segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

dE QUE SÃO FEITAS AS PEDRAS - por Vinícius Linné

"Ághata" por V. Linné


Ághata é uma boneca de sabão, mas modelada em cigarro, rancor e cancro. Quem poderia querer brincar com ela? Ninguém, nem Ághata.

O cigarro é sua dose diária de autodestruição. A fumaça azul sobe e empesteia ares, mares e cabelos platinados, a turvar os pensamentos e a misturar-se à fumaça de cafés tingidos. Ela não se importa com o cheiro ou o gosto sempre de incêndio que a boca tem. Ela não se importa porque é toda ruínas depois do sinistro.

O rancor é a raiva triste que lhe corrói e lubrifica os mecanismos. É só de rancor que ela se mantém a funcionar. Suas veias incham e se dilatam enquanto um sumo verde e visguento as percorre. Ela odeia. Ághata odeia todas as coisas vivas e aquelas que ainda estão por se fazerem inventadas. Ághata também se odeia, até a raiz das unhas, vermelhas, naturalmente. E demonstra esse ódio. Meu Deus, como demonstra esse ódio, sempre pleno em seus olhos de boneca que se fecham verdes quando a deitam. 

O cancro é seu material mais precioso, sua joia, seu estigma. Ela tem orgulho dele e o esconde como a ostra oculta sua pérola. Ele é a sua prova, a sua indulgência, a razão de tudo, do rancor ao cigarro vagabundo. Vez ou outra ela rebrilha o cancro ao sol. Como para lembrar aos outros de que ela é mártir das culpas alheias. 

Ághata é uma boneca de sabão, mas modelada em cigarro, rancor e cancro. Quem poderia querer brincar com ela? Ninguém, nem Ághata.

Apesar disso, compraram-na na loja. Apesar disso, colocaram-na dentro de uma casa de bonecas, toda branca e brilhante. Apesar disso, deram-lhe outro nome e roupas novas. Apesar disso, arranjaram-lhe uma marionete por marido e um bebê por filho. Apesar disso, deram-lhe vida. Sim, bastou um Sopro de fumaça e a boneca fez-se carne.

Carne, cigarro, rancor e cancro, o mesmo material de que são feitas as pedras.

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

sUA CASA - por Adilma Secundo Alencar.

Foi numa tempestade que tudo começou. A virtualidade me apresentou à sua poesia de semântica aguda, os meus olhos correram velozes nas suas esquinas sintáticas e suas letras me levaram às suas lentes, embrenhados ali naquele canto virtual, os signos do recorte e do corte escorrendo uma melancolia enquanto passava café.
E depois, a avenida, a rua, o aconchego de uma casa febril, onde me apresentou um hóspede menino e homem, lírico e triste na sua alegria de amor e serenidade. 

Ela recortou uma parte minha e eu apareço para cuidar da casa que ela ergueu, com o cuidado que eu não teria, ela pintou as portas, mediu os espaços e abriu a casa como uma tesoura corta um pedaço de seda, num rasgo suas letras nos trouxeram estrias de uma cidade inchada, rosas murchando, brotando,suicidas nus no trampolim insensato da paixão morta. Pelas suas lentes um homem levando uma carroça se agiganta levando o dia, levando o mormaço do desespero, deitado no concreto que a criou, os homens saltam gigantes, os guarda-chuvas pulam, bailarinos da garoa.

Seu olhar descortina uma cidade que é só dela, e suas letras tempestivas arrastam mulheres e edifícios. 

Nessa casa,eu e ele esperaremos por ela,zelaremos de suas escolhas e ansiosos,esperaremos que ela volte,rasgando tudo como arma branca.

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

a CASA - por Vinícius Linné

"Paradigma" por Simone Huck
Foi pelo riso que viemos. Viemos por ruas esfareladas, a avistar um horizonte no qual o sol estava sempre a se pôr. Viemos por desconstruções, sem vê-la, confiantes apenas. E silenciosos. Meu Deus, como viemos silenciosos. Vez ou outra nos olhávamos e sorríamos, mas nunca nos falamos enquanto estávamos em meio aos escombros.

Talvez fosse medo.

Medo de, ao falarmos, desfazermos o riso que nos guiava. Medo de desmoronar os restos de prédios, de arrebentar os últimos e solitários fios que ainda se agarravam a alguns postes. Medo de que os cacos se partissem se alguma coisa disséssemos.

Nada falamos e o riso nos trouxe para a única rua em que ainda existiam árvores. A única casa com um riso dentro.

O riso bom era estampado nos papéis de parede, bordado nas cortinas, enferrujado nas panelas cheias d’água de chuva, incrustrado nos azulejos, cascateado chuveiro abaixo e pingado sem parar na banheira branca.

E então ela, dona da casa, dos caminhos e do riso, estava lá, braços abertos, espalhando beijos, recolhendo malas e servindo cafés fortes.
"Café do ponto" por Simone Huck

Meu quarto seria esse. O de minha companheira de viagem seria aquele. Café bom quando bem quiséssemos e papéis em dias certos, sobre as escrivaninhas, nos quartos. E nosso riso se imiscuindo ao dela, contornando móveis e criando pássaros para as quinas das árvores.

De repente, porém, a casa começou a ficar muda. O riso que nos trouxera foi, aos poucos, substituído por uns suspiros. Suspiros que infiltraram pelas paredes, a desenhar rachaduras e a fazer poças no carpete. O início do silêncio nos mantinha em um permanente arregalar de olhos, com medo de termos que abandonar o verde e voltar ao âmbar e à areia das ruas.

Tateamos por toda casa, mas não havia como colocar a mão no lugar exato em que lhe doía. Os suspiros vieram fundos e chegaram até a porta da frente. Foi então que ela, a dona da casa, dos caminhos, do riso e, agora, dos suspiros, deixou-nos na mão a chave de prata. 

Seria egoísmo pedir que ela ficasse.
Seria egoísmo deixá-la partir.

Entre dois egoísmos, respeitamos a compaixão dela.

"Chuva" por Simone Huck
Como fechar tudo e partir com ela, se ela tinha caminho e nós não? Como deixar a casa, se as videiras que ela plantou morreriam sem nossa água e atenção? Como deixar as pilastras caírem e as paredes tombarem, se ela teve tanto trabalho para erguê-las?

Ela fizera o refúgio por nós, construído de riso e dor. Se agora era nossa a chave, só nos cabia continuar. Com riso e dor. Sim, abriremos as portas nos mesmos dias marcados, para construir ninhos do que ela deixou. Aconchegaremos papéis e prantos, sentimentos e cafés prontos, mantendo a lareira acesa, sempre acesa, para que tudo fique na temperatura exata de febre. Febre Crônica.

Continuaremos a rir aqui. Um pouco menos alegres, é verdade, mas com a certeza de que nosso riso a guiará de volta. Nosso riso a encontrará no momento certo, varrendo montanhas, passando por pontes caídas, contornando  concretos desfeitos, como o riso dela fez um dia, até nos encontrar. Que nosso riso a encontre e que ela venha caminho afora, que ela venha embora. Embora para sua casa, Simone.

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Esse texto de caminhos é recoberto de carinhos e homenageia a ela que criou essa casa e nos trouxe, Adilma e eu, até ela. Sim, é um texto de despedida. A partir de hoje, Simone recria outros refúgios e nos deixa de responsáveis por este. Que possamos cuidar de tudo, fechar as janelas quando houver vento, não mexer no gás nem na luz, trancar bem à noite e deixar as plantas vivas até ela voltar, pronta para um café.

"Mutante e insensato" por Simone Huck

terça-feira, 31 de dezembro de 2013

dESFRUTE - por Adilma Secundo Alencar.

Rompeu o musgo daquelas noites desesperadas e explodiu em dentes, lábios e olhar, o rosto redondo era só sorriso de susto. Encontrou novamente seu prumo, menos numa cama e mais numa calma de sentir, ela agora já não quer laço, porque os nós atados aos pulsos quase arrebentaram sua força. Na passagem dessa noite ela vai dançar nua, apesar da roupa branca, da lingerie nova.Quem souber reparar melhor verá uma mulher nua,comungando uma paz íntima  que ninguém saberá  tocar, irão ouvi-la,vê-la, mas tocar ninguém alcança,ela já sabe seus próprios labirintos e sabe ruir, reger orquestras de passarinhos errantes,de flores miúdas e rosas de todas as cores.É uma mulher no visgo de sua juventude,de sua mordida, de seus mil motivos para morrer de paixão ou de raiva,seus mil motivos rasgam sua carne e explodem líquidos nos seus olhos redondos e bêbados da novidade do mundo.
E no rito de passagem, anseia um milagre, uma cor, uma seta para a criação do mundo, seu mundo. Ela comeu sete adjetivos no café da manhã, e cuspiu uns poemas na cara dos fracos, dos frágeis, dos delicados. Ela é um carnaval vermelho, as alegorias desfilam derrubando homens, encantando mulheres. Ela vai entrar no novo ano com os olhos livres, suas mãos abraçarão os anjos e os demônios, ela é comovida de amor e é de sua natureza lacrimejar amor. Molhou lençóis e lenços, esteve rente ao abismo, mas dançou ao som de um acordeom sentido, segurou mãos vizinhas e abençoou a noite de sorriso e reza.

Dançará poemas, cantos de sereia, voo de águia, tremor de terra, barulho de flor desabrochando, orvalho no roçado do sertão, falará a língua de uma planta brotando entre pedras róseas.

segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

pASSAGEM II - por Vinícius Linné

Como no ano passado, o bilhete está comprado. Haverá outra viagem, amanhã, com saída às 23h59min. Com chegada prevista às 0h00min do ano que vem. Outra viagem em que as malas precisam ser feitas, em que será preciso escolher o que levar de 2013 e o que deixar.

Vou fazer tudo igual. Vou me preparar bem, malas, bagagens de mão, passageiros que deverão me acompanhar, casaco para o caso de fazer frio. Vou fazer de conta que está tudo bem. Que deixei as mágoas e carreguei os quereres. Que partirei sem rancores, só carregando bendizeres.

Mas na hora. Ah, na hora...

Na hora em que o trem chegar, vou esperar ao máximo. Vou esperar para embarcar no último segundo. E quando o fizer, vai ser sozinho, soltando minhas mãos de quem as segurava. Sem malas, sem mazelas, sem ninguém. Vou entrar apressado e trancar as portas do meu vagão. Por ali nada passa. Vou arrancar as roupas todas. Não as quero. Nem elas eu quero levar além. Nem poeira ou grão de 2013 quero que fique em mim.

Vou, então, riscar o único fósforo que manterei comigo e atirá-lo pela janela. Vou incendiar as malas que ficaram na estação, previamente preenchidas de álcool, gasolina, poemas velhos e querosene. Que queimem. Que incendeiem bem. Quereres, ofensas, delicadezas e mulheres como as de  Laura Esquível. Que tudo queime. Que 2013 seja só uma luz vermelha, cada vez mais fria, conforme o trem se afasta.

Que queime, enquanto olho e bebo do champanhe mais caro do trem. Que o ano inteiro fique para trás. Que queime e enegreça, encolhendo suas bordas e se fechando em si. 2013 foi um desperdício.  Que o trem seja rápido o suficiente para que nem as cinzas carregadas pelo vento o alcancem. E sim, que só sobrem cinzas de um ano que foi também todo cinza. Que ao chegar à estação, em 2014, eu seja tão leve a ponto de voar para longe. Para longe daquela mancha enegrecida, daquela estação queimada, daqueles ossos e papéis velhos, devidamente carbonizados, que um dia eu chamei  de meus.


'To burn ones memories' by Kaia Pieters

"Y la noche que se incendia,
Y la cama que se eleva,
A volar…
And of the dark days
Painted in dark gray hues
They fade with the dream of you
Wrapped in red velvet
Dancing the night away
I burn…
Midnight blue
Spread those wings
Fly free with the swallows
Fly one with the wind"

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

aZEDO - por Adilma Secundo Alencar.

Os supermercados estão inchados de gente com fome de amor. O preço das ameixas sempre sobe nessa época. Hoje à noite muita gente vai se abraçar com remorso de amor que nunca saiu dos olhos e por dentro não vai sentir fome, vai sentir gosto de palavra azeda, de um sentimento coalhado. Escorrendo um medo de abraçar de verdade, haverá muitas velas e laços e quase ninguém vai dar as mãos.  Panetones caros serão servidos e numa praça da zona sul, o prefeito expulsou os viciados porque eles não combinaram com o verde e o vermelho daquela árvore reluzente. Um menino no interior de Sergipe está a essa hora da manhã trepado num umbuzeiro, porque é tempo de umbu e siriguela, disso ele sabe, disso eu sabia. Mas há o homem de roupa vermelha vendendo sonhos de bicicleta para quem não tem nem ambição, nem tamanho para sentir ódio.


segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

rENEGAÇÃO - por Vinícius Linné

Eu só consigo ter voz pelo outro. De mim as palavras não saem. Um  dia ainda engasgo de tanto que não tenho dito. Por isso coleciono aforismos, mensagens alheias que uso como legendas da minha própria vida. Por isso as músicas, os filmes, os livros, para pescar citações. Para capturar nas falas dos outros a vontade das minhas. Para ser espectador do que a vida pode ser. Nos outros. Sempre nos outros. Em mim não. Em mim a vida é limitada.

Vou buscando na arte alheia a experimentação. A sensação, o arrepio, a excitação, a fome e o que comer. Tudo que eu um dia já quis para a minha arte, para a minha vida. Não quero mais. O alheio já me basta. Alguns nascem assim, para ver. Não para viver. Sou desses.