segunda-feira, 4 de março de 2013

aSSEPSIA - Por Vinícius Linné


Não que ele seja especialmente sujo. É humano. Só. E descama, respinga, amarrota, esfarela, suja, escorre, escoa e flui como qualquer humano. Maria Odete não. Maria Odete não tem sobras no mundo. 

Ela é asséptica.

Ele, o humano, é casado com Maria Odete.

Quando ele chega em casa do serviço e vai até o quarto, ela varre a calçada, a sala e o corredor. Ela apaga o rastro microscópico de poeira que ele deixou. E pega os sapatos – que ele largou jogados no chão! – e passa neles um pano úmido. Por fora e por dentro. Depois, ela organiza os papeis que ele trouxe, coloca a pasta no lugar certo, escova o paletó e põe no armário, bota o resto da roupa toda para lavar.

Quando ele sai do banheiro, ela entra. Vai enxugar a pia, secar os azulejos do box, passar um pano no espelho embaçado. Apagá-lo, enfim, até o último traço de vapor e perfume caro.

Quando ele acaba de fumar, ela recolhe o cinzeiro, joga as cinzas no lixo e lava, esfregando com força, como que para removê-lo também dali.

Quando ele levanta do sofá, ela corre desamarrotar a manta que o cobre. E trata depressa de ajuntar cabelos e cascas e caspas que ele possa ter perdido enquanto esteve sentado. Não quer pedaços dele descansando sobre o sofá.

Quando ele bebe água, se pinga por descuido no chão, ela logo franze o cenho. Pega flanela e seca, resignada, ajoelhada como quem expia um pecado imenso. Nunca deixou qualquer mancha dele sobre a mesa.

Quando chega, finalmente, a notícia de que ele morreu (espalhando-se todo em vísceras e sangue e partes por um asfalto duro), Maria Odete chora. Chora ainda ao telefone, vertendo lágrimas que caem pelo vestido e mancham o piso de linóleo. E ela olha então para o sofá: imaculado. Ela olha para os móveis: nenhum sinal. Ela corre para o quarto, cheira as roupas dele: todas rescendem a sabão e amaciante. Ela vai ao banheiro: não há sequer um fio de barba dele incrustado no barbeador elétrico. Tudo na casa age como se ele nunca tivesse existido. Ou como se tivesse existido sem qualquer materialidade, sem cheiro, sem rastro, sem nódoas, sem impressos digitais perdidas, sem ser, enfim, verdadeiramente humano.

Maria Odete chora mais.

E então, de repente, sobressaltada, volta à sala e começa a lustrar o linóleo onde suas lágrimas caíram. Que não fique manchado, pelo amor de Deus, que não fique manchado!


Um comentário:

  1. Muito bom. Como se ela o apagasse a cada passo.

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