáculo, é só uma ponte. Eu não sou ninguém, eu já morri. Não haverá espetáculo nenhum. Desçam as cortinas. Eu morri, sem faca, lençol branco ou corpo nu.  Foi de morte comum. Essa de todo dia.

6 comentários:

  1. Fábio Du Kiddy24/07/2012 02:11

    ...demais...muito bom...a sua escrita fica cada vez melhor...me delicio todas as vezes que eu leio seus textos!!! Vç é muito talentosa!!!

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  2. A inevitável morte diária, secando as réstias de tudo que ousamos sonhar.

    Querida Dilma, tive que ler QUATRO vezes sua crônica para conseguir algum tipo comum de digestão.
    Parabéns pelo texto.
    Bjs, S.

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  3. Este comentário foi removido pelo autor.

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  4. Ah Dilma... os teus textos e verbos. Lebrei-me dos escritos do colegial... Revelação rsrs o q será q ela quis dizer... leio mais uma vez, interpreto de acordo com a minha bagagem, mas sei que a autora vai muito além. Te admiro muitoooo
    Ultimamente ando meio afastada desse tipo de leitura, mas faz falta, sinto. Ultimamente.
    Vilma

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