terça-feira, 15 de janeiro de 2013

o DIA EM QUE AS LÁGRIMAS ABENÇOARAM O FIM - Por Dilma Alencar


À mesa posta, nos olhamos em silêncio, o silêncio árido, ali nasciam nossas sepulturas.
Os pratos brancos e limpos dispostos elegantemente sobre a mesa não se comoviam com nossas vergonhas e cicatrizes.
A carne, a salada e o vinho, ofendidos do nosso fastio, exibiam irresponsáveis, seus aromas.
A sala, pouco iluminada pela luz da cozinha, abrigava nosso medo de morrer na primeira noite de um verão que se abria em icebergs nas camas arrumadas.
Seus óculos na estante atacavam meus nervos com pistas do que faria falta.
As velas acesas aos pés de Iemanjá faiscavam meu desespero de partir.
Nos falamos com o cuidado de ser breve,pois o tremor e a rouquidão da voz diziam da debilidade de nossas decisões.
Após o primeiro corte, a primeira garfada engolida com dor no nó da garganta, depois de engolir sem prazer, os olhos se encontraram com uma distância aguda, um aborto doeria  menos do que aquele vislumbre.
Úmidos, salgados e rápidos em sua rota de fuga, nossos olhos encontraram o molho, o sal, o guardanapo.
Bebemos vinho. As taças transbordaram como açudes barrentos, revoltos e sujos de terra vermelha, mas os olhos permaneciam fiéis ao cenário de serenidade e amadurecimento que pretendíamos.
Na cozinha, o verde rompia a terra preta, as sementes plantadas brotavam brutas e indiferentes à ruína da janta, confortáveis em seu vaso rosa. Mais um verso tecia o confuso espetáculo da nossa linguagem.
Sobre o sofá, uma mala pequena estendia a alça convidando minha partida. A mala pesava uma vida.
Recolhidos em papel, panos, escova de dente e caneta bic, todo objeto carregava a dor de um filho morto, morto antes de ter asas.
Sem orações e sem fé, a parafina inundava o chão da sala. O som da TV não alcançava nossos ouvidos úmidos das promessas que os corpos gozaram.
A toalha de mesa branca pedia paz na fronteira da dor virando água. Deixaríamos um filho nas entranhas.
A mesa coberta de orvalho rompia as raízes do orgulho e da violência. Lírios brancos flutuaram acima dos pratos sujos.
Arriscamos um riso sem motivo, ensaiávamos a persona do próximo carnaval.
Sentimos o penhasco embaixo da mesa.
Partimos para uma realidade por fazer. De metal ou de manto, partimos.

4 comentários:

  1. Hay otras maneras.
    No debemos caer en absimo.
    Hermoso texto...

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Obrigada por lê-lo e dizê-lo.

      Excluir
  2. Estive eu ali também, tamanha força do teu texto. Me lembrou de um banquete descrito por Clarice. Mas o dela é todo solar, enquanto esse é crepúsculo.

    ResponderExcluir
  3. Linné, Clarice descreve num certo conto, acho que "Janta", um homem mastigando.De Clarice eu não sem nem dizer do tanto que gosto.Obrigada por ler meu texto,Linné. Seu olhar me deixa contente.

    ResponderExcluir

o Febre CRÔNICA agradece sua leitura e comentário.