terça-feira, 2 de outubro de 2012

a CISMA- por Dilma Alencar

Nas noites de insônia, ele não ligou, não deu notícias. Sua barba grisalha cobriu o rosto doce. Os olhos fundos não diziam para ninguém de sua dor. Madrugadas de cigarros e silêncio inundavam a varanda enluarada. Sentado no degrau entre a sala e a varanda, pensava em viagens de balão num céu estrangeiro. Na cozinha, os pratos sujos tomavam o espaço da pia, da mesa, do fogão. Na geladeira, as batatas e cenouras floresciam, tudo crescia a ausência do homem. Houve dias em que não tomou banho.

Durante os dois primeiros dias, ele ficou nu. Três maços de cigarro, um pacote de café, meio quilo de açúcar e uma ira sem alvo o alimentaram. No terceiro dia, pediu uma pizza e comeu querendo vomitá-la, a fome é mais forte que a dor e por isso tanta gente insisti em acordar. No quarto dia, as contas de luz e de água o esperavam no abrir da porta. Ele as recolheu, lembrou do mundo de fora, engoliu uma saliva azeda de cigarro e insônia. Teve medo.

Abriu os olhos diante do espelho, fechou e abriu os olhos e sentiu a vertigem de se saber só. Embaixo do chuveiro, a espuma, a água, o sêmen, as lágrimas e seu xampu vagabundo escorriam pelo ralo sujo. Tremor da primeira angústia, do primeiro gozo das lembranças dela. O corpo gozava a dor gelada do nunca mais.
No canteiro de sua casa, regou um túmulo, orou para um deus de entranhas fazer flor do mármore frio que ele exibia no quintal.
Vestido para a lida diária, encostado no muro perto do ponto de ônibus, acendeu um cigarro, tragou com mais cansaço que prazer e observou o movimento da vida. Estes primeiros passos doíam, sua mão ainda exibia o símbolo decadente dos cortes frescos. No caminho até a casa dela, pensava nos primeiros sinais do fim. Aquele não cheio de vírgulas e predicações, aquela viagem repentina na qual ela lhe castrou a liberdade exibindo-o como um acessório que dondocas infelizes compram em lojas limpas e refrigeradas. Lamentou as coisas não reparadas. Lembrou dos reclames, de falar sobre superficialidades sociais, redes,rendas. Pensou em comprar uma mochila amarela que vira numa loja do centro. 
Sorriu, por instantes seu rosto alargou-se em esperança, brilhava. Quem o visse no ônibus naquela manhã diria se tratar de um jovem noivo. Depois de um merecido poço escuro, ele reencontrou o vigor que morria rotineiramente entre as coxas, as falas, os lábios, os seios da mulher que lhe trouxe, com a partida, o homem com visgo e sede.

Não negava os dias ruins, de manhã o cheiro de café lhe enjoava o estômago, faltava a harmonia do frescor do corpo de sua mulher, ninfa morena anunciando mel e flor no seu quintal. Sofreu sem gritos a morte do filho que não tiveram, o acampamento que foi adiado pelos motivos de sempre, a viagem de balão que lhe prometera, aquele poema na parede da cozinha, as fotografias em que ela lhe sorria com um derrame de ternura que desequilibrava seus sentidos.
Varreu a casa, lavou a louça, fumou e fez as malas. Antes de partir, compraria a mochila amarela. O túmulo no quintal não lhe deixava dormir, gritava seu nome.
Era a voz dela.

2 comentários:

  1. Excelente escrito, Dilma.
    A angústia é sentida na pele de quem o lê.

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  2. Obrigada, Linné.Um xero.

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