terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

mADALENA - por Adilma Alencar.




João acordou e cuidou das flores. Preparou café. Não gostava de café, fez só para trazer de volta a graça de Madalena, como se precisasse. Depois do banho, enquanto escovava os dentes olhava o espelho, seus olhos fundos, vermelhos, se envergonhou pelo choro, fora criado para ser homem, homem não chora,dissera seu pai. Embora sozinho, ele sentiu o olhar de reprovação do pai,esfregou os olhos e chorou,voltou para o banho, o barulho da água caindo se misturava ao som do seu soluço, sua humilhação foi lavada ali, com água quente, xampu, sabonete.
Evitou o espelho, abaixou a cabeça, pegou a toalha, cabisbaixo e grave, entoou um samba. Um homem sozinho engasgando um samba quase fado era o avesso das alegorias. A sala era a avenida solitária, onde as fantasias, pequenas pistas de enredos, repousavam à espera de Madalena. Abriu a janela da cozinha. No varal, o sol intensificava as cores azul, verde, branca, da saia que Madalena desfilou sobre seu colchão. Seca e leve, a saia dançava límpida como aquela primeira manhã de ausência.
Na brisa fresca a vida era uma ofensa ao seu luto de ser homem sem Madalena.
Ele, menino, cheirava a renda perfumada da noite que Madalena estava.
O violão convidava João à cadência em Lá Menor, entre seus dedos de tantas linguagens ébrias, era Madalena que silenciava. A flor de pano sobre a cama, desamparada sem os cachos dourados dela. A tristeza do pote de açúcar junto ao de café. Existir entre aquelas paredes testemunhas de tanto visgo de amor era uma ferida nova que fazia de João outro homem, O que podia João diante do cenário vazio? Sina ou cisma?Não se sabe.
_Puta, puta.
Ele repetia. Os nervos do pescoço saltando quentes, nos soluços de raiva e paixão.
Na cozinha, passos lentos entre o fogão e a geladeira.
O pano de prato sujo estranhava a ausência dos gestos femininos, a casa secava sem perfume e sem barulho.
Ladeiras, ladainhas, enredo primeiro amor, nó cego, cipó de corpo junto.
Meses de noites caras, de dias de cio e chuva, cerveja e suor. O preço não excluía o encantamento, antes estimulava, e o sexo tomara a rotina sob seu teto marrom.
Há oito meses, convidara Madalena para dançar, com a intenção de conduzir fora conduzido, hipnose ou a embriaguês de boêmio fez com que o decote de Madalena roubasse a cena. Vaidosa dentro de suas curvas macias, ela sorria e suspirava leve no refrão de Noel.
Perfume, colar, anel e aos seus pés, João. Homem maduro em plena meninice de primeiro encanto, sem dinheiro para mais nada, manter Madalena brilhante custava um coração e metade do ordenado tímido de marceneiro, profissão que aprendera com o pai.
Os encontros, assim como os desencontros, podem acontecer ao acaso, sem explicação.
É a dúvida que desce goela abaixo junto com a cachaça com limão, que João toma entre um móvel e outro, um intervalo e outro.
Ela partiu como tantas vezes partira. Sem dor, com alegria e fome, é de Madalena ser do mundo, do seu mundo.
Foi rainha, foi senhora de João. Teve o homem.
Teve.
Como nenhum homem há de tê-la, teve.
Ela pintou o rosto, os olhos destacados, olhos insinuantes, cínicos, delineados por lápis preto repetidas vezes, sombra dourada como sua alma em dia de avenidas abertas. E batom rosa, escandalosamente rosa, unhas cobertas de vermelho púrpura.
E o olhar de quem acabara de gozar. Assim saiu às ruas, exibindo suas vontades em símbolos vermelhos e macios.
Madalena segue pura de platonismos, isenta da rotina.
Madalena fuma e ri, enquanto passa em frente à Catedral da Sé com um novo cliente.

6 comentários:

  1. Eita, quero ser essa Madalena. Que texto lindo!!!

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    1. Obrigada,moça das cerejas! Madalena é do mundo.

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  2. Adorei amiga Dilma! Perfeito

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    1. Obrigada,Angel.Um xero pra você.

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  3. Madalena é desapegada... E me lembrou demais a última conversa que tivemos, entre cerveja e feijoada, sobre as prisões dos sentimentos.
    Belo texto,

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  4. É,Simone.
    Madalena não conhece prisões.
    Obrigada pelo olhar,Si. Um xero.

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