sexta-feira, 19 de agosto de 2016

mONÓLOGO ANÓDINO - por Simone Huck

"Peace", 2014 - Santorini,  Simone Huck

Nossas palavras paraplégicas confundem-se enquanto caminhamos sobre as inúmeras flores dos ipês rosa espalhadas pelas ruas da cidade. Ruas coloridas vestem-se de flores mortas. Tudo se tornou tão dúbio de repente. Êxodo de pétalas e células que o vento e o sangue carregam para outros lugares. Um dia, perderemos o controle de tudo. Já perdeu, mãe?
Seu cabelo esbranquiçado e seco entre meus dedos. Quando eu era pequena, você me dava banho de sol e penteava meus cabelos. Tentava me proteger do futuro de flores mortas. Não deu certo. Claustro sem deus. O mundo nunca me pareceu tão pequeno. Deserto de paroxismo. As células nunca mais disseram nada que eu e você gostaríamos de ouvir. Está me ouvindo, mãe?
Enquanto caminhamos pela rua dos ipês, seu corpo magro sorri e sente sede. Você nunca perdeu o sorriso. Eu me tornei muito mais cinza desde que você ficou doente. Um copo de água para hidratar a cura que nunca existiu. Já parou uma gota de chuva com a ponta da língua, mãe? A mesma língua que sente as drogas, a fome, a fé e o céu.
Repouso meus braços em seus ombros e penso no quanto eu queria lhe salvar desses dias tóxicos. Disfarço. Guardo as lágrimas no oceano do meu casaco. Estou me tornando um mar estagnado. Já se afogou, mãe?
Atravessamos outra avenida que não chegará a lugar nenhum. Entramos no carro que nunca chegará ao céu. Vamos para casa. Você precisa descansar e orar. Você sempre ora. Já se passaram quatro anos desde que tudo desabou e você ainda ora. A oração me intimida. Talvez, meu terço surdo seja de plástico, como o fio transparente por onde desce a droga que invade sua alma e corpo cansados. Deus acredita em quimioterapia, mãe?

quarta-feira, 10 de agosto de 2016

eLE - por Adilma Secundo Alencar


Ele é de lá, eu sei que seu silêncio também é saudade. Sessenta e nove anos vivendo sobre as mesmas pedras cicatriza de algum jeito uma arquitetura de carne: amor, filhos nascendo, filhos indo embora. A promessa que fizera para sua mãe fora cumprida, nunca abandonaria sua terra enquanto ela vivesse, ela se foi no dia de seu aniversário, doze de outubro é mais que feriado, é aniversário dele, que não quer mais música alta nem bebidas nesse dia. Ele é diferente de seus irmãos, não veio para São Paulo ser metalúrgico na região do abc, ficou roçando a terra dos outros até comprar um pedaço de terra que chama de seu. Lá tem açude, a casa que ele nasceu, tem uma cisterna que na minha infância era lugar de brincar, foi lá que aprendi a dar nó no sisal e colocar na ponta de uma vara de caçutinga para capturar lagartixas. Ele me ensinou como enterrar manivas, me mostrou que fruta de incó é boi, boneca e comida, eu tive uma luva de couro para cortar mandacaru, antes de ler Vidas Secas eu sabia dos Fabianos, os sonhos de baleia eram sonhos de meu irmão que vivia no meio do mato procurando bicho, menos por fome do que por lazer.
Ele se atrapalha com as palavras, a televisão que ele tanto gosta nunca mostrou quem ele é, os nomes estrangeiros e os costumes urbanos não são seus, ele sabe o nome das aves que bebem água no açude, do nome das prensas, do forno e das formas de uma casa de farinha, ele sempre me traz esteiras de palha e novas havaianas quando volta lá de casa. Ele está aqui comigo, mas se agonia de saudade. O que fazer acordado antes das seis da manhã numa cidade toda alheia ao seu entendimento?
Se eu pudesse, para apaziguar sua saudade, eu lhe traria o som que o pneu de bicicleta faz em contato com a terra molhada, quando a gente desce uma ladeira sem apertar o freio, traria também o barulho dos pássaros de manhã, um sofrê cantando no galho de uma jurema, traria o brilho de uma enfieira de peixes recém pescados, sei que ele gostaria também de receber o cheiro do curral, o barulho do leite na lata de alumínio, os sons de seus filhos ainda pequenos, as tarde de tanto amor e silêncio com seu bem, o barulho do dominó na mesa ,entrecortado pelas vozes que há décadas lhe são amigas.Ele é uma fortaleza, lá, é dono dos seus olhos e pernas, dirige uma moto e sua própria vida, conhece cada árvore do itinerário de casa até a sua roça.Seu eu pudesse encurtaria as lonjuras entre aqui e lá.

quarta-feira, 3 de agosto de 2016

aMOXICILINA + cLAVULANATO DE POTÁSSIO - por V. Linné

37.

Febre. Todas as noites. Uma infecção de lugar nenhum. A médica a apalpar gânglios e glândulas. Nada. Talvez sejam as amídalas, ela arrisca. Talvez.

Amoxicilina + Clavulanato de potássio.
1 cp de 12 em 12 h.

A Amoxicilina é pó cristalino, branco, de massa molecular 419,45 (isso é muito importante, me parece), levemente solúvel em água, álcool metílico e álcool etílico; praticamente insolúvel em tetracloreto de carbono, clorofórmio, éter e óleos fixos (para o caso de você tentar dissolver os comprimidos em clorofórmio e não dar certo). Por ser um antibiótico beta-lactâmico (e não tetra-lacônico ou hepta-lacaniano), atua destruindo (microscópicas explosões dentro de mim!) a parede (demolições) das células bacterianas, pois se une a uma grande variedade de proteínas responsáveis pela síntese de enzimas que alimentam bactérias infecciosas, deixando-as sem ação (petrificadas, mudas, hirtas, boquiabertas com o assassinato em massa, o genocídio espectral que, de repente, começa, graças a algo com massa molecular 419,45 e praticamente, praticamente, indissolúvel em clorofórmio).

O Ácido clavulânico (utilizado farmaceuticamente na sua forma de sal de potássio, chamado de clavulanato de potássio) é um fármaco que age inibindo a ação das beta-lactamases (não das hexa-Larousses, óbvio) que são enzimas responsáveis pela perda de ação de algumas classes de antibióticos. O ácido clavulânico acaba funcionando como um agente protetor do antibiótico (benditos escudeiros, dentro de mim, Sanchos Panças em batalha), protegendo-o do ataque da bactéria resistente aos antibióticos. Trata-se de uma associação medicamentosa que propicia uma ação combinada para combater bactérias patogênicas resistentes (elas resistem. É dura a batalha).

38.

A bactéria atacada pela amoxicilina.
A bactéria tentando atacar a amoxicilina.
O clavulanato, galante,
impedindo os ataques do segundo tipo.
Tudo dentro de mim.
Os corpos,
numa trilha de pus,
boiam
em lugar nenhum.
Dentro de mim.

Não eram as amídalas então.

39.

Meu sangue é vermelho e grosso, como um bom sangue deve ser. Ele escorre para fora das veias com pressa e se não fosse o algodão que a enfermeira rapidamente aplica sobre o buraco aberto pela agulha, tenho certeza de que ele escorreria todo, empapando o chão do hospital. Ele é ansioso. Ele quer ver mundo, ele mal se contém nos muitos tubos de ensaio. Ele não é um sangue que queira ser esmiuçado, examinado, lido nas palavras científicas dos homens de bem e de branco. É um sangue propenso a tragédias o meu. Quer escorrer de preferência na rua. E aparecer no jornal.

40.

Em uma semana os exames ficam todos prontos. Como se eles adiantassem. Como se a febre não subisse, a me devorar. Toda ela vinda de lugar nenhum. É quando eu perco mais três quilos. São quase dez já. É quando eu tenho, também, uma ameaça de convulsão.

Os exames são mapas astrais. Só os iniciados sabem decifrá-los. A médica mergulha neles, traça linhas, desenha retas, tira e coloca os óculos muitas vezes, como se isso lhe ajudasse a pensar. Ela emite grunhidos de entendimento. Ela quer me dizer alguma coisa. Qualquer coisa. Eu leio em seus olhos, ora com óculos, ora sem, que ela ficaria feliz de me anunciar até qualquer morte prematura. Um câncer, quem sabe. Qualquer tentativa de me diagnosticar, de me conter, de me explicar.

Mas meu sangue é feito para mais do que isso. Ele não me revela fácil assim. Ele me pulsa forte nas veias quando escuta que os exames não mostram doença alguma. Apenas, quem sabe, um princípio de anemia.

41.

ERITOGRAMA
                                 RESULTADO            VALOR DE REFERÊNCIA
HEMÁCIAS.........:  4,45 mi./mm³    4,1 a 5,7 mi./mm³
HEMOGLOBINA......:  13,20 g/dL      13,5 a 17,5 g/Dl
HEMATÓCRITO......:  40,00           38,00 a 50,0 %
VOL. GLOB. MÉDIA.:  89,89 fL        80,00 a 95,00 fL
HEM. GLOB. MÉDIA.:  29,66 pg        26,0 a 34,0 pg
C.H. GLOB. MÉDIA.:  33,00 g/dL      31,0 a 36,0 g/dL

42.

A hemoglobina (frequentemente abreviada como Hb (o que, para mim, faz muito sentido)) é uma metaloproteína que contém ferro (indispensável em qualquer guerra) presente nos glóbulos vermelhos (eritrócitos, caso você os conheça somente assim) e que permite o transporte de oxigênio (tudo respira) pelo sistema circulatório. Composta de 4 moléculas proteicas de estrutura terciária e 4 grupamentos heme que contém o ferro, cada íon ferro é capaz de se ligar frouxamente (com descompromisso, em um relacionamento apenas casual) a dois átomos de oxigênio, um para cada molécula de hemoglobina. (As minhas se descontrolaram então. Não há moléculas suficientes. Sobra oxigênio perdido. Ele não é levado para lugar nenhum. É nesse lugar nenhum que me inflamou algo, algo que nem a médica, nem os exames sabem dizer).

43.

Mas eu sei. Com a febre em 43 graus eu sei como chegar lá. É passando pelo buraco da Alice no muro. É atravessando o caos das cidades desertas, todas elas explodidas na última hecatombe. É seguindo pela devastação, pelo verde que agora violenta os prédios, os shoppings, as lojas onde manequins de marca se atolam no inço bonito e florescente. Eu sei. Eu sei atravessar as ruas desertas, olhando o céu com o mesmo verde pálido que ele tem desde que quase tudo morreu. Eu sei olhar os cervos de duas cabeças, bebendo nos lagos amarelados, sem me enregelar, fazendo até carinho no focinho dócil e dando a morder a outra mão por aquele que parece vindo do Hades.

Mas eu sei. Sei cruzar sobre corpos, desatolar minhas botas Sandro Moscoloni dos crânios putrefatos, arrancando brincos de pérolas do solado, como se fossem tachinhas sem importância e não o presente que Ludmila ganhou em sua festa de 15 anos no Gran Palazzo. Eu conheço o mapa, a rota. Pela primeira vez, eu, que sou todo desorientação, sei para onde ir. Sei de onde vem a inflamação, a febre, o ladrão de Hemoglobina que vive dentro de mim.  Sei onde fica aquela casa. A de quartos trancados, de paredes mofadas, de janelas lacradas e de café ainda frio, vertendo, em movimento eterno, de cima da pia. Eu sei que as samambaias, as mesmas que jogamos fora, renascem no lixo, indomadas.


Mas eu sei. Eu sei porque quando vou chegando perto ouço a música tocar. Um blues ainda mais triste só porque contrasta com as gargalhadas das outras duas. Sentadas em suas malas, dentro de mim, elas me esperam chegar para quebrarmos a porta da casa. Perdemos as chaves, todos os três. Mas elas me esperam e riem. Esperam e me abraçam tanto quando eu chego, que me sinto enfim amado. Amado pelo que eu sou: letras apenas. Letras aqui. E então eu compreendo que não há clavulanato nem amoxicilina que me sarem. Não há hemoglobina que me defina. Para a minha doença não há nem causa, nem cura.

Há a febre.
E ela é crônica.


Estamos de volta.

sexta-feira, 27 de junho de 2014

dIPIRONA - Por Vinícius Linné

Nós prometemos muito a ela. Prometemos cuidar das fundações, manter as plantas vivas, regar as samambaias e deixar o café sempre quente. Por um tempo funcionou. Mas somos distraídos demais, acabamos trancados em nossos próprios quartos. Cada um em sua janela, cada um com suas dores e ilusões e amores. Cada um mais mudo que o outro.

Mudos mudamos. E a casa também.

O mofo cresceu, as rachaduras voltaram, as janelas foram quebradas sem que nenhum de nós ousasse trocar os vidros. As samambaias morreram, o café esfriou e a vontade de escrever nas paredes foi sumindo junto com as chaves que perdemos pelos bolsos.

Entre nós, a febre esfriou. E as febres não podem esfriar, não quando são crônicas.

Por isso, um dia nos flagramos na sala, de martelos e tábuas em punhos, ambos com a mesma resolução. Era hora de lacrar janelas e portas, jogar fora cartas e plantas, admitir que sozinhos não era nossa a casa. Era hora de sair dali, seguir cada um o rumo que sua janela mostrava e deixar a casa assim, lacrada, esperando, para o caso de algum dia haver volta.

terça-feira, 24 de junho de 2014

dIZER - por Adilma Secundo Alencar.

Com tua mão na minha: atravessar faróis, ver a novidade de abrir um livro novo, conhecer lugares, fazer café enquanto você me lê seu conto preferido da sua escritora preferida. Enquanto mulheres geram filhos, meninas moças debutam, pedreiros empilham tijolos amarelo ocre, médicos receitam  comprimidos brancos e amargos, agricultores arrancam raízes da terra fofa, putas se enfeitam, enquanto o sol se exibe para os homens sãos,enquanto a vida velozmente explode em tons de vermelho, eu aqui vadiamente ocupada ensaio um outro jeito de também narrar as coisas todas que você comove em mim.
Enchendo meu abraço de calor e pressa, eu já não sei mais do resto do mundo, porque o resto do mundo não tem um convite como o seu,todo em lábio escarlate e perfume de nuvem.
Eu não quero sair de dentro dessa áurea febril.Eu quero gozar o contínuo de nossos corpos se querendo, eu estou querendo dizer as coisas que nenhuma palavra alcança .

quinta-feira, 19 de junho de 2014

cARTA DE LILA - por Vinícius Linné

Eu sabia, do primeiro Oi ao último Eu te amo, eu sabia que era mentira. Eu sempre soube que você mentia para mim. A novidade, meu amor, é que é preciso duas pessoas para mentir, uma para fazê-lo e outra para acreditar. Eu não o culpo. Eu quis acreditar.

Eu quis acreditar que era importante para você, que era a única, que era a felicidade encarnada em pele branca e lábios roxos de frio. Eu quis acreditar que seríamos felizes, mesmo sabendo, palavra após palavra que você mentia. Eu sempre soube. Era algo na sua pele, na sua aura, no modo como seu sorriso travava seu rosto, nas micro expressões que eu lia pelos espelhos.

Mas sabe, meu bem, a verdade é que eu menti também. Uma mentira só, pequena. Minha mentira foi fingir que acreditava em você. E foi preciso, meu amor, foi mesmo preciso. Sem essa minha mentirinha você jamais abriria a guarda, jamais entraria em mim. Não você, não com tantos princípios e tantos ideais. Não você com suas paixões e poesias. Por isso eu menti. Se não mentisse, jamais teria conseguido chegar perto o suficiente para assassiná-lo, como o fiz.

Perdoe-me, então, amor. Pela mentira.

Sempre sua,
Lila.

quinta-feira, 12 de junho de 2014

oLHOS FECHADOS - por Vinícius Linné

É de olhos fechados que escuto todas as músicas que eu teria feito para você. Pálpebras pesadas, escuridões oculares, outros modos de ver, dessa vez por dentro. É por dentro de mim que você acontece. Suas palavras, seu cheiro, seu toque, seu calor, seu gosto. Tudo é por dentro de mim e só posso vê-la de olhos fechados. Bem fechados.