terça-feira, 9 de julho de 2013

iMPERATIVOS DE MARIA - por Adilma Alencar


            Maria: o lenço, o limbo, desprezo na minha língua, as nuvens todas ainda na minha boca, meu sangue entre as pernas, a filha que vai nascer, rugas no seu espelho, primeiro desejo de morte, cafés com creme, as estações de trem ou o beco das ruas escuras, as sombras de Capitu, a cegueira de Blimunda, deus aberto em flor de mandacaru, deus entre minhas coxas, a eternidade em suor e sal, as lágrimas da mulher que enterrou o filho, as unhas cortadas a dentes, ardentes, infames e sujas. Maria: Canção torta de um lirismo de choro, esmaltes secos na minha estante, cachecol azul na minha cama, pasta de dente na minha pia, atraso de relatórios, cheiro entre papéis, papéis trocados, terapia de sol e grama, elástico de minhas vontades oblíquas, fome de cor, nas curvas de desejos fáceis, mel com cachaça, candeeiro, cangaço de minhas tentativas, arapuca de confete, bicicleta em tarde fria, água gelada, corpo em nó, em laço, lance, visgo de rotina de pele, placidez em dentes, em ferida, vontade de escrever sobre o céu, de violentar uma certeza cravada nos ombros, aliança de plástico, umbigo-mapa-mundo, estampa de poesia na nuca, angústia no nunca, abismo de boca aberta ao meu encontro, precisão, guilhotina, merthiolate, suspiro com veneno, prozac, paracetamol, chá de cogumelo, meu golpe, minha gare, emplastro, nódoa da caju, visgo de jaca, pinha, remendo de arame farpado, fiapo de manga no dente branco.

         Maria, me levanta do chão? Me abre em inferno, em tapa, em teto. Transe com um monge, com uma puta e volte para minha casa, banharei seu corpo, lavarei seu cabelo com chá de pitanga, passearei os dedos na sua nuca, abotoarei seu casaco e dormirei com essa ilusão de que seu calor, da Sibéria, compassa minhas angústias.

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