Desejo o delírio, o delírio de ver o mundo reunido num corpo frágil de
uma mulher e ainda dormir em paz.
A novidade de nascer um mar nos olhos gulosos do desconhecido e ser
prato e pranto para toda a fome, fazer de seus passos guias e novenas, velas
acendendo e uma jangada para o mundo.
Segurar todas as certezas com a mão direita e desejar que o dia não amanheça
enquanto se faz luz, porque há luz.
Ver as flores cobrirem a terra, ter o encanto de ter o desespero tirado
com a mão, não sentir o abismo que o corpo precipita em vertigem e em poros.
Nua, cobrir de milagres o corpo em nó, enquanto se ouve flautas doces
chegando com a maresia de suor, como pequenos gestos que sustentam impérios,
erguer colunas de um pequeno castelo apenas com um abraço matinal. Anunciar com
lágrimas o fim do medo de morrer, arrumar a cama com a mesma devoção que um
louco anuncia o evangelho.
Dormir, dormir com o mundo entre as pernas e braços, sentindo o hálito
quente da boca que traz a natureza em água e sal.
Rir dos cortes, dos pontos, das amputações, do tédio, da miséria
crescente de parecer.
Reconhecer a única possibilidade de encontro. Plantar, no silêncio das
madrugadas de lua, promessas de açucenas e ouro. Romper com os pactos de falso
amor e ser tão irresponsável a ponto de invocar anjos para embalar a festa de
orixás, quando tudo é mar, navegar a ternura em ondas de ressaca e palavras
assonantes, contemplar o corpo como se uma sentença de fim estivesse fixada no
punho, perder os prazos, perder os horários e ser doce, doce como quem anuncia
a paz.
Ser arauto da primavera, perdoar as pequenas mortes em camas alheias,
saber crescer a solidão.
Dançar entre duendes, plantar pé de laranja no quintal, comprar pé de
pimenta para enfeitar a sala, pensar no melhor conto para ler junto. Comprar
presentes em papelarias excêntricas, fazer um quadro com cores em par.
Ter num encontro a satisfação de todas as fomes. Passar horas pensando
na cor do esmalte e deixar o artigo para a semana seguinte, andar de metrô
durante horas e ainda ter sorriso e humor, cumprimentar os bêbados na calçada,
falar dos poemas do Caeiro enquanto os amigos discutem a banalização do sexo e mentem
aventuras sexuais nem sonhadas.
Rir junto com os poetas que
brilham rimas de magia, de laços de fita, de maracatus ébrios, que creem nos
passos de Oxum, que ouvem Circe, porque ela existe em dedilhados de violão. Comprar
vinho e cerveja como quem alimenta filhos.
Sorrindo à santificação da carne prever a velhice em novos planos, criar cactos
e cachorros, e de repente deixar alguém entrar em casa.
Olhar os dois pratos sobre a mesa com um frio na barriga e escrever um
dicionário para os substantivos que ela mudou: lençol, chá, horas, pulseira,
cachecol, caderno, bloco de notas, água, pinça, bolsa, cerejas, mesa, clipes,
presilha, leite, lápis, borracha, suspiro.
Chegar atrasada numa Segunda de sol, com a cara feliz e amassada de quem
não dormiu e sorrir no fim do dia pensando que é deus. Ser cicerone bêbado da
cidade que construiu pra ela, nas noites de solidão chorar o medo da separação,
tomar banho de cachoeira junto, descobrir que alguns filmes dela você já viu
mais de uma vez, comprar alfajores adivinhando qual sabor ela prefere, comprar
uma bicicleta e voltar para casa com pressa, sem parar nos bares, comprar
poesias avulsas.
Trabalhar muito para ter dinheiro para sábados intermináveis, costurar
um discurso bonito para regar flores amarelas, viajar para o Peru e levá-la
para o sertão e o mar. Cozinhar massas sofisticadas ou miojo e achar que é a coisa mais importante já feita. Comprar uma
coberta nova com a cor que ela gosta, morrer de medo e alegria dos símbolos
enchendo a sala: lixa de unha, esmalte preto, pulseira esquecida, livro de
sociologia, incensos, marcadores de página, óculos.
Saltar de para- quedas, dividir aquele canto da cidade que você sempre
vai só, para meditar sobre a falta de prumo dos dias vãos. Comprar travesseiros
novos naquela loja da Imaginarium que
ela tanto gosta, e pensar em mil e uma formas de dizer do seu bem querer sem
parecer repetitiva nem carente, de repente falar assim no modo como você adoça
o café pra ela, ou então de como você sempre espera que ela perceba que você
não está com pressa, porque todo lugar é mesmo perfeito e completo quando ela
está, e não esconder que morre de medo de amanhã não ser exatamente como é
hoje, sem atrasos de respostas. Rezar para chover quando ela está porque o
barulho da chuva a deixa mais introspectiva e bonita.
Colar recados indecentes na parede da geladeira e fazer pudim com a mesma
atenção que você põe a olhá-la, esperar que ela fale e dar silêncio quando
entender o cansaço, comprar ingressos antes de todo mundo, só para que ela ocupe
a melhor cadeira. Dividir a solidão dos cafés com a linguagem de uma flor.
Para todos os de coração mole, amor.
Nada de contratos, amor.
cada vez mais...perfeito!
ResponderExcluircris..bj.
Obrigada,Cris. Vixe!Fiquei toda contente com sua leitura e seu comentário por aqui.Um xero.
ResponderExcluirLetras escorrendo em perfeita harmonia. Misturando sangue, saliva e devoção. É mais ou menos assim que sinto. Em perfeita afeição, Srta Dilma Alencar.
ResponderExcluirBeijos.
Obrigada, Simone.Um xero.
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